Millor Fernandes:


Jornalismo, por princípio, é oposição – oposição a tudo, inclusive à oposição. Ninguém deve ficar acima de qualquer suspeita; para o jornalista, não existem santos.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O Sentimentalismo Politico e a Destruição da Razão

Às vezes a irracionalidade e a canalhice da esquerda chegam a me dar nojo. A mais nova moda é tentar deslegitimar o impeachment de Dilma meramente porque as pessoas que a julgam são corruptas.

O problema é que o efeito disto é apenas desviar a atenção e inverter o ônus da prova. Há um verdadeiro abismo entre julgar um impeachment respondendo à questão "Dilma cometeu crime de responsabilidade fiscal?" (para não dizer outros) e julgar o impeachment como se a pergunta a ser respondida fosse "Dilma é uma pessoa má?".

Ao se focar na suposta imoralidade do júri de Dilma, o efeito que a esquerda espera com isso é desviar a atenção e inverter o réu na equação. Acaba por transformar o impeachment não no julgamento das ações de Dilma, mas sim no julgamento do caráter de seus acusadores. Como se o impeachment se resumisse a uma mera questão de um bando de pessoas más querendo chutar o traseiro de uma pessoa de quem não gostam. Acabam por transformar o réu em vítima e o júri em réu por questões que não tem relevância alguma a um julgamento apropriado.

Claro que o fato do juiz e/ou júri serem corruptos aumenta as chances de um julgamento enviesado. Entretanto, ainda que coubesse ao congresso julgar os méritos das provas e das acusações, não podemos simplesmente substituí-lo por outro, muito menos por um congresso feito de homens santos ou incorruptíveis. A alternativa é permitir que a presidente saia impune de seus crimes apenas porque existe uma grande possibilidade dela ser julgada injustamente. Existe toda a diferença do mundo entre invalidar um julgamento inapropriado, expondo e provando suas irregularidades, do que impedir ou deslegitimar um julgamento antes que o mesmo aconteça, baseado em uma mera probabilidade de ocorrência de irregularidades. Trata-se de um caso óbvio de tentativa de obstrução da justiça.

Ainda que possamos nos dar o benefício da dúvida de que isto não se trate de pura má-fé, tal situação demonstra perfeitamente a incapacidade da esquerda de tomar decisões e fazer julgamentos baseados nas possibilidades e nas alternativas disponíveis, ao invés de usar como base um cenário perfeito ou idealizado. Em uma calamitosa situação hipotética em que todos os juízes do país fossem corruptos e não pudessem ser substituídos de imediato, alguém em sua sã consciência defenderia o fechamento de todos os tribunais, permitindo assim que todos os criminosos saíssem impunes de seus crimes?

Voltando à questão do impeachment, ainda que o congresso seja corrupto, isso não torna tal decisão necessariamente equivocada. Um equívoco é diferente de uma imoralidade. Uma pessoa pode ser o sujeito mais imoral do mundo, mas nem isso é suficiente para dizer que está equivocado. Einstein poderia ter sido o maior tirano do mundo e ter desenvolvido a ciência necessária para a bomba atômica com a intenção de se tornar um novo Hitler. Mas isto jamais refutaria ou invalidaria suas teorias científicas. Tampouco faria com que a decisão de apoiar os aliados contra os soviéticos e nazistas fosse uma decisão equivocada, ainda que o tivesse feito com intenções maléficas. Más intenções não levam necessariamente a resultados maléficos.

O reverso frequentemente também é verdade. Decisões que a princípio soam completamente morais e feitas na melhor das intenções podem levar a resultados catastróficos. Por exemplo, a moda intelectual pacifista que se alastrou após a primeira guerra mundial acabou apenas por enfraquecer a Europa militarmente, transformando diversas nações em alvos fáceis para os nazistas. O erro? Considerar as armas o verdadeiro inimigo, e não o comportamento das outras nações. A realidade muitas vezes é dolorosa e nos força a tomar decisões que não são exatamente das mais atraentes. Apenas no mundo dos quadrinhos é que basta o herói ser completamente virtuoso que conseguirá salvar todo mundo e ainda poupar a vida do vilão. Na vida real, poupar a vida do coringa significaria sacrificar centenas de vidas. Já diz o ditado que quem poupa o lobo sacrifica a ovelha.

Mas, segundo a lógica da esquerda, se uma pessoa é imoral ou canalha, isto faz com que todas as suas decisões sejam automaticamente erradas. Como se as ideias e decisões de uma pessoa devessem ser julgadas não por seus méritos ou consequências, mas pelo histórico de quem as defende. O que importa deixa de ser "o que" se diz, mas sim "quem" diz o que. Como se o fato de um sujeito ser um bom pai fizesse com que todas as suas decisões e ideias estivessem automaticamente certas, e o fato de ser um pai abusivo fizesse com que todas suas decisões e ideias estejam automaticamente erradas.

Ao se negar olhar para a realidade e ver a diferença entre imoralidade e equívoco, o efeito prático é que a esquerda visa transformar a política não em um lugar onde se devessem tomar decisões racionais baseadas em méritos e consequências, mas sim em um seminário moral, onde a virtude dos tomadores de decisão seja o único critério de legitimidade ou de prudência dessas decisões. Alguém, em sua sã consciência, acharia prudente colocar crianças para tomar decisões complicadas apenas porque elas são inocentes e santas (considerando que ela acredite que isso é mesmo verdade)? Porque o efeito seria praticamente o mesmo. Não é nenhuma surpresa, portanto, que a esquerda defenda políticas baseando-se apenas na intenção das mesmas enquanto ignora suas consequências.

O óbvio ululante é que a esquerda é completamente incapaz de relacionar causa e consequência, de definir prioridades e diferenciar o que é relevante do que não é, e de colocar razão acima da emoção. Não à toa seja um terreno tão fértil para todo espécie de sentimentalismo doentio. Mais cedo ou mais tarde, a realidade cobrará o seu preço.

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"Se a prudência da reserva e decoro indica o silenciar em algumas circunstâncias, em outras, uma prudência de uma ordem maior pode justificar a atitude de dizer o que pensamos." - (Edmund Burke)