Millor Fernandes:


Jornalismo, por princípio, é oposição – oposição a tudo, inclusive à oposição. Ninguém deve ficar acima de qualquer suspeita; para o jornalista, não existem santos.

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

DOUTRINAÇÃO, INVASÕES E FRANKEINSTEIN – O MONSTRO QUE IRÁ NOS DESTRUIR



Por Kleryston Negreiros

Neste final de semana, 191 mil estudantes estarão impedidos de fazer o ENEM – para muitos, a maior oportunidade de suas jovens vidas até aqui, a chance que ingressarem num curso superior e melhorarem de vida. E serão impedidos devido às ocupações que vem ocorrendo por todo o país (mais especificamente em Estados que se opuseram em algum momento ao governo que saiu) em escolas públicas promovidas por alunos que se declaram apartidários e que lutam por uma melhor educação.

Não vou me ater ao paradoxo irônico que essa turba profere. Na verdade (e é do que pretendo tratar), desde que essas invasões começaram, em 2015, não pude evitar a comparação com o sentido de uma obra que li há muitos anos, antes de entrar na faculdade e que rememoro toda vez que vejo a ordem das coisas sendo invertida e sendo promovido o caos. Sim, a obra é Frankeinstein, e, não, não enlouqueci, como pode achar o leitor dessas mal traçadas linhas.

O que me remete ao livro de Mary Shelley é justamente o ponto que levou a essa insanidade no país: a subversão da ordem natural, um espírito jovem e imprudente tomando as rédeas de algo que não lhe compete, a arrogância juvenil de não aceitar os fatos como são ou como devem ser e, de forma caprichosa e mimada, tentar desenhar o mundo à sua imagem e semelhança – algo barulhento e imprudente.

No livro, temos a história do jovem Victor Frankeinstein. Rico, com uma família feliz e estrutura, uma noiva que o ama e aspirante a médico, uma vida sem atribulações ou sustos. Ao ingressar na Universidade de Viena, toma contato com uma teoria de um de seus professores que o impacta bastante: o uso da eletricidade para reavivar mortos. Como todo jovem estudante, fica empolgado com essa teoria tão inusitada e passa a assistir as aulas desse docente.

Tudo ia bem até que a tragédia bate à sua porta e sua amada mãe morre. Não suportando a dor da perda e tentando vencer a morte de uma vez por todas, o rapaz retorna ao seu quarto em Viena, debruça-se sobre os estudos desse professor e tenta trazer à vida um homem criado a partir de cadáveres. Depois de profanar túmulos, isolar-se de todos e chegar à beira do precipício da insanidade, ele consegue dar vida a um ser grotesco, abjeto e assustador composto por partes de corpos mortos. Victor fica assombrado com o que criou e foge, deixando sua criatura recém acordada dos mortos à própria sorte.

O monstro sobrevive, e com o avançar da narrativa vai tomando consciência do que é e quem o criou. Determinado, vai atrás de seu “pai” para que o reconheça como sua criação e ao ser rejeitado por Frankeinstein ele promove uma carnificina em sua família matando pai, irmão, noiva, deixando atrás de si um rastro de morte e miséria. Na narrativa Victor é consumido por seu maior pecado: subverter a ordem natural, sua desgraça é a criatura que trouxe ao mundo por não aceitar as leis naturais e o preço a pagar foi a sua aniquilação pelas mãos do monstro que criou.

E é assim que eu vejo esses jovens militantes. Assim que eu vejo essas invasões. São pequenos Victors insuflados por professores irresponsáveis que os ensinam que a ordem natural deve ser subvertida e negligenciados por pais omissos e permissivos que criam pequenos tiranos incapazes de lidar com frustrações e a ordem estabelecida. São alçados à categoria de engenheiros de um novo mundo, os baluartes da nova era e são instigados com teorias espúrias de caos e miséria. Assim como Victor Frankeinstein, a arrogância desses meninos e meninas levam-nos a atos impensados que causam mais danos que benefícios.

Olhando as escolas ocupadas é possível perceber o poder destruidor desses garotos. O monstro que vai devorando o patrimônio público, as vidas desses jovens e os que são prejudicados por eles é incomensurável. Da mesma forma que a família Frankeinstein foi uma vítima da vaidade do jovem médico, os alunos que perderam aula e terão que fazer a prova dentro de um mês ou até os que farão agora e perderão a oportunidade de se preparar um pouco mais são tão vítimas quanto a família do livro.

Já esses jovens invasores não. Porque num mesmo ambiente de militância, como são essas escolas, há também aqueles que não se deixam contaminar pela a insanidade. Esses pequenos tiranos fazem uso de um discurso que legitima seus mimos e arrogância e essa minoria de bárbaros se acha no direito de decidir o destino de muitos.

Sim. Há uma relação com a obra. Não na estrutura ou diretamente, mas na loucura, na irresponsabilidade, na arrogância. Há relação no caos provocado por um gesto tresloucado e mimado de alguém que não aceita adaptar-se ao mundo, mas ao contrário, quer adaptar o mundo ao seu universo particular. Há proximidade de narrativas entre alguém que não aceita o fato de que há uma ordem, seja natural, seja social, de que sua imprudência não é isolada. E sim, não isento professores, sindicatos, políticos e toda uma corja que se esconde atrás de crianças para ter seus intentos, mas isso, é assunto para outra coluna. Até a próxima.

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Kleryston Negreiros é professor e administra o blog Professor, Me Indica um Livro? 

Também é membro do grupo Biblioteca Liberal-Conservadora

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

ARROGANTE IGNORÂNCIA OU O FIASCO DO ENSINO BRASILEIRO EM 3 ATOS




ATO I

Um dia desses, compartilhei uma postagem que ironizava o ateísmo ao mostrar como o Cristianismo moldou o mundo Ocidental a partir da Idade Média. Como sou católico (menos praticante do que gostaria, confesso) achei interessante, descontraído e repliquei a imagem. Eis que, no decorrer do dia, vi-me, eu e mais alguns da minha lista de contatos da rede social onde postei, envolvido num debate teológico sobre a religião católica e seus benefícios ou malefícios para o mundo medieval e por tabela o atual.

Até aí, nada demais. Muitas postagens minhas rendem discussões, haja vista que minhas posições ideológicas são públicas e procuro ter na minha relação de amigos pessoas de várias tendências ou opiniões, procuro manter uma relação amistosa com todos e ouvir todos os argumentos, mesmo que discorde. Acontece, que o autor da polêmica, que tentou legitimar um discurso ateísta e digladiou com umas quatro pessoas, foi um rapazinho recém-saído do ensino médio, na verdade dois rapazes, que não passam dos vinte anos (um ex-aluno meu, formado no médio ano passado) e um outro também imberbe, amigo de um outro ex-aluno, mas que desconheço.

E isso foi curioso para mim porque esses dois meninos, com pouca ou nenhuma base de conhecimento – tanto por não ter muita idade para empreender um estudo mais aprofundado e amplo sobre o tema, quanto por não terem o hábito de ler – resolveram defender uma ideia cheia de chavões, lugares-comuns de livros escolares do MEC, repleto de achismos e tentavam refutar ou desmerecer argumentos e fontes de: um medievalista, um professor de Literatura (eu), um publicitário e um engenheiro, estes últimos estudiosos de temas conservadores e liberais nas horas vagas.

ATO II

Após a ocupação do Colégio Pedro II, uma aluna minha, contraria a isso, tenta legitimar o ato como forma de protesto e os professores que estimularam os alunos, mesmo que ela própria estivesse sendo prejudicada, já que ela fará o ENEM na próxima semana e as aulas foram interrompidas.

Ao perguntar a ela sobre a razão, se ela (e os demais alunos) tinha lido os projetos de lei que motivaram os protestos e apelar para a falta de sentido disso tudo, quando mostrei a ela que esses mesmos professores que dizem lutar por eles, na verdade, estão apenas atrapalhando as suas vidas, ela teve o gesto mais típico de adolescentes que se deparam com a lógica, racionalidade e a realidade da vida... pediu que me calasse, não queria me ouvir. Nesse caso, sua verdade, seu mundo de protestos e sonhos de mudar o mundo no pátio ocupado da escola – mesmo que as salas estejam vazias e sem aulas, o que é um contrassenso – é mais desejável que o mundo real.

ATO III

Hoje ainda, depois de comentar uma publicação de um amigo católico – sobre a declaração da Arquidiocese do Rio de Janeiro acerca das eleições municipais – um outro ex-aluno, este egresso do Pedro II (o mesmo das saias para meninos e ocupação de alunos sob às bênçãos dos professores e pais prafrentex) e hoje aluno da UFRJ, no alto dos seus 20 anos e quase nenhuma (ou nenhuma) leitura relevante, questionou minha colocação sobre a incoerência de cristãos seguirem discursos de esquerda. Exigiu fontes, apresentou argumentos baseados na Wikipédia, usou um tom irônico para menosprezar dois adultos formados – um deles seu ex-professor e amigo pessoal de sua mãe – e desprezando indicações bibliográficas de autores relevantes sobre o tema.


Pois bem. Três situações muito parecidas com jovens estudantes saídos ou ainda no ensino médio, oriundos de escolas tanto públicas quanto privadas e de diferentes meios socioeconômicos. Todos, entretanto, apresentaram um ponto comum, uma postura arrogante diante de pessoas que haviam estudado mais e por mais tempo que eles, pessoas que já estavam no mundo batalhando, aprendendo, procurando entender o que está ao redor e que possuem mais experiência de vida e de saber.

E esse é o retrato do jovem brasileiro. Uma pessoa que começa a dar os primeiros passos na vida adulta sem qualquer conhecimento, bagagem de leitura, grau mínimo de instrução ou capacidade de compreensão, que acumula meia dúzia de clichês de internet e confronta a todos com sua estupidez arrogante de quem não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe. Um jovem que é fruto de um sistema de ensino que infla seu ego e esvazia seu cérebro, um sistema que desde cedo diz para ele que é capaz de formar o seu saber a hora que quiser, um sistema que o ensina que é quem detém o poder de mudar o mundo, pois é jovem e são os jovens que possuem o monopólio da mudança.

E, ao inflar o ego desses pequenos ditadores, faz com que se sintam os donos do mundo e da verdade, tornam-nos iconoclastas sem critério e entopem as ruas com pequenos bárbaros que riem da beleza, da erudição, debocham do que é tradicional e se regalam, no alto de sua autossuficiência frágil e insegura, da feiura, vulgaridade e estupidez.



Temos um sistema educacional que, infelizmente, está criando uma não só, mas, pelo menos, umas três gerações de mentecaptos – que desconhecem até o significado dessa palavra – de ignorantes arrogantes que desconhecem a diferença entre um substantivo e um verbo, não sabem o que é a fórmula de Báskara, ignoram o que aconteceu na Europa entre 1938 e 1945 e nem ao menos sabem como o ser humano se reproduz, mas que são senhores de suas ideias, que resumem tudo a uma opinião (eles têm várias e sobre tudo) e se arvoram o direito de até mesmo desmerecerem especialistas, porque no fim, tudo é uma questão de opinião e ponto de vista.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A REVOLUÇÃO EDUCACIONAL DO PT: Uma fábrica de militantes ignorantes

Por Wilson Agostinho:



O Ministério da Educação está preparando uma Revolução Cultural que transformará Mao Tsé-Tung em um "moderado pedagogo", quase um “reacionário burguês.” Sob o disfarce de “consulta pública”, pretende até junho “aprovar” uma radical mudança nos currículos dos ensinos fundamental e médio — antigos primeiro e segundo graus. Nem a União Soviética teve coragem de fazer uma mudança tão drástica como a “Base Nacional Comum Curricular.”

No caso do ensino de História, é um duro golpe. Mais ainda: é um crime de lesa-pátria. Vou comentar somente o currículo de História do ensino médio. Foi simplesmente suprimida a História Antiga. Seguindo a vontade dos comissários-educadores do PT, não teremos mais nenhuma aula que trata da Mesopotâmia ou do Egito. Da herança greco-latina os nossos alunos nada saberão. A filosofia grega para que serve? E a democracia ateniense? E a cultura grega? E a herança romana? E o nascimento do cristianismo? E o Império Romano? Isto só para lembrar temas que são essenciais à nossa cultura, à nossa história e à nossa tradição.

Mas os comissários-educadores — e sua sanha anticivilizatória — odeiam também a História Medieval. Afinal, são dez séculos "inúteis", presumo. Toda a expansão do cristianismo e seus reflexos na cultura ocidental, o mundo islâmico, as Cruzadas, as transformações econômico-políticas, especialmente a partir do século XI, são desprezadas. O Renascimento — em todas as suas variações — foi simplesmente ignorado. Parece mentira, mas, infelizmente, não é. Mas tem mais: a Revolução Industrial não é citada uma vez sequer, assim como a Revolução Francesa ou as revoluções inglesas do século XVII. O apagamento da História, ao estilo Ministério da Verdade de “1984,” não perdoou a história dos Estados Unidos — neste caso, abriu exceção somente para a região onde esteve presente a escravidão, claro. Do século XIX europeu, tudo foi jogado na lata de lixo: as unificações alemã e italiana, as revoluções — como a de 1848 —, os dilemas político-ideológicos, as mudanças econômicas, entre outros temas clássicos e indispensáveis à nossa História.

Os policiais da verdade não perdoaram também a História do Brasil. Os movimentos pré-independentistas — como as Conjurações Mineira e Baiana — "não existiram", ao menos no novo currículo. As transformações do século XIX, a economia cafeeira, a transição para a industrialização foram desconsideradas, assim como a relação entre as diversas constituições e o momento histórico do país, isto só para ficar em alguns exemplos.

Mas, afinal, o que os alunos vão estudar? No primeiro ano, “mundos ameríndio, africanos e afro-brasileiros.” Qual objetivo? “Analisar a pluralidade de concepções históricas e cosmológicas de povos africanos, europeus e indígenas relacionados a memórias, mitologias, tradições orais e a outras formas de conhecimento e de transmissão de conhecimento.” E também: “interpretar os movimentos sociais negros e quilombolas no Brasil contemporâneo, estabelecendo relações entre esses movimentos e as trajetórias históricas dessas populações, do século XIX ao século XXI.” Sem esquecer de “valorizar e promover o respeito às culturas africanas, afro-americanas (povos negros das Américas Central e do Sul) e afro-brasileiras, percebendo os diferentes sentidos, significados e representações de ser africano e ser afrobrasileiro.”

No segundo ano — quase uma repetição do primeiro — o estudo é sobre os “mundos americanos.” Objetivo: “analisar a pluralidade de concepções históricas e cosmológicas das sociedades ameríndias a memórias, mitologias, tradições e outras formas de construção e transmissão de conhecimento, tais como as cosmogonias inca, maia, tupi e jê.” Ao imperialismo americano, claro, é dado um destaque especial. Como contraponto, devem ser estudadas as Revoluções Boliviana e Cubana; sim, são "exemplos" de "democracia"...... E, no caso das ditaduras, a sugestão é analisar o Chile de Pinochet — de Cuba, nem um parágrafo.

No terceiro ano, chegamos aos “mundos europeus e asiáticos.” Se a Guerra Fria foi ignorada, não foi deixado de lado o estudo da migração japonesa para o Paraguai na primeira metade do século XX (????). O panfletarismo fica escancarado quando pretende “problematizar as juventudes, discutindo massificação cultural, consumo e pertencimentos em diversos espaços no Brasil e nos mundos europeus e asiáticos nos séculos XX e XXI.” Ou quando propõe “relacionar as sociedades civis e os movimentos sociais aos processos de participação política nos mundos europeus e asiáticos, nos séculos XX e XXI, comparando-os com o Brasil contemporâneo.”

Quem assina o documento é o ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, um especialista brasileiro em Thomas Hobbes. Porém, Hobbes ou o momento em que viveu (o século XVII inglês) são absolutamente ignorados pelos comissários-educadores. Para eles, de nada vale conhecer Hobbes, Locke, Platão, Montesquieu, Tocqueville, Maquiavel, Rousseau ou Sócrates. São pensadores do mundo europeu. O que "importa" são as histórias ameríndias, africanas e afro-brasileiras......
O documento está recheado de equívocos, exemplos estapafúrdios, de panfletarismo barato, de desconhecimento da História. Os programas dos cursos universitários de História foram jogados na lata de lixo e há um evidente descompasso com a nossa produção historiográfica. A proposta é um culto à ignorância e à mediocridade intelectual. Nenhuma democracia no mundo ocidental tem um currículo como esse. Qual foi a inspiração? A Bolívia de Morales? A Venezuela de Chávez? A Cuba de Castro? Ou Lula, aquele que dissertou sobre a passagem de Napoleão Bonaparte pela China?



domingo, 2 de agosto de 2015

Métodos de doutrinação ideológica

Algumas técnicas de doutrinação são bastante sutis. O doutrinado precisa, antes de tudo, acreditar que está sendo educado. Aqui, tento explorar 3 técnicas de doutrinação bastante usadas.

Primeiro método: extrapolar os limites do conhecimento do aluno e do professor e estimular a exposição de emoções e preconceitos
Uma dessas técnicas consiste em extrapolar a função do professor, fazendo-o ir além de sua função e de suas capacidades. Por exemplo, no livro de "história" doutrinário do MEC, podemos ver perguntas no estilo "Cuba teria alcançado o mesmo nível de desenvolvimento que tem hoje se fosse um país capitalista, aberto aos investimentos dos EUA?" ou "Nos tempos atuais, de globalização, os investimentos de empresas norte-americanas poderiam ser encarados como saudáveis parcerias?"

Mesmo ignorando a propaganda descarada do regime cubano, estas são perguntas de economia, e não de história. Qualquer resposta minimamente coerente e razoável iria requerer, no mínimo, conhecimentos básicos de economia, que permitissem que os alunos compreendessem pelo menos qual a função e o propósito do investimento. Conhecimento este não apenas sistematicamente negado aos alunos, mas que também estão além das capacidades e competências de qualquer professor de história, ou do que deveria ser exigido do cargo. Lembro-me claramente, na minha época de escola, de ter ouvido repetidas vezes que devemos ser "empreendedores", ainda que professor nenhum jamais tenha explicado o que é empreendedorismo, qual sua importância e qual sua função.
Sendo assim, independentemente de qual resposta o livro ou o professor dê como correta, isso não passará de mero preconceito, ainda que disfarçado de conhecimento genuíno ou de uma "análise crítica de mundo".

Da mesma forma que os professores doutrinadores vão além do que deveria ser de sua competência, os alunos vítimas dessas técnicas também são estimulados a irem além do que lhes deveria ser exigido.

Não há nenhuma razão, por exemplo, para crer que o público geral deva entender detalhes sobre a administração de uma empresa multibilionária e compreender todas as idiossincrasias no processo de tomada de decisões administrativas que levam um empresário a oferecer salários milionários para executivos e CEOs. Entretanto, esse desconhecimento não impede o público de expressar sua indignação e até mesmo revolta moral contra os salários "abusivos" pagos a tais profissionais. O que é inaceitável é que tal atitude - de externar emoções em detrimento de um conhecimento de causa - encontrem eco nas salas de aula.

Isto é reforçado com a ideia de que os alunos devem ter opinião sobre tudo. Claro que devemos ter opiniões próprias e não ser só mais uma maria-vai-com-as-outras. Mas isso não significa que precisamos ter opinião sobre tudo, principalmente sobre assuntos que demandam um alto grau de conhecimento especializado e/ou experiência pessoal. Nesses casos, ter uma "opinião" é a exata antítese do conhecimento.

Ninguém acharia razoável pedir, por exemplo, que um aluno escreva sobre a melhor maneira de se gerir uma concessionária ou de se treinar um atleta profissional, muito menos para opinarem sobre procedimentos médicos ou veterinários. O motivo é muito simples: são questões que exigem um alto grau de conhecimento específico, e que vai muito além do conhecimento e da vivência de qualquer aluno de 1º ou 2º grau. Ainda assim, espera-se que opinem sobre questões como política econômica, ideologia política e relações internacionais, uma tremenda contradição.

O mais triste é ver este tipo de coisa sendo encarado como "reflexões críticas". O resultado é igualmente claro e assustador: alunos semianalfabetos, ou completos analfabetos funcionais, que dizem ser "críticos do sistema" e acreditam que assim estão "pensando com a própria cabeça".

Resumindo: esta técnica consiste em pura manipulação retórica, incapacitando o aluno de perceber que o que está sendo estimulado é a exposição de preconceitos e emoções, ainda que disfarçados como se fossem conhecimento genuíno ou "pensamento crítico".

Segundo Método: incapacitar os alunos de fazerem conexões lógicas de causa e consequência

Thomas Sowell disse uma vez que "fatos não falam por si sós. Eles falam contra ou a favor de teorias concorrentes. Fatos isolados são meras curiosidades". Isto fica bastante claro ao percebermos como certas visões são apresentadas aos alunos como sendo axiomáticas ou auto-evidentes, e não como hipóteses a serem provadas através de argumentos. Isso isenta o doutrinador de ter que demonstrar qualquer relação de causa e efeito quanto às ideias que quer incutir na mente de suas vítimas.

Muito do trabalho de doutrinação é feito não a partir do que se diz, mas também do que não se diz. Isto pode levar a conclusões apressadas e completamente equivocadas. Por exemplo, são citadas diversas estatísticas que dizem que os homens ganham mais do que as mulheres. Entretanto, a manipulação retórica transforma aqui homens e mulheres em meras categorias estatísticas. Há uma diferença enorme entre dizer que homens e mulheres - como categorias estatísticas, e não como indivíduos isolados - ganham salários diferentes por tomarem decisões profissionais de uma maneira diferente, e afirmar que homens ganham mais por fazerem o mesmo trabalho. (Dica de leitura: em "Economic Facts & Fallacies", Thomas Sowell explora esta questão, entre muitas outras, com muito mais profundidade, sem versão em português)

Um aluno pode passar sua vida acadêmica inteira sem jamais ouvir questionamentos que façam esta distinção e sem ouvir qualquer explicação alternativa além da que afirma que o que explica tal diferença é a discriminação e que, se há uma redução nessa diferença, é mérito do feminismo por reduzir o nível de discriminação. Da mesma forma, Getúlio Vargas é comumente retratado como um grande estadista e é comemorada a criação das leis trabalhistas e da CLT como se essas explicassem a melhoria das condições de vida dos trabalhadores, sem jamais ser feito nenhum estudo comparativo sobre melhoria das condições de vida dos trabalhadores em países com leis trabalhistas rígidas versus melhoria das condições de vida dos trabalhadores em países com leis trabalhistas mais flexíveis ou mesmo inexistentes. É olhado para o fato de países de 3º mundo receberem investimento estrangeiro de países de 1º mundo, e então conclui-se que a riqueza dos países que investem causa a pobreza dos países que recebem estes investimentos (normalmente sob o discurso do "imperialismo" norte-americano). Estes são apenas alguns dos muitos casos onde simplesmente são apontados fatos aleatórios e se conclui que o primeiro é consequência do outro, sem que seja fornecida qualquer explicação causal e sem que os alunos sequer tomem conhecimento de que há visões conflitantes e explicações alternativas.

Outra característica deste método é a prevalência da teoria em detrimento da experiência prática, que é sumariamente ignorada ou mesmo desprezada. Por exemplo, é falado muito sobre a exploração do trabalhador, mas nunca é estimulado que as crianças sequer perguntem aos seus próprios pais se estes se sentem explorados por seus empregadores. Diz-se que as mulheres são discriminadas e ganham menos por fazer o mesmo serviço, mas nunca é dada uma chance de resposta ao empregador ou mesmo apresentado um único depoimento de uma mulher que tenha alegado discriminação salarial. Em uma prova recente do ENEM, a maioria (se não todas) as redações que tiraram nota máxima defendiam sérias restrições ou proibições à publicidade infantil, retratando-a como se esta tivesse um poder quase que sobre-humano quanto a seu poder de influência sobre as mentes das crianças, mas sem haver nenhuma menção à própria experiência pessoal.

Um caso onde isto fica bastante óbvio são em discussões sobre a maioridade penal, onde muitos assumem como auto-evidente a premissa de que mais educação necessariamente irá levar a uma redução da criminalidade, sem que jamais seja explicada qualquer ligação entre as 2 coisas. O mesmo é válido para discursos que assumem como axiomático que o sistema de saúde público fará os ricos pagarem pelo tratamento dos pobres. Tais ligações não são nem lógicas nem autoevidentes, como mostrado aqui e aqui.

Claro, pode-se concordar ou discordar destes argumentos. O que está em questão aqui não são os méritos ou deméritos de uma visão em particular, mas sim a capacidade dos alunos de relacionar causa e consequência ou de formular contra-argumentos lógicos e coerentes.

Intencional ou não, a perversidade deste método é clara: consiste em destruir a capacidade dos alunos de fazer conexões lógicas de causa e efeito. O resultado são professores e alunos que repetem, feito papagaios, discursos do tipo "Se A, então B", mas completamente incapazes de explicar o COMO e o PORQUÊ. Ou que, no mínimo, acabam propagando diversas (e perigosas) falácias econômicas. Como foi devidamente apontado por Joel Pinheiro da Fonseca em seu artigo Nota Máxima para o Clichê Ideológico: "Adolescentes terminam o ensino médio sem nem mesmo terem noções rudimentares de oferta e demanda, mas familiarizados com o conceito de mais-valia e cheios de certezas sobre os males do sistema econômico "neoliberal" e com ojeriza à ideia de lucro". Lembro-me perfeitamente de ter visto uma vez, por acaso, uma lista com quase 200 nomes de autores críticos do marxismo e socialismo, dos quais eu pude reconhecer cerca de uma dúzia. Nenhum destes nomes me fora sequer mencionado em toda a minha vida acadêmica.

Claro que não há necessidade de entendermos a causa de todas as coisas, visto que não somos oniscientes e que o conhecimento humano é imperfeito. Nesses casos, nossa única alternativa é confiar na experiência. O que é inaceitável é que visões completamente equivocadas sejam transmitidas não como uma explicação possível, mas sim como uma verdade incontestável, à revelia da experiência de milhões de pessoas.

Terceiro método: confundir a distinção entre moral e política

Outra forma de doutrinação que pode passar despercebida é a tentativa de unir moral e política como se fossem uma coisa só. Isso pode ser feito através de perguntas aparentemente inocentes, do tipo "você concorda com a política X dos EUA" ou ao pedirem para os alunos opinarem sobre questões como o "imperalismo" ou o "neoliberalismo".

Fica claro que a intenção desse tipo de pergunta não é realmente que os alunos expressem uma opinião, mas sim manipulá-los para que CONDENEM os inimigos políticos do doutrinador. A imagem a seguir, tirada do livro "Nova História Crítica", ilustra perfeitamente esta questão. Neste caso em particular, é completamente ignorado, por exemplo, o fato de que tais situações de fome só afetam países socialistas ou pouco capitalistas, assim como o fato de que todas as mercadorias que atravessam fronteiras são importadas pelo local de origem. Isso pode incluir desde produtos alimentícios e de vestuário até livros acadêmicos, medicamentos, chips de computador, matérias-primas como carvão, ferro, cobre e petróleo, tecnologias diversas, etc. O mercado de luxo é apenas uma pequena fração, sendo também ignorado o fato de que mesmo o mercado de luxo acaba sendo fonte de renda e de geração de empregos para milhares de pessoas. Esse tipo de imagem não passa de pura desonestidade intelectual e manipulação retórica e cuja refutação requer alguns conhecimentos básicos de economia (que são sistematicamente negados para os alunos, como apontei anteriormente) para que não se caia em falácias comuns. Neste caso, a falácia do jogo de soma-zero, que considera a riqueza como um bolo fixo a ser dividido e que acredita que a riqueza de alguns causa a pobreza de outros.



Entre todos os métodos de doutrinação, este é, em minha opinião, o mais monstruoso e covarde. Em primeiro lugar porque se aproveita da ingenuidade e falta de experiência das crianças, que dificilmente irão perceber que estão sendo emocionalmente manipuladas. Em segundo lugar porque intenciona fazer a vítima incorporar valores políticos - tais como o antiamericanismo e o anticapitalismo - em seu código moral. Em outras palavras: não se espera que o aluno simplesmente entenda o mundo, mas que dê uma avaliação MORAL para o mesmo, após ter sido apresentada uma única versão dos fatos, completamente distorcida e enviesada. Se bem sucedida, tal técnica é de difícil desconstrução, uma vez que tende a fazer com que o doutrinado considere, de imediato, posições contrárias não como uma diferença de perspectiva, mas como uma séria falha moral e de caráter, sem nem ao menos terem seus argumentos respondidos ou sequer ouvidos.


sábado, 16 de maio de 2015

Pensamentos aleatórios sobre a greve de professores

Pensamentos de dois colaboradores do Shogunidades em seus perfis do Facebook chamaram a atenção do editor do Shogunidades (aquele ditador miserável), pois eles complementam o recente post em que tratamos da greve dos professores em Curitiba e Goiânia, e demonstram uma aparente bipolaridade das pessoas desse meio, a verdade é que como já foi dito (aquiaqui e aqui por três de nossos colaboradores) neste mesmo blog. As universidades não formam educadores, formam doutrinados que serão doutrinadores, robotizados com conceitos pré-moldados de que a carreira na educação pública lhes trará segurança, mas a verdade do dia-a-dia se mostra outra, ai temos as intermináveis greves cujo os maiores prejudicados são os filhos de quem não pode pagar escola particular.


Esses não são alunos, são professores recém saídos de universidade.

Pensamentos aleatórios sobre a greve de professores:

Por Rafael Andreazza Daros (Colaborador do Blog)

É incrível a facilidade com que o público em geral se sensibiliza e fica do lado dos professores que reivindicam melhores salários. Sem querer menosprezar a categoria, muitos não são sequer dignos do cargo que ocupam.

Não vou negar que a classe em geral é mal remunerada e não é valorizada como deveria. Mas essa galera se aproveita dessa retórica para transformar os professores em uma casta de heróis incriticáveis, quando muitos sequer merecem o salário que ganham. O fato deles ganharem pouco de maneira alguma deveria isentar-lhes do dever de demonstrar resultados antes de reivindicar melhores salários. Em minha humilde opinião, professores que enchem nossos alunos de proselitismo político e ensinam que quem fala que é errado dizer "nóis pega o peche" tem preconceito linguístico deveriam estar no olho da rua procurando emprego ou pedindo esmolas, não fazendo greve e muito menos dentro de uma sala de aula. Estes, se tivessem um mínimo de dignidade, deveriam ter vergonha de mostrar o próprio rosto por formar analfabetos funcionais e ainda terem a cara de pau de pedirem aumento. Aumento de salário deveria ser consequência de um trabalho bem feito, e não o contrário.


Eu sempre acreditei e segui aquilo que fez sentido pra mim. Não consigo ver coisas que não pareçam minimamente lógicas, por exemplo: Vários professores me falam que a melhor opção pra carreira, a mais segura, é fazer algum concurso público e ser professor da rede pública. Até aí, beleza. Mas, os mesmos que endeusam o Estado como o mais benévolente dos patrões são os que frequentemente reclamam de suas exigências, condições que oferecem, enfim, de tudo relacionado ao ensino público. E o mais curioso, são os que mais defendem e aderem a greves da categoria. Ora, se é a melhor opção, por que não demonstram o mínimo de satisfação? E se mesmo depois de perceberem que não é bem aquilo que escolheram, porque sim, escolheram voluntária e conscientemente serem funcionários públicos, por que simplesmente não mudam de carreira? (Kleryston Negreiros - Professor)
Enquanto os idiotas de plantão se enchem de compaixão pelos "pobres professores injustiçados", a educação brasileira vai pro brejo e se afunda ainda mais num mar de lama que parece não ter mais fim.

"Se a prudência da reserva e decoro indica o silenciar em algumas circunstâncias, em outras, uma prudência de uma ordem maior pode justificar a atitude de dizer o que pensamos." - (Edmund Burke)