Millor Fernandes:


Jornalismo, por princípio, é oposição – oposição a tudo, inclusive à oposição. Ninguém deve ficar acima de qualquer suspeita; para o jornalista, não existem santos.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Previdência não é direito, é investimento

Uma das coisas que mais tenho chamado a atenção nos últimos anos é para prestar atenção aos termos de um debate. Muito da mediocridade do debate público de hoje se deve ao fato de que muitas palavras são usadas de forma inadequada, de forma a marcar posição mais do que, de fato, expor uma ideia objetiva e que tenha um significado claro na realidade.

Se as palavras são a matéria-prima do pensamento, então a qualidade do que pensamos se deve muito à qualidade das palavras que são utilizadas. Se utilizamos palavras vagas ou ambíguas demais, nosso pensamento tende a se tornar também tortuoso e confuso. Intelectualmente falando, é como construir uma casa de palha esperando que ela tenha a mesma substância e robustez de uma casa de alvenaria. E a única forma de garantir que sejamos capazes de pensar claramente é definir adequadamente os termos que utilizamos. Furtar-nos desta tarefa é pedir para sermos enganados por charlatães com o dom da oratória, mesmo que não sejam capazes de expor uma única ideia coerente.

Talvez um dos melhores exemplos disso seja a forma com que a palavra "direitos" é utilizada, principalmente ao se referir a temas como a previdência.

Um sujeito que esteja fazendo uma poupança - para qualquer fim - e apenas guarde dinheiro embaixo do colchão não tem direito de reclamar quando percebe que esta poupança, quando chega a hora de usá-la, é insuficiente se comparado ao amigo que colocou em uma conta poupança gerando juros. Da mesma forma, alguém que investiu na poupança dificilmente teria direito de reclamar do fato deste dinheiro não ter rendido tanto quanto o dinheiro de outro que tenha investido em outros fundos mais rentáveis, como o mercado de ações.

Curiosamente, tal lógica parece desaparecer toda vez que se fala sobre o dinheiro do governo. Pessoas que agiriam de forma completamente lógica ao fazer um investimento parecem ser incapazes de aplicar esta mesma lógica ao dinheiro do governo - simplesmente evitando falar a palavra "investimento" e chamando-a de "direito". Fale com qualquer amigo esquerdista e veja-o falar horrores sobre o tal "regime de capitalização". Ele não saberá sequer definir ou explicar o que é, mas argumentará com toda a convicção do mundo que este regime serve apenas para garantir o lucro dos ricos e dos banqueiros, supostamente às custas dos mais pobres (como se os depositantes de um banco qualquer pudessem ser beneficiados com a falência deste, vendo suas poupanças evaporarem nas mãos de gestores que não mais serão capazes de devolver o dinheiro que os depositantes possuíam em suas contas).

Se formos pensar como investidores de fato, a previdência pode facilmente ser encarada como um investimento em você mesmo. Ou um investimento na sua velhice se preferir. Me parece que nossa educação financeira é tão fraca que,  quando falamos de investimento, normalmente pensamos apenas em algo como comprar um carro ou uma casa própria. Mas mesmo neste caso, a previdência não é muito diferente. A única diferença é que a renda deste investimento é algo que será gasta aos poucos: ao invés de comprar uma casa ou um carro, ela irá sustentá-lo durante as últimas décadas de sua vida, quando a velhice não mais lhe permitir trabalhar com tanto afinco e produtividade como antes.

Se seguirmos por essa linha, não faz sequer sentido haver uma previdência pública, menos ainda compulsória. Chamar encargos como INSS e FGTS de "benefícios" serve apenas para impedir as pessoas de enxergá-los pelo que realmente são: investimentos ruins, fraudulentos e com pouca rentabilidade que o governo força o cidadão a pagar em nome de protegê-los, para fins eleitoreiros. Na prática, é como se ele lhe obrigasse a guardar o dinheiro embaixo do colchão quando você poderia financiar um apartamento e cobrar aluguel.

Não pense, tampouco, que esta será a última vez que haverá a necessidade de uma reforma. O "investimento" que o governo lhe força a fazer é fraudulento porque não há qualquer geração de riqueza, apenas pagamento de encargos, com custos cada vez crescentes e receitas cada vez menores. A maior prova disto está no fato de que você não vê absolutamente nenhuma "crise" nos fundos de investimento privado. Ainda assim, há quem insista na necessidade de uma previdência pública, supostamente para proteger justamente aquela parcela mais vulnerável da população. Chega a beirar a insanidade achar que, para cuidar dos mais pobres, é necessário um sistema que sofre de recorrentes crises - principalmente quando os mais pobres são justamente os mais afetados por estas crises.

Ainda assim, quando chega a hora de pagar, muitos ainda parecem perplexos ao perceber que o governo não mais é capaz de arcar com suas obrigações porque foram treinados a enxergá-la como algo garantido por considerá-la um "direito", sem se preocupar em saber de onde virá o dinheiro. Um investidor entende que há riscos em um investimento e ele pode perder dinheiro em algumas ocasiões. Quando algo é um "direito", a falha em provê-lo é encarado como uma injustiça, por mais previsível que seja este resultado.

Não precisamos de mais políticos cuidando dos pobres e idosos. O que precisamos é de mais educação financeira e de uma população que saiba cuidar de si mesma e administrar melhor o próprio dinheiro.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A EDUCAÇÃO NO BRASIL MUITO ALÉM DOS CLICHÊS – UM RETRATO REAL DO QUE ESTÁ ACONTECENDO





Depois de política, o tema mais discutido por especialistas de redes sociais por essas bandas é a Educação. Tema caro a todos nós – do meio ou não – ele foi assunto recorrente nos últimos meses tanto pelas confusões promovidas na curtíssima gestão Velez, quanto pela queda de braços promovida pelo atual ministro, Abraham Weintraub, e profissionais da área que se sentem ameaçados por suas medidas e declarações, como no caso do contingenciamento dos gastos das universidades federais e as acusações do ministro quanto à doutrinação de professores e aliciamento de alunos.

Bem, não vou me ater a bate boca de Clotilde aqui, nem levantar bandeira a favor de qualquer lado, o que pretendo mostrar é que, apesar de muito falado, poucos tem a real compreensão de como é a educação no Brasil, mesmo os profissionais da área não se dão ao trabalho de pesquisar e a tentar entender de maneira pragmática o problema e, na esmagadora maioria das vezes, ficam repetindo bordões e frases feitas promovidas por políticos oportunistas ou sindicatos, que no mundo real mais atrapalham do que ajudam. E mesmo esses profissionais do ensino que não procuram olhar de forma racional o drama educacional brasileiro, não o fazem nem é por canalhice, mas por terem sido malformados e também condicionados para acreditarem e reproduzirem ad eternum esses clichês.

Uma prova disso foram os argumentos usados nas manifestações que vimos no último mês onde professores e alunos – não farei juízo de valor, nem falarei nada sobre ter havido ou não coação dos alunos por parte dos professores, não é o intuito desse artigo – dentre eles, o clichê da falta de investimentos na área. Só que hoje, por exemplo, o país investe 6% do PIB – parece pouco, mas é mais do que o Chile e o Uruguai, os melhores sistemas de ensino da América Latina – e tem uma meta de investir 10% até 2024 (mesmo patamar dos países da OCDE). Isto é, como poderá ser visto logo a seguir, investir mais não significa melhores resultados.

Pois bem, as mesmas pessoas que apregoam que faltam recursos na área, não fazem a menor ideia de como ou se há qualquer relação entre gastos e produtividade, também não fazem a menor ideia dos reais números ou qualquer informação e não se dão conta nem de que eles próprios, professores, também foram vítimas desse processo falido e que virou fábrica de analfabetos funcionais. Abaixo enumerarei alguns números que servem para mostrar a quantas anda a educação e que servirá para se entender até mesmo porque os professores por aqui são como são.

O problema educacional já começa na formação do profissional de ensino e culmina nos resultados que mostrarei em breve, criando um círculo vicioso de baixa qualidade de ensino, que leva a um profissional mal preparado, que leva uma baixa qualidade e assim por diante. Dois dados iniciais já dão a tônica de como é formado um professor nas melhores universidades do Brasil:
  1.            Os cursos de licenciatura por aqui – vamos ficar nos principais: Letras e Matemática – dedicam apenas de 5% a 11% da carga horária para disciplinas didáticas específicas, em cursos de pedagogia o percentual ainda é menor, 4%, ficando o restante da grade dedicado a estudos teóricos diversos como sociologia ou história da educação (esses ficam em torno de 22% as obrigatórias e 20% as optativas);
  2.            Metade dos professores em atividade no Brasil não escolheram essa profissão, ou seja, um em cada dois professores queria fazer outra coisa. Pensem um pouco: como você vai trabalhar com competência e dedicação se não é necessariamente aquilo que você quer fazer?


Os dois dados acima não foram tirados do éter, eles fazem parte de uma pesquisa patrocinada pela UNESCO e feita em 2009. Essa pesquisa foi conduzida por Bernadete Gatti, que desde os anos 1980 estuda a situação do docente no país. Esse estudo revelou também mais um dado: os cursos de licenciatura, por serem os menos concorridos, acabam atraindo os alunos com os menores rendimentos escolares já que o nível de exigência para passar é menor (a relação candidato/vaga em Matemática na Fuvest, por exemplo é de 3 para 1).

Pois bem, o que isso serve para ilustrar, vejamos: a profissão que, segundo os memes forma outras profissões, é a que menos atrai cabeças pensantes. Atraindo somente os menos capacitados e ainda tendo uma formação precária, o que temos aqui é uma roda viva de alunos malformados que vão para as salas de aula e formam mal outros alunos, que por sua vez, viram novos professores e entramos num ciclo sem fim. E esses professores despreparados ainda são alvos fáceis de teorias relativistas e coletivistas, como a Escola de Frankfurt ou a pedagogia do oprimido. A realidade é que, quando o ministro fala sobre doutrinação nas academias e professores vêm putos alegando que não foram, na real, eles nem se dão conta do que lhes foi feito, são fruto de 3, 4, gerações de professores imersas nessas teorias, para eles – professores – essa é a realidade, é o mundo a que foram apresentados desde sempre.
E onde isso nos leva? Aos números sobre educação que listarei abaixo. Hoje, temos no Brasil:
  •          29% de analfabetos funcionais na faixa entre 15 e 64 anos;
  •          21% de analfabetos rudimentares na mesma faixa;
  •          8% de analfabetos absolutos (25% desse número são maiores de 65 anos);
  •          41% dos brasileiros na faixa de 25 anos não concluíram o ensino médio (no Chile e na Coreia do Sul, por exemplo, esse número é de 14% e de 7,5%, respectivamente);
  •          35% dos estudantes reprovaram pelo menos uma vez durante a sua vida escolar (a média da OCDE é de 15%);
  •          26% dos alunos abandonam a escola.


Esses números, somados aos baixos salários e os problemas de saúde relacionados ao ofício docente (66% dos professores se afastam por razões médicas, sendo 87% relacionadas ao trabalho em sala de aula), dão a tônica do que é a educação no Brasil. Isso é uma observação racional, a partir da coleta de dados reais e que passa ao largo dos clichês do tema. Infelizmente, aqueles que deveriam olhar de forma clara esses números e fazer algo, os que estão na ponta de lança – professores e gestores educacionais – na maioria das vezes aumentam mais ainda esse drama, não intencionalmente, mas por serem também vítimas desse sistema perverso que destrói a inteligência do país e impede nosso desenvolvimento.

E quando vemos um professor indo para as ruas protestar pedindo mais intervenção do Estado, quando vemos um ministro da Educação com discursos simplistas, quando percebemos a cegueira dos profissionais de ensino sobre a nossa rotina, fica claro o quanto poucos têm a real noção do que está acontecendo e que, infelizmente, esse nó ainda demorará muito a desatar.

Fontes:
ALBERTAL, Adriana L. Os resultados no Pisa: reflexões sobre a educação no nosso país. Direcional Escolas: A revista do gestor escolar, São Paulo, 19 set. 2018. Disponível em: < https://direcionalescolas.com.br/os-resultados-do-pisa-reflexoes-sobre-a-educacao-no-nosso-pais/>. Acesso em: 14 mar. 2019.
BARROS, Daniel. País mal-educado: por que se aprende tão pouco nas escolas brasileiras? Rio de Janeiro: Record, 2018.
MELANDA, Francine Nesello. Violência física contra professores no espaço escolar: análise por modelos de equações estruturais. Trabalho de pós-graduação em Saúde Coletiva. Universidade Estatual de Londrina, Paraná, 2017, 12 p.
PALHARES e DIÓGENES, Isabela e Juliana. Três em cada dez são analfabetos funcionais no país. Estadão, São Paulo, 06 ago. 2018. Disponível em: <ttps://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,tres-em-cada-10-sao-analfabetos-funcionais-no-pais,70002432924>. Acesso em: 14 mar. 2019.
PIERI, Renan. Retratos da educação no Brasil. São Paulo: INSPER, 2018.
TEIXEIRA, Larissa. Ansiedade, estresse, dores de cabeça e insônia estão entre os principais problemas que afetam educadores, segundo estudo realizado pela NOVA ESCOLA. Nova Escola. São Paulo, 16 ago. 2018. Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/12302/pesquisa-indica-que-66-dos-professores-ja-precisaram-se-afastar-devido-a-problemas-de-saude>. Acesso em: 14 mar. 2019.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

GAROTA EXEMPLAR E A EXALTAÇÃO À INFÂMIA




A desgraça alheia sempre causou fascínio nas pessoas. A fofoca, calúnia, o disse-me-disse sempre foi o assunto preferido da vizinhança e sempre rendeu histórias interessantes tanto que, com o advento dos reality shows, programas de auditório que exploram as mazelas dos mais humildes e as redes sociais, a infâmia atingiu seu apogeu. E se alguém brilhante, inteligente, que soubesse como ninguém ler a mente das pessoas (um psicólogo, por exemplo) e tivesse paciência e meticulosidade para usar essa máquina da injúria para destruir um desafeto? O que essa pessoa seria capaz de fazer? E se bastasse fazer com que acreditassem que alguém (um homem principalmente) cometesse algum crime, mesmo sem provas, ou provas forjadas, se bastassem as palavras de uma mulher vitimada (mesmo não provada), mas de caráter dúbio e com deliberada intenção de destruir um homem, por puro desejo de vingança? Eis o que nos traz a dica de hoje, Garota Exemplar.

A obra da jornalista norte americana Lillian Flynn, lançado em 2012 e adaptada para o cinema dois anos depois, foi laureado por sua trama surpreendente, cheias de reviravoltas e por mostrar quão extremados podem ser os atos de um casal que passa a se odiar e como pode ser contundente e destrutiva a vingança. Não pretendo falar da obra em si porque teve sucesso tanto no cinema quanto na literatura e a sua narrativa é bem conhecida (ou pelo menos deveria). Um ponto que nenhuma crítica se empenhou em observar na época de lançamento do livro e do filme e que é crucial para o desenrolar da narrativa é como a imprensa e as mídias podem ser o céu e o inferno na vida de alguém e como a justiça e opinião pública, com o avanço do politicamente correto, transformaram uma proteção em máquina de destruir reputações masculinas.

Realmente o livro é impactante. A trama tem a qualidade de agradar a leitores iniciantes e iniciados, vou me explicar: para leitores mais acostumados a tramas de suspenses, fica claro desde o início (um pouco de spoiler) que o marido Nick Dunne é inocente. Com duas vozes paralelas – a dele contando o que aconteceu a partir do desaparecimento da esposa, Amy Elliot Dunne, e a dela através de seu diário que vai contando como se conheceram até seu desaparecimento. Uma vida perfeita, um casal perfeito, uma mulher perfeita. Chegamos a acreditar nas evidências de que ele é realmente o culpado e ver por quanto tempo ele sustentará a farsa. Assíduos desse tipo de narrativa percebem que tudo é uma mentira contada por ela e o que prende ao livro e descobrir como Amy consegue criar uma cena de crime tão perfeita que o seu esposo não consegue se desvencilhar. Para leitores menos experientes, mesmo esses mecanismos não dão a pista de que a jovem é a vilã da história. Ponto para autora que sabe prender vários tipos de leitores, porém esse não o meu ponto de vista e que me chamou a atenção no romance, vamos a ele.

A forma como Amy deixa as pistas leva todos a suspeitarem de seu marido, como já foi dito. Mas a vida de Dunne começa a desmoronar quando cai na mídia e a imprensa começa a acompanhar todos os rumos da história. Acampam na frente de sua casa para manter a atenção dos espectadores, fazem especulações e inflamam a já delicada situação. Apresentadores sensacionalistas se aproveitando de todo o clamor popular começam a tomar partido e o que era a vida pacata de um homem comum vira um inferno de invasão de privacidade e destruição de reputação.

Mesmo quando a esposa volta e muda todo o rumo da narrativa (outro spoiler), a mídia televisiva e da internet tentam tirar proveito. Uma fala que descreve bem o que está acontecendo é a do advogado que, num dado momento, diz que os argumentos de Nick não dão tv boa, ou seja, não jogam a opinião pública e os possíveis juízes no seu provável julgamento a seu favor.

Sendo jornalista, a autora conhece bem esse meio. Nós, como consumidores de mídias também e somos ávidos por histórias empolgantes e sórdidas, faz-nos ver como nossas vidas no fundo são boas. E essa imprensa sensacionalista que vive de escândalos é mostrada de forma como realmente é: não importa quem diz a verdade, o que importa é uma boa fofoca, que venda e dê audiência. A protagonista é uma psicóloga metódica e disciplinada, ela conduz nós, leitores, e jornalistas a acreditar e a odiar seu marido. O advogado, sendo o melhor nesse tipo de caso – conflitos conjugais que terminam em crime – também conhece esses profissionais e faz o protagonista ser admirado e perdoado. Quando Amy volta (mesmo com uma história com furos) e reata com seu esposo, ambos se tornam os queridinhos da América. É uma crítica contundente tudo isso. A autora usa a trama para mostrar como existe e funciona essa indústria da infâmia que alimenta sites e revistas de fofoca, programas que exibem o pior das relações humanas, Flynn expõe o lado negro do quarto poder.

E eu fiquei pensando nesse livro durante esses dias ao ver o filme (confesso que pela primeira vez) e acompanhar um tanto dispersamente o caso do estupro do Neymar. Sem fazer qualquer defesa ou apologia ao menino Ney (nem simpatizo com ele, aliás), acho inclusive que ele foi no mínimo ingênuo – para não dizer burro – de cair numa armadilha dessas. O que me reportou ao caso foi o fato de que ele não é o primeiro a cair nesses golpes oportunistas de mulheres que querem se favorecer às custas de famosos e, ao não conseguirem seu intento (um casamento ou pelo menos um filho – o mais fácil), partem para a vingança usando toda a máquina jurídica e de mídia contra o infeliz.


Ao fazerem uso de maneira premeditada de legislações que protegem as mulheres e do senso comum e politicamente correto de que o homem é a personificação e que qualquer mulher estará sempre acima de qualquer suspeita, elas acabam destruindo a reputação de homens públicos ou nem tão renomados assim. É comum vermos casos de denúncias de estupros ou agressões que levam muitas vezes homens corretos que só não quiseram continuar uma relação, talvez, e só depois de algum tempo, no decorrer do processo, descobre-se que a denúncia foi falsa, mas já tendo destruído a vida do sujeito, seja famoso ou não.

Mas o pior de tudo isso é o efeito colateral dessas denúncias falsas, principalmente as cercadas de sensacionalismo. Devido ao crescente número desse tipo de denúncia, o que passa a acontecer é que essas ferramentas de proteção das mulheres, que são relevantes – não desconsideremos que existem muitos indivíduos merecedores de muita porrada pela forma como tratam suas companheiras, sujeitos que mereciam serem empalados por cada porrada dada numa mulher – perdem a confiança da opinião pública. Para cada denúncia falsa desse tipo (considerando que no momento desse texto, o Neymar ainda está sob investigação) todo o aparato da justiça deixa de ser direcionado a quem realmente precisa e no caso de pessoas públicas, faz com que essas notícias percam sua importância.

Eu poderia ficar horas aqui enumerando casos de denúncias falsas e como isso se assemelha ao enredo do livro, mas por hora, deixo a dica de leitura, o toque para possíveis leitoras para que sejam mais responsáveis e cuidadosas nas suas escolhas – a começar pela escolha do parceiro – e para os possíveis leitores que mesmo não sendo o Neymar, devem ficar espertos com as garotas exemplares que podem cruzar seu caminho. Até a próxima.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Game of Thrones: Porque muitos não gostaram do Final? Parte 1 A Teoria dos Jogos em Game of Thrones.


Game of Thrones, Teoria de Jogos e desconhecimento básico de política. Porque muitos não gostaram do Final? 

Parte 1 A Teoria dos Jogos em Game of Thrones.

A insatisfação de boa parcela dos fãs de GOT revela uma verdade muita clara se trouxermos para nossa realidade cotidiana de como as pessoas desconhecem o básico sobre política.

Game of Thrones apesar dos zumbis de gelo, lobos gigantes e dragões sempre foi um ensaio sobre teoria dos jogos e política numa roupagem fantástica medieval. A Teoria dos jogos pretende estudar os passos estratégicos de um individuo quando o resultado depende das escolhas e movimentos de terceiros. Sejam adversários, concorrentes ou mesmo amigos, amantes e familiares.
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Contém SPOILERS diversos de toda a série.
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A historia logo de cara nos apresenta o Rei Robert Baratheon, o mais velho da casa Baratheon, o rei bêbado e incompetente sem aspirações políticas que só chegou ao trono após uma revolta por um coração partido ao ter sua paixão e noiva Lyanna Stark, da nobre família Stark do norte também conhecido como Winterfel, um dos 7 reinos/estados que constituem o reino de 'Westeros' roubada por Rheagar Targaryen, a família real de Westeros, herdeiro do trono de ferro. Após destruir a casa Targaryen e depo-los do trono, torna-se rei e faz alianças com a Casa Lannister - mais rica do reino a quem Robert vivia pedindo empréstimos, o que aumentava cada vez mais o poder dos Lannisters sobre seu reinado - casa-se com uma mulher ambiciosa e sem escrúpulos - Cersei Lannister, que sempre almejou o poder, ser rainha mas tinha como grande calcanhar de Aquiles ser amante do próprio irmão Jayme. A descoberta desse romance incestuoso pela "mão" do Rei é o que dá inicio a toda trama política.

Do outro lado do oceano e longe dos 7 reinos unificados temos a jovem Daenerys Targaryen, sobrevivente do massacre de sua casa criada em exílio em outro continente com seu irmão - Lembrando que Robert sabendo da existência de uma Targaryen ainda viva postulando ao seu trono e querendo vingança pela destruição de sua família, tentou mata-la algumas vezes - É provável que sua trajetória até antes de cruzar o mar fosse a mesma independente de Robert ser morto pela própria esposa, querendo usar seu filho como um avatar de rei enquanto ela joga os dados. E todo o desenrolar do jogo em Westeros.

Da outra ponta de Westeros temos os Starks, enfurecidos com a morte de seu pai Ned Stark, melhor amigo de Robert e convidado pelo mesmo para ser sua nova "mão", após esse também descobrir o adultério incestuoso da Rainha e que seus três filhos herdeiros do trono na verdade são todos bastardos filhos de seu irmão, portanto, ilegítimos.

Passam se 6 temporadas. Chegamos a oitava e última temporada com três personagens centrais postulando ao trono. Duas querem a coroa um, o único legítimo herdeiro ao trono, não.

Temos Cercei Lannister, odiada mas temida a típica tirana sem escrúpulos capaz de usar o próprio povo como escudo sem se importar com as consequências somente para manter o poder.

Jon Snow, o "herói" da trama filho legitimo de Rheagar Targaryen e Lyanna Stark e verdadeiro herdeiro do trono, criado como bastardo de Ned Stark que prometeu a sua irmã protege-lo da fúria de Robert Baratheon; porém, este total desapegado do poder e demonstrando ao longo da serie que seria outro rei incompetente (justo, porém sem tino para a política). Muito mais um herói preocupado somente em salvar as pessoas e símbolo capaz de unificar pessoas do que um governante e jogador.

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 E temos Daenerys Targaryen com desejo de poder e vingança com um exercito numeroso e a maior arma de guerra apresentada na serie: Dragões. Porém, adotando um discurso libertador do povo mesclado a um direito quase divino ao trono. A "Nascida na tormenta", "a não queimada", "quebradora de correntes" em vários pontos da série demonstrou ser a personificação de um déspota esclarecido. E após chegar a Westeros se apaixonar por Jon Snow, herói de guerra e querido por nortenhos e selvagens, e após perceber que estava isolada e perdendo seus leais amigos, vendo a legitimidade ao trono ir literalmente, pro saco apos Jon "sabe de nada, inocente" Snow ter lhe contado a verdade sobre sua recém descoberta origem e rejeitada pelo amado percebeu o óbvio, para um ditador prepotente e egocêntrico. Nunca seria amada pelo povo que desejava dominar. Nem mesmo com todo seu discurso libertador da opressão dos mestres. E para ser respeitada teria que ser temida. E literalmente dizima toda a população de Porto Real, inclusive mulheres e crianças, com seu dragão, Drogon. Terminou morta por Jon após esse finalmente entender que sua rainha era uma genocida com um discurso bonitinho. E que ela faria o mesmo com seu povo e família no Norte.

Daenerys poderia perfeitamente assumir a real identidade de Snow, casar se com ele (algo normal entre os Targaryen) e ela reinar absoluta o usando como avatar. Coisa que Cersei fez com seus dois filhos. A arrogância de Daenerys foi seu fim. Por arrogância, prepotência e, talvez loucura; preferiu tomar o poder pelo medo.

Ao matar Daenerys Jon se tornou um pária. E torna-lo rei ou mesmo liberta-lo criaria outra guerra, talvez ainda mais sangrenta em Westeros.

Nenhum dos três poderia ganhar o jogo. Essa era a realidade. Todos tinham seus calcanhares de Aquiles e em algum momento do jogo cometeram erros crassos ou foram levados a loucura. O desenrolar dos fatos e das decisões erradas levaram a esse fim.

Não à toa o dragão "Drogon", numa perfeita metáfora entende o que ninguém mais tinha entendido. O inimigo, o alvo de disputa era o trono de ferro, símbolo de todas aquelas tragédias que culminou na morte de sua dona, ou mãe; e ele o destrói derretendo-o com suas chamas.
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No final, escolher Bran Stark, o "Corvo de três olhos" para rei foi a decisão mais sábia, muito embora possam dizer que Bran manipulou todas as peças do jogo, um detalhe me faz crer que não. Apesar de quase onisciente, Brandon não sabia que Jon Snow era filho legítimo de Rheagar e Lyanna e real herdeiro. Isso na minha opinião invalida a teoria de que o corvo foi o maior jogador da série; Ignorando essa tese, pra mim, quem melhor jogou o jogo foi Sansa Stark que aprendeu bem com Baelish ("Mindinho", um dos melhores jogadores da trama) e com Cersei - seus "mentores" - e terminou coroada a "Rainha do norte", dizendo na cara de todos que o norte não se ajoelharia a Kings Landing nem mesmo para um Stark.


Assim Ned Stark, o pai morto na primeira temporada, viu dois filhos terminarem reis. E um sobrinho heroi virar "lider comunitário" dos selvagens. O "Rei além da muralha" num prêmio de consolação com cara de final feliz pra quem nunca quis ser rei.
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Fim dos spoilers
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Isso é teoria dos jogos. A maioria das pessoas desconhece esse ramo da ciência e matemática. Assim como desconhecem politica e fazem as escolhas dos seus eleitos pelos motivos mais passionais, irracionais e as vezes mais canalhas possíveis.

Mas isso é outro assunto. E merece um post a parte só pra ele.

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  Era melhor ter deixado ele ganhar...

terça-feira, 21 de maio de 2019

THANOS, O VILÃO DO BAIXO LEBLON



Thanos é o vilão do momento. A essa altura do sucesso do filme Vingadores e de todo o rebuliço nos últimos anos com os filmes da Marvel Studios, ele não só não precisa de apresentações, como (acho que posso dizer sem medo de errar por excesso) entrou para o hall dos maiores vilões do cinema. Está entre os maiores porque, de certa forma, ele é mais real do que pensamos, vejamos por quê.
O que o move é o seu desejo de equilibrar o universo. Thanos considera que as criaturas que vivem nos mundos habitados (estamos falando de uma narrativa criada para os quadrinhos, não esqueçamos) destroem seus recursos, povoam de forma desordenada levando até ao próprio extermínio, ele acredita que todo o universo vai deixar de existir se algo não for feito. E ele faz. Reúne as Joias do Infinito e com elas reequilibra as coisas dizimando metade de todos os seres do universo, pois acredita que, reduzindo as populações pela metade, a que sobrar ficará grata por ter mais terras e possibilidades de sobrevivência. Ele se vê como alguém inevitável e acredita que está fazendo o bem.
O problema é que ele desconsidera alguns fatores relevantes para pôr seu plano utópico em prática: a resistência desses povos para preservar os seus, o desejo de lutar para desfazer tudo e trazer de volta quem perderam e ainda, desconsidera as condições populacionais que permitiram a esses mundos evoluírem. Sua visão malthusiana faz com que ele não perceba que com metade das populações, perde-se também metade da força produtiva, metade da mão-de-obra e metade dos consumidores, isso gera escassez, carestia e uma vida muito pior do que antes e os sobreviventes lutarão para restaurar o que tinham porque, por pior que pudesse parecer, era o seu mundo.
Não satisfeito com a rebelião, por achar que foram ingratos, que a lembrança do mundo como era faz com que não aceitem o futuro maravilhoso e perfeito que os aguardam, Thanos toma a decisão drástica de destruir todos e então criar novos habitantes para esses mundos, criar os povos ideais, que não possuem quaisquer lembranças do mundo anterior e que serão gratos pelo porvir nessa realidade idílica, a materialização do Éden. No fundo, ele não é mal, ele só quer equilibrar a realidade e finalizado seu projeto – não importando quantos morrerão para que esse equilíbrio chegue – irá para o seu jardim, cuidar de sua vida, sua horta e viver em paz.
Olhando assim, parece coisa de quadrinhos, esse vilão que tem o plano perfeito, mas que destruirá tudo e todos, que precisa ser detido e todos torcemos para que os heróis vençam esse mal absoluto, todos queremos que no fim, seu projeto de poder falhe, ninguém em sã consciência apoiaria um ser assim. Ninguém fica ao lado do vilão. Não fica?
Fica. O desejo de Thanos, a reengenharia social, o alarmismo como justificativa à criação da sociedade perfeita amparando o Homem Ideal, o Homem do Futuro, não é um discurso inventado, muito pelo contrário, ele foi largamente (e ainda é) aplicado desde o início do Século XX, sempre promovido por líderes abnegados que lutavam por uma causa nobre e em nome desse futuro glorioso e utópico. Esse plano de Thanos já foi chamado de vários nomes: Revolução Bolchevique, Nazismo, Fascismo, Revolução Cultural, Revolução Cubana, mais recentemente, Bolivarianismo e Thanos já teve diversos nomes também: Lênin, Trotsky, Hitler, Mussolini, Mao, Fidel e mais recentemente, Maduro.
E o mais assustador disso tudo é que diferentemente do que esperaríamos que fosse o comportamento das pessoas diante de uma personagem assim, muitas apoiam os Thanos da vida real. Os mesmos que aplaudem o Capitão América quando este grita “Vingadores, avante” para derrotar o grande vilão, esse símbolo do mal no mundo (ou nos mundos), são os mesmos que apoiam os tiranos reais, são os mesmos que, a despeito de todas as mortes e genocídios promovidos por esses déspotas, ainda há aqueles que bradam com orgulho seus ideais e ainda sonham com o grande líder cor violeta que irá dizimar todos os que impedem que o futuro glorioso chegue. Os mesmos que aplaudem os Vingadores, lutam para colocar no poder um Thanos para chamar de seu e que provavelmente emergirá nas hortinhas orgânicas ou bares de cerveja artesanal da Vila Madalena ou do Baixo Leblon, com sua pele arroxeada e um coque samurai.

"Se a prudência da reserva e decoro indica o silenciar em algumas circunstâncias, em outras, uma prudência de uma ordem maior pode justificar a atitude de dizer o que pensamos." - (Edmund Burke)