Millor Fernandes:


Jornalismo, por princípio, é oposição – oposição a tudo, inclusive à oposição. Ninguém deve ficar acima de qualquer suspeita; para o jornalista, não existem santos.

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

NÃO É PELO LEITE CONDENSADO

 

Aos "professores de matemática" que mais uma vez passam pano para as merdas do presidente, vamos (novamente) desenhar para vocês:

Qualquer pessoa minimamente sensata e ciente de como a máquina estatal funciona sabe que os valores referentes à compra de alimentos é para todo o governo e forças armadas. O problema não é esse.

O que está nos incomodando é o fato de que o total gasto foi 20% maior do que nos últimos anos, a compra foi feita sem qualquer licitação e num único lugar. Considerando que o ano foi de recuo da economia, de pandemia e num ano onde a maioria trabalhou em casa, um aumento desses é injustificável. Além disso, um aumento de gastos como esse é contrário ao que ele prometia em campanha. O discurso que o elegeu era o de diminuir a máquina estatal, cortar gastos, reduzir o peso do estado sobre o cidadão, privatizar o máximo possível, além de todo o verniz de honestidade e o que se viu até aqui foram a criação de mais estatais e um aumento absurdo dos gastos públicos.

E não pense que somos tolos, está claro como o dia que a divulgação e todo o falatório em torno dessa lista não passa de cortina de fumaça pra desviar a atenção do real problema: sua negligência na compra das vacinas, o gasto superfaturado (sem contar a insistência no seu uso) num medicamento sem comprovação científica no combate à pandemia, somados já às rachadinhas com Queiroz – assunto adormecido, mas não esquecido – esses sim, crimes que podem derrubá-lo antes do fim do mandato (duvida? Joga no Google e veja o que pode derrubar o presidente, a lista é grande). 

Enquanto se discutir quantas latas de leite condensado foram compradas e para quê, não se falará sobre o que é realmente relevante: sua irresponsabilidade ante a pandemia, sua relação com o Queiroz, os aumentos de gastos no cartão corporativo, suas desastrosas declarações sobre parceiros comerciais que podem afetar as exportações, seu aparelhamento dos demais poderes, sua aproximação do centrão para blindá-lo de um possível impeachment, ou seja, que continuem falando dos chicletes e leite condensado. Enquanto estiverem fazendo memes, não farão protestos.

Portanto, poupe-nos de sua ironia e sua pretensiosa e auto proclamada superioridade moral e intelectual só por defender seu mito, vocês não têm essa moral toda. Aliás, isso faz de vocês seres desprezíveis iguais aos petistas fanáticos que tanto criticavam. Lembrem-se de que, assim como todos os outros presidentes que prometeram o céu na terra, seu mito também não passa de um político demagogo e oportunista com fome de poder e assim como os demais, não está isento de críticas. Sim, meus caros, seu mito não passa disso: um mito. Ele é tão humano e falho quanto qualquer outro e tão inescrupuloso e com gana de poder quanto qualquer político carreirista. E sendo tão humano, tão amoral, tão vil e tão baixo, deve ser vigiado e freado o quanto antes. Sim, acólitos, seu messias também sangra.

Prof.: Kleryston Negreiros

quarta-feira, 3 de junho de 2020

ALUNOS COM SENSO CRÍTICO OU O TERRAPLANISMO DA EDUCAÇÃO

Por: Kleryston Negreiros

Para você, caro leitor deste blog, qual é o papel da educação? Se você perguntar a qualquer pessoa minimamente sensata, ela responderá que é transmitir conhecimento. Esse sempre foi o seu papel, desde a Academia de Platão e desde que Alexandre, O Grande, era aluno de Aristóteles. Mas, se você perguntar a qualquer profissional da área de ensino – sejam esses professores ou pedagogos – ele dirá sem medo de errar e com peito inflado de orgulho que o papel da educação é formar cidadãos autônomos e com senso crítico. Aí, pergunto a você, leitor deste humilde escriba: o que é alguém autônomo com senso crítico? Vejamos...

Para que alguém seja considerado autônomo é necessário que essa pessoa seja capaz de cuidar de si, tomar decisões e ser responsável por suas ações sem que precise da intervenção de outros indivíduos. Essa pessoa será capaz de interagir com seus iguais, terá condições de aprender e aplicar novas habilidades no decorrer da vida. Esse indivíduo será capaz de decidir e avaliar as consequências de suas ações e terá condições de compreender o mundo a sua volta.

Já o que se pode chamar de alguém com senso crítico é o indivíduo que tem a capacidade de avaliar os argumentos favoráveis e contrários de determinado assunto e refletir sobre os mesmos. É ter um filtro que lhe permita avaliar os acontecimentos a sua volta, as ideias e preceitos dos mais variados temas que interferem na sociedade e ser capaz de discernir sobre o que é certo ou errado, o que é cabível de defesa ou repúdio, enfim, ele é capaz de fazer uma leitura dos fatos, olhar todos os seus ângulos e decidir por si mesmo que posicionamento tomar.

Ambas as habilidades são louváveis e importantes para se viver em sociedade – não discordo disso – e realmente, preparar a pessoa para essa autonomia cognitiva deve ser o resultado final do processo educacional. Porém, o modo como se chega a isso atualmente é de se questionar e qualquer um com a mínima noção de realidade consegue ver que, ao colocar o foco nessas habilidades, isto é, privilegiar o resultado final em detrimento do que leva a esse domínio, está tendo um resultado oposto ao que se almeja. Explicarei por quê.

Como professor de língua portuguesa, sempre começo minhas aulas perguntando aos meus alunos qual foi a maior invenção da Humanidade, aquela que permitiu todos os avanços que nos trouxe até aqui. Faço essa brincadeira para mostrar a importância da invenção da escrita e sua evolução, da escrita logográfica até a escrita alfabética. E por que estou falando disso? Porque é justamente nesse ponto que há o equívoco que quero mostrar. Até bem pouco tempo, acreditava-se que foi o cérebro humano que se adaptou à escrita dada a sua plasticidade, entretanto, estudos recentes da neurociência – no intuito de entender como se dá o processo de aprendizado da leitura no cérebro – comprovou que foi o contrário: foi a escrita que evoluiu da forma logográfica para a fonêmica para se adaptar ao nosso cérebro, já que ele apresenta limitações biológicas para sua plasticidade.

Portanto, como toda invenção humana, o nosso cérebro se adapta para dominar a sua técnica. Diferentemente da língua falada, que é inata, a língua escrita precisa ser aprendida de forma sistemática e progressiva para que seja dominada. E essa progressividade deve ser do mais fácil para a mais difícil e treinada repetida e exaustivamente para que as funções mais simples do processo sejam armazenadas na memória de longo prazo e automatize sua ação, para que, assim, a memória de trabalho possa se dedicar a assimilar as técnicas mais complexas e entrar num ciclo contínuo que se auto alimenta.

E segue essa dinâmica porque o reconhecimento das palavras passa diretamente pela parte do cérebro que reconhece as imagens e objetos. Significa, então, que quando estamos lendo, o nosso cérebro pega cada palavra, decodifica em pequenas partes (grafema/fonema, sílabas, morfemas, palavras) e a seguir, ao reconstruir a imagem da mesma, associa à sua imagem sonora, pronúncia e, por fim, chega ao significado. Todo esse processo durando menos de 1 segundo.

Quando se dá, portanto, a alfabetização, o que acontece é que o nosso cérebro passa por um processo de adaptação e reorganização neuronal que automatiza todo essa dinâmica nos permitindo dominar a leitura/escrita (esse processo todo é mais complexo, então fiquemos com seu resumo) assimilando progressivamente toda a estrutura lexical, gramatical, sintática e semântica do idioma. Portanto, o aprendizado da leitura/escrita deve invariavelmente seguir um processo fonêmico e ir das menores para as maiores unidades. É o princípio do aprender a ler para depois ler para aprender.

A importância de se seguir esse caminho é o fato de que quanto mais dominarmos essa habilidade, melhores leitores seremos e quanto mais fluentes formos na prática leitora, mais aprenderemos sobre os mais diversos assuntos, ou seja, para nos tornarmos autônomos e com senso crítico, invariavelmente, devemos ser alfabetizados da forma tradicional, devemos passar por um processo educacional que preza pela transmissão de conhecimento prévio para que posteriormente esse conhecimento se sedimente na memória de longo prazo alicerçando a aquisição de novas informações. É, pois, o ensino tradicional que permite que sejamos aquilo que tanto almeja os profissionais de ensino no país.

Mas, ao contrário do que a ciência diz, nosso sistema educacional despreza o ensino tradicional. Com o argumento de que essa forma de lecionar é mecanicista, que tira a autonomia do aluno, que o torna passivo no seu aprendizado, essa “educação bancária” (usando um termo de Paulo Freire, nossa maior vaca sagrada educacional) foi demonizada, os educadores brasileiros preferiram, nos últimos 40 anos pelo menos, adotar teorias pseudocientíficas da moda, preferiram abraçar preceitos das ciências sociais que não possuem qualquer comprovação de eficácia – ao contrário disso, países como Finlândia, Grã Bretanha, EUA, dentre outros abandonaram e abraçaram a volta do ensino tradicional – teorias essas que carregam mais viés político-ideológico que propriamente educacional e que estão nas diretrizes basilares do Ministério da Educação.

Enquanto os países no topo dos rankings educacionais reviram essas teorias e abraçaram a neurociência para entender como se dá o processo de aprendizagem no cérebro humano, enquanto países como Cingapura, Coreia do Sul ou Finlândia (para ficar nos que estão entre os melhores) adotam o modelo tradicional de ensino, o que se vê no Brasil é uma academia que se mantém parada nos anos 1960. O que temos é um sistema de ensino pautado exclusivamente por teorias como o sociointeracionismo ou o construtivismo e abraçando nomes já refutados como Piaget, Vygotsky, Foucault, Bakhtin e até mesmo o tão laureado Paulo Freire. Esse último, aliás, dito como grandemente citado ou reconhecido lá fora, na verdade é citado e reconhecido apenas como uma fraude e nunca tendo sido aplicadas suas teorias (que na verdade nem são realmente suas, mas isso é assunto para outro texto) em larga escala em outros países.

Portanto, a grande ironia disso tudo é que esse ensino progressista, abraçando causa ideológicas e levando essas causas para dentro da sala de aula com a intenção de formar pensadores críticos e cidadãos autônomos (mas fazendo isso desprezando o ensino tradicional), criou nas últimas décadas uma imensidão de analfabetos funcionais incapazes de compreender conceitos ou comandos simples, incapazes de avaliar qualquer situação cotidiana mais complexa, um exército de pessoas que mal conseguem ler um simples artigo como esse. Ao tentar formar pessoas críticas, criaram zumbis incapazes de pensarem por si mesmos e que passam seus dias procurando líderes que possam guiá-los por não terem qualquer autonomia de pensamento ou capacidade de pensar criticamente. Ao abandonarem um método eficaz e comprovadamente científico, criaram um país de terraplanistas que são incapazes de aprender qualquer coisa e não conseguem nem mesmo usar corretamente uma máscara cirúrgica ou entender um processo de contágio viral. E esse é o monstro que a educação progressista criou e que consumirá esse país: uma população de neandertais em meio a civilização ocidental.
Kleryston Negreiros é professor na rede privada de ensino do Rio de Janeiro e especialista em Gestão educacional.

REFERÊNCIAS:
BENEDETTI, Kátia Simone. A falácia socioconstrutivista: Por que os alunos brasileiros deixaram de aprender a ler e escrever. Editora Kírion. DF. 2020
ENKVIST, Inger. Repensar a educação. Bunker Editorial. SP. 2006.
ENKVIST, Inger. Educação: Guia para perplexos. Editora Kírion. DF. 2019.

terça-feira, 19 de maio de 2020

EPIFANIAS NO CAFÉ DA TARDE


Nesses mais de dez anos no magistério, desenvolvi duas habilidades que me ajudam muito a compreender o que acontece ao meu redor: a capacidade de ver um panorama geral e mapeá-lo nos detalhes e a capacidade de me aprofundar em algo e condensá-lo para transmitir aos demais. E é isso que tenho feito nesses 63 dias de quarentena (escrevo esse texto no dia 19 de maio, já estando em casa desde o dia 16 de março): observar e processar.

O que passei a observar – acompanhado de estudos feitos nos momentos em que não estou trabalhando nem tentando me entreter para não entrar em paranoia – foi basicamente o comportamento dos meus pares (professores), das pessoas comuns em relação a esse confinamento e a conduta do nosso maluco em exercício, Jair Messias. E cheguei a algumas conclusões a partir desses meus devaneios, na verdade, a uma conclusão, que passa invariavelmente pelo mesmo causador: a falta de educação – aqui no sentido acadêmico mesmo – brasileira e seu pouco apreço pelo Conhecimento. Mas, vamos por partes.

A primeira coisa que me chamou a atenção, logo nas duas primeiras semanas de fechamentos de toda ordem no Brasil (as escolas foram as primeiras a fechar), foi o despreparo e desespero da grande maioria dos professores em se adaptarem a essa realidade. Por que me chamou a atenção? Explicarei de forma sucinta: há alguns anos, as escolas privadas – de médio e grande porte em sua maioria e as pequenas em menor escala – adotam plataformas online (chamadas AVA – ambientes virtuais de aprendizado) entendendo que essa geração tem uma relação quase simbiótica com tecnologias móveis e é uma maneira de estender o conteúdo da sala de aula para fora do ambiente escolar. Além disso, há uma profusão de plataformas como essas, mas gratuitas; sem contar que nos currículos de formação de professores –seja graduação ou extensões – o domínio dessas ferramentas se faz presente.

Bem, onde quero chegar: a despeito de estarem disponíveis há pelo menos uma década, a despeito de estarem no currículo da formação docente, a despeito de já serem adotadas em muitas escolas, o que se viu foi um despreparo absurdo por parte dos docentes (antigos ou jovens) que, via de regra, deveriam ensinar aos alunos autonomia e prepará-los para a realidade. O que se viu foi a esmagadora maioria dos profissionais de ensino recusando-se a aprender novas tecnologias aplicáveis ao seu trabalho e que prepararia seus alunos para o mercado de trabalho ignorando o seu aprendizado nesses últimos anos devido a uma visão ludista dessas ferramentas. E o resultado foi a profusão de profissionais endossando o discurso de que o ano letivo deveria ser suspenso, que isso era ruim e contraproducente, que dessa forma só dariam conteúdo (!?) e dando razão aos pais que se recusavam a cumprir com sua obrigação de progenitores que é: educar seus filhos. E mesmo depois de adaptados, muitos desperdiçam a oportunidade de estarem em casa para se aprimorarem através de cursos gratuitos online disponíveis (considerando que a alegação de não se aprimorarem é a falta de tempo e recursos).

Daí parto para outra observação: o comportamento de pais que bradam que não se importam que seus filhos percam o ano letivo, que criticam as escolas por estarem criando meios de cumprirem com seu papel social. Essas pessoas apresentam o mesmo tipo de egoísmo e ignorância daquelas que saem sem máscara, que não se importam ou fazem pouco caso da pandemia, que são incapazes de compreender comandos simples ou, ainda, como bons palpiteiros, debatem até mesmo o uso de procedimentos ou medicamentos como se especialistas fossem.

Essas pessoas não estão preocupadas com seus filhos na verdade, apenas não querem ter trabalho ou ignoram a importância de se criar uma rotina para a criança em tempos de isolamento, não pesquisam ou tentam entender como é importante emocionalmente para os pequenos ter um senso de normalidade numa situação como essa. Assim como o outro exemplo, que não tem a real noção do quão grave é essa pandemia e faz troça, típico daqueles que ignoram as coisas mais básicas; são os que têm pouca capacidade cognitiva para compreender comandos simples e agir para a própria segurança. Assim como os professores citados acima, que são incapazes de usar uma ferramenta intuitiva ou entender uma frase simples de uma instrução, essas pessoas são incapazes até mesmo de entender como se usa uma máscara cirúrgica.

E esse comportamento típico de pessoas com baixa cognição ou baixa capacidade de reflexão é observado no nosso chefe de estado. Bolsonaro é o reflexo do brasileiro comum; todos nós temos um tio ou um vizinho com o mesmo perfil: tacanho, grosseiro, visão limítrofe, desdenhoso com quem sabe mais do que ele e ignorante aos preceitos mais básicos de civilidade. E esse perfil é refletido nas declarações e posturas dele como o pouco caso ao fazer piada enquanto se contabiliza dezenas de milhares de mortes de Covid-19, a irresponsabilidade de politizar uma tragédia pandêmica, impor sua vontade acima de especialistas, et reliqua. Ele, como os citados acima, ignora a ciência, despreza o conhecimento, não é capaz de compreender conceitos básicos e despreza as regras de civilidade ou, no seu caso, da liturgia do cargo que ocupa.

Mas como tudo isso se relaciona, irão me perguntar: simples, tudo é fruto de mais de 60 anos de deseducação no Brasil. O que faz com que tenhamos um povo como o nosso, que tenhamos presidentes como o Lula, a Dilma e Bolsonaro, que tenhamos professores que defendam a suspensão do ano letivo e aplaudam pais que se recusam a educar seus filhos é todo um histórico de práticas pedagógicas adotadas no país que desprezam o Conhecimento e adotam pedagogias que abraçam ideais igualitário e progressistas. São décadas de um programa de ensino que visa a formar professores, ano após ano, que preferem formar cidadãos críticos analfabetos funcionais a formarem cidadãos capacitados a ingressarem no mercado de trabalho e se tornarem autônomos (sim, já ouvi isso de um professor). É mais de meio século formando profissionais de ensino que abrem mão da pesquisa séria e racional e da busca pelo Conhecimento para legitimarem suas visões subjetivas e ideológicas.

E isso tudo, depois de todos esses anos de (intencional) formação precária dos profissionais de ensino, de formação de professores que deveriam abraçar o Conhecimento e sua busca como um credo (mas que o rejeita), depois de jogar em salas de aula essa turba de néscios com diploma, o que se vê é toda uma nação – independentemente da idade – no total vazio moral, na total ignorância, na plena incapacidade cognitiva. E essa população de homens-massa (para usar um termo de Ortega Y Gasset) acabam por eleger um dos seus, ano após ano, independentemente do que acreditem, na esperança de que o mentecapto em chefe possa guiá-los a um futuro promissor. E essa, senhores, é a nossa real tragédia: sermos neandertais em meio à civilização ocidental.

Kleryston Negreiros é professor de Língua Portuguesa da rede privada de ensino do Rio de Janeiro e especialista em Gestão educacional.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A EDUCAÇÃO NO BRASIL MUITO ALÉM DOS CLICHÊS – UM RETRATO REAL DO QUE ESTÁ ACONTECENDO





Depois de política, o tema mais discutido por especialistas de redes sociais por essas bandas é a Educação. Tema caro a todos nós – do meio ou não – ele foi assunto recorrente nos últimos meses tanto pelas confusões promovidas na curtíssima gestão Velez, quanto pela queda de braços promovida pelo atual ministro, Abraham Weintraub, e profissionais da área que se sentem ameaçados por suas medidas e declarações, como no caso do contingenciamento dos gastos das universidades federais e as acusações do ministro quanto à doutrinação de professores e aliciamento de alunos.

Bem, não vou me ater a bate boca de Clotilde aqui, nem levantar bandeira a favor de qualquer lado, o que pretendo mostrar é que, apesar de muito falado, poucos tem a real compreensão de como é a educação no Brasil, mesmo os profissionais da área não se dão ao trabalho de pesquisar e a tentar entender de maneira pragmática o problema e, na esmagadora maioria das vezes, ficam repetindo bordões e frases feitas promovidas por políticos oportunistas ou sindicatos, que no mundo real mais atrapalham do que ajudam. E mesmo esses profissionais do ensino que não procuram olhar de forma racional o drama educacional brasileiro, não o fazem nem é por canalhice, mas por terem sido malformados e também condicionados para acreditarem e reproduzirem ad eternum esses clichês.

Uma prova disso foram os argumentos usados nas manifestações que vimos no último mês onde professores e alunos – não farei juízo de valor, nem falarei nada sobre ter havido ou não coação dos alunos por parte dos professores, não é o intuito desse artigo – dentre eles, o clichê da falta de investimentos na área. Só que hoje, por exemplo, o país investe 6% do PIB – parece pouco, mas é mais do que o Chile e o Uruguai, os melhores sistemas de ensino da América Latina – e tem uma meta de investir 10% até 2024 (mesmo patamar dos países da OCDE). Isto é, como poderá ser visto logo a seguir, investir mais não significa melhores resultados.

Pois bem, as mesmas pessoas que apregoam que faltam recursos na área, não fazem a menor ideia de como ou se há qualquer relação entre gastos e produtividade, também não fazem a menor ideia dos reais números ou qualquer informação e não se dão conta nem de que eles próprios, professores, também foram vítimas desse processo falido e que virou fábrica de analfabetos funcionais. Abaixo enumerarei alguns números que servem para mostrar a quantas anda a educação e que servirá para se entender até mesmo porque os professores por aqui são como são.

O problema educacional já começa na formação do profissional de ensino e culmina nos resultados que mostrarei em breve, criando um círculo vicioso de baixa qualidade de ensino, que leva a um profissional mal preparado, que leva uma baixa qualidade e assim por diante. Dois dados iniciais já dão a tônica de como é formado um professor nas melhores universidades do Brasil:
  1.            Os cursos de licenciatura por aqui – vamos ficar nos principais: Letras e Matemática – dedicam apenas de 5% a 11% da carga horária para disciplinas didáticas específicas, em cursos de pedagogia o percentual ainda é menor, 4%, ficando o restante da grade dedicado a estudos teóricos diversos como sociologia ou história da educação (esses ficam em torno de 22% as obrigatórias e 20% as optativas);
  2.            Metade dos professores em atividade no Brasil não escolheram essa profissão, ou seja, um em cada dois professores queria fazer outra coisa. Pensem um pouco: como você vai trabalhar com competência e dedicação se não é necessariamente aquilo que você quer fazer?


Os dois dados acima não foram tirados do éter, eles fazem parte de uma pesquisa patrocinada pela UNESCO e feita em 2009. Essa pesquisa foi conduzida por Bernadete Gatti, que desde os anos 1980 estuda a situação do docente no país. Esse estudo revelou também mais um dado: os cursos de licenciatura, por serem os menos concorridos, acabam atraindo os alunos com os menores rendimentos escolares já que o nível de exigência para passar é menor (a relação candidato/vaga em Matemática na Fuvest, por exemplo é de 3 para 1).

Pois bem, o que isso serve para ilustrar, vejamos: a profissão que, segundo os memes forma outras profissões, é a que menos atrai cabeças pensantes. Atraindo somente os menos capacitados e ainda tendo uma formação precária, o que temos aqui é uma roda viva de alunos malformados que vão para as salas de aula e formam mal outros alunos, que por sua vez, viram novos professores e entramos num ciclo sem fim. E esses professores despreparados ainda são alvos fáceis de teorias relativistas e coletivistas, como a Escola de Frankfurt ou a pedagogia do oprimido. A realidade é que, quando o ministro fala sobre doutrinação nas academias e professores vêm putos alegando que não foram, na real, eles nem se dão conta do que lhes foi feito, são fruto de 3, 4, gerações de professores imersas nessas teorias, para eles – professores – essa é a realidade, é o mundo a que foram apresentados desde sempre.
E onde isso nos leva? Aos números sobre educação que listarei abaixo. Hoje, temos no Brasil:
  •          29% de analfabetos funcionais na faixa entre 15 e 64 anos;
  •          21% de analfabetos rudimentares na mesma faixa;
  •          8% de analfabetos absolutos (25% desse número são maiores de 65 anos);
  •          41% dos brasileiros na faixa de 25 anos não concluíram o ensino médio (no Chile e na Coreia do Sul, por exemplo, esse número é de 14% e de 7,5%, respectivamente);
  •          35% dos estudantes reprovaram pelo menos uma vez durante a sua vida escolar (a média da OCDE é de 15%);
  •          26% dos alunos abandonam a escola.


Esses números, somados aos baixos salários e os problemas de saúde relacionados ao ofício docente (66% dos professores se afastam por razões médicas, sendo 87% relacionadas ao trabalho em sala de aula), dão a tônica do que é a educação no Brasil. Isso é uma observação racional, a partir da coleta de dados reais e que passa ao largo dos clichês do tema. Infelizmente, aqueles que deveriam olhar de forma clara esses números e fazer algo, os que estão na ponta de lança – professores e gestores educacionais – na maioria das vezes aumentam mais ainda esse drama, não intencionalmente, mas por serem também vítimas desse sistema perverso que destrói a inteligência do país e impede nosso desenvolvimento.

E quando vemos um professor indo para as ruas protestar pedindo mais intervenção do Estado, quando vemos um ministro da Educação com discursos simplistas, quando percebemos a cegueira dos profissionais de ensino sobre a nossa rotina, fica claro o quanto poucos têm a real noção do que está acontecendo e que, infelizmente, esse nó ainda demorará muito a desatar.

Fontes:
ALBERTAL, Adriana L. Os resultados no Pisa: reflexões sobre a educação no nosso país. Direcional Escolas: A revista do gestor escolar, São Paulo, 19 set. 2018. Disponível em: < https://direcionalescolas.com.br/os-resultados-do-pisa-reflexoes-sobre-a-educacao-no-nosso-pais/>. Acesso em: 14 mar. 2019.
BARROS, Daniel. País mal-educado: por que se aprende tão pouco nas escolas brasileiras? Rio de Janeiro: Record, 2018.
MELANDA, Francine Nesello. Violência física contra professores no espaço escolar: análise por modelos de equações estruturais. Trabalho de pós-graduação em Saúde Coletiva. Universidade Estatual de Londrina, Paraná, 2017, 12 p.
PALHARES e DIÓGENES, Isabela e Juliana. Três em cada dez são analfabetos funcionais no país. Estadão, São Paulo, 06 ago. 2018. Disponível em: <ttps://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,tres-em-cada-10-sao-analfabetos-funcionais-no-pais,70002432924>. Acesso em: 14 mar. 2019.
PIERI, Renan. Retratos da educação no Brasil. São Paulo: INSPER, 2018.
TEIXEIRA, Larissa. Ansiedade, estresse, dores de cabeça e insônia estão entre os principais problemas que afetam educadores, segundo estudo realizado pela NOVA ESCOLA. Nova Escola. São Paulo, 16 ago. 2018. Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/12302/pesquisa-indica-que-66-dos-professores-ja-precisaram-se-afastar-devido-a-problemas-de-saude>. Acesso em: 14 mar. 2019.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

GAROTA EXEMPLAR E A EXALTAÇÃO À INFÂMIA




A desgraça alheia sempre causou fascínio nas pessoas. A fofoca, calúnia, o disse-me-disse sempre foi o assunto preferido da vizinhança e sempre rendeu histórias interessantes tanto que, com o advento dos reality shows, programas de auditório que exploram as mazelas dos mais humildes e as redes sociais, a infâmia atingiu seu apogeu. E se alguém brilhante, inteligente, que soubesse como ninguém ler a mente das pessoas (um psicólogo, por exemplo) e tivesse paciência e meticulosidade para usar essa máquina da injúria para destruir um desafeto? O que essa pessoa seria capaz de fazer? E se bastasse fazer com que acreditassem que alguém (um homem principalmente) cometesse algum crime, mesmo sem provas, ou provas forjadas, se bastassem as palavras de uma mulher vitimada (mesmo não provada), mas de caráter dúbio e com deliberada intenção de destruir um homem, por puro desejo de vingança? Eis o que nos traz a dica de hoje, Garota Exemplar.

A obra da jornalista norte americana Lillian Flynn, lançado em 2012 e adaptada para o cinema dois anos depois, foi laureado por sua trama surpreendente, cheias de reviravoltas e por mostrar quão extremados podem ser os atos de um casal que passa a se odiar e como pode ser contundente e destrutiva a vingança. Não pretendo falar da obra em si porque teve sucesso tanto no cinema quanto na literatura e a sua narrativa é bem conhecida (ou pelo menos deveria). Um ponto que nenhuma crítica se empenhou em observar na época de lançamento do livro e do filme e que é crucial para o desenrolar da narrativa é como a imprensa e as mídias podem ser o céu e o inferno na vida de alguém e como a justiça e opinião pública, com o avanço do politicamente correto, transformaram uma proteção em máquina de destruir reputações masculinas.

Realmente o livro é impactante. A trama tem a qualidade de agradar a leitores iniciantes e iniciados, vou me explicar: para leitores mais acostumados a tramas de suspenses, fica claro desde o início (um pouco de spoiler) que o marido Nick Dunne é inocente. Com duas vozes paralelas – a dele contando o que aconteceu a partir do desaparecimento da esposa, Amy Elliot Dunne, e a dela através de seu diário que vai contando como se conheceram até seu desaparecimento. Uma vida perfeita, um casal perfeito, uma mulher perfeita. Chegamos a acreditar nas evidências de que ele é realmente o culpado e ver por quanto tempo ele sustentará a farsa. Assíduos desse tipo de narrativa percebem que tudo é uma mentira contada por ela e o que prende ao livro e descobrir como Amy consegue criar uma cena de crime tão perfeita que o seu esposo não consegue se desvencilhar. Para leitores menos experientes, mesmo esses mecanismos não dão a pista de que a jovem é a vilã da história. Ponto para autora que sabe prender vários tipos de leitores, porém esse não o meu ponto de vista e que me chamou a atenção no romance, vamos a ele.

A forma como Amy deixa as pistas leva todos a suspeitarem de seu marido, como já foi dito. Mas a vida de Dunne começa a desmoronar quando cai na mídia e a imprensa começa a acompanhar todos os rumos da história. Acampam na frente de sua casa para manter a atenção dos espectadores, fazem especulações e inflamam a já delicada situação. Apresentadores sensacionalistas se aproveitando de todo o clamor popular começam a tomar partido e o que era a vida pacata de um homem comum vira um inferno de invasão de privacidade e destruição de reputação.

Mesmo quando a esposa volta e muda todo o rumo da narrativa (outro spoiler), a mídia televisiva e da internet tentam tirar proveito. Uma fala que descreve bem o que está acontecendo é a do advogado que, num dado momento, diz que os argumentos de Nick não dão tv boa, ou seja, não jogam a opinião pública e os possíveis juízes no seu provável julgamento a seu favor.

Sendo jornalista, a autora conhece bem esse meio. Nós, como consumidores de mídias também e somos ávidos por histórias empolgantes e sórdidas, faz-nos ver como nossas vidas no fundo são boas. E essa imprensa sensacionalista que vive de escândalos é mostrada de forma como realmente é: não importa quem diz a verdade, o que importa é uma boa fofoca, que venda e dê audiência. A protagonista é uma psicóloga metódica e disciplinada, ela conduz nós, leitores, e jornalistas a acreditar e a odiar seu marido. O advogado, sendo o melhor nesse tipo de caso – conflitos conjugais que terminam em crime – também conhece esses profissionais e faz o protagonista ser admirado e perdoado. Quando Amy volta (mesmo com uma história com furos) e reata com seu esposo, ambos se tornam os queridinhos da América. É uma crítica contundente tudo isso. A autora usa a trama para mostrar como existe e funciona essa indústria da infâmia que alimenta sites e revistas de fofoca, programas que exibem o pior das relações humanas, Flynn expõe o lado negro do quarto poder.

E eu fiquei pensando nesse livro durante esses dias ao ver o filme (confesso que pela primeira vez) e acompanhar um tanto dispersamente o caso do estupro do Neymar. Sem fazer qualquer defesa ou apologia ao menino Ney (nem simpatizo com ele, aliás), acho inclusive que ele foi no mínimo ingênuo – para não dizer burro – de cair numa armadilha dessas. O que me reportou ao caso foi o fato de que ele não é o primeiro a cair nesses golpes oportunistas de mulheres que querem se favorecer às custas de famosos e, ao não conseguirem seu intento (um casamento ou pelo menos um filho – o mais fácil), partem para a vingança usando toda a máquina jurídica e de mídia contra o infeliz.


Ao fazerem uso de maneira premeditada de legislações que protegem as mulheres e do senso comum e politicamente correto de que o homem é a personificação e que qualquer mulher estará sempre acima de qualquer suspeita, elas acabam destruindo a reputação de homens públicos ou nem tão renomados assim. É comum vermos casos de denúncias de estupros ou agressões que levam muitas vezes homens corretos que só não quiseram continuar uma relação, talvez, e só depois de algum tempo, no decorrer do processo, descobre-se que a denúncia foi falsa, mas já tendo destruído a vida do sujeito, seja famoso ou não.

Mas o pior de tudo isso é o efeito colateral dessas denúncias falsas, principalmente as cercadas de sensacionalismo. Devido ao crescente número desse tipo de denúncia, o que passa a acontecer é que essas ferramentas de proteção das mulheres, que são relevantes – não desconsideremos que existem muitos indivíduos merecedores de muita porrada pela forma como tratam suas companheiras, sujeitos que mereciam serem empalados por cada porrada dada numa mulher – perdem a confiança da opinião pública. Para cada denúncia falsa desse tipo (considerando que no momento desse texto, o Neymar ainda está sob investigação) todo o aparato da justiça deixa de ser direcionado a quem realmente precisa e no caso de pessoas públicas, faz com que essas notícias percam sua importância.

Eu poderia ficar horas aqui enumerando casos de denúncias falsas e como isso se assemelha ao enredo do livro, mas por hora, deixo a dica de leitura, o toque para possíveis leitoras para que sejam mais responsáveis e cuidadosas nas suas escolhas – a começar pela escolha do parceiro – e para os possíveis leitores que mesmo não sendo o Neymar, devem ficar espertos com as garotas exemplares que podem cruzar seu caminho. Até a próxima.

terça-feira, 21 de maio de 2019

THANOS, O VILÃO DO BAIXO LEBLON



Thanos é o vilão do momento. A essa altura do sucesso do filme Vingadores e de todo o rebuliço nos últimos anos com os filmes da Marvel Studios, ele não só não precisa de apresentações, como (acho que posso dizer sem medo de errar por excesso) entrou para o hall dos maiores vilões do cinema. Está entre os maiores porque, de certa forma, ele é mais real do que pensamos, vejamos por quê.
O que o move é o seu desejo de equilibrar o universo. Thanos considera que as criaturas que vivem nos mundos habitados (estamos falando de uma narrativa criada para os quadrinhos, não esqueçamos) destroem seus recursos, povoam de forma desordenada levando até ao próprio extermínio, ele acredita que todo o universo vai deixar de existir se algo não for feito. E ele faz. Reúne as Joias do Infinito e com elas reequilibra as coisas dizimando metade de todos os seres do universo, pois acredita que, reduzindo as populações pela metade, a que sobrar ficará grata por ter mais terras e possibilidades de sobrevivência. Ele se vê como alguém inevitável e acredita que está fazendo o bem.
O problema é que ele desconsidera alguns fatores relevantes para pôr seu plano utópico em prática: a resistência desses povos para preservar os seus, o desejo de lutar para desfazer tudo e trazer de volta quem perderam e ainda, desconsidera as condições populacionais que permitiram a esses mundos evoluírem. Sua visão malthusiana faz com que ele não perceba que com metade das populações, perde-se também metade da força produtiva, metade da mão-de-obra e metade dos consumidores, isso gera escassez, carestia e uma vida muito pior do que antes e os sobreviventes lutarão para restaurar o que tinham porque, por pior que pudesse parecer, era o seu mundo.
Não satisfeito com a rebelião, por achar que foram ingratos, que a lembrança do mundo como era faz com que não aceitem o futuro maravilhoso e perfeito que os aguardam, Thanos toma a decisão drástica de destruir todos e então criar novos habitantes para esses mundos, criar os povos ideais, que não possuem quaisquer lembranças do mundo anterior e que serão gratos pelo porvir nessa realidade idílica, a materialização do Éden. No fundo, ele não é mal, ele só quer equilibrar a realidade e finalizado seu projeto – não importando quantos morrerão para que esse equilíbrio chegue – irá para o seu jardim, cuidar de sua vida, sua horta e viver em paz.
Olhando assim, parece coisa de quadrinhos, esse vilão que tem o plano perfeito, mas que destruirá tudo e todos, que precisa ser detido e todos torcemos para que os heróis vençam esse mal absoluto, todos queremos que no fim, seu projeto de poder falhe, ninguém em sã consciência apoiaria um ser assim. Ninguém fica ao lado do vilão. Não fica?
Fica. O desejo de Thanos, a reengenharia social, o alarmismo como justificativa à criação da sociedade perfeita amparando o Homem Ideal, o Homem do Futuro, não é um discurso inventado, muito pelo contrário, ele foi largamente (e ainda é) aplicado desde o início do Século XX, sempre promovido por líderes abnegados que lutavam por uma causa nobre e em nome desse futuro glorioso e utópico. Esse plano de Thanos já foi chamado de vários nomes: Revolução Bolchevique, Nazismo, Fascismo, Revolução Cultural, Revolução Cubana, mais recentemente, Bolivarianismo e Thanos já teve diversos nomes também: Lênin, Trotsky, Hitler, Mussolini, Mao, Fidel e mais recentemente, Maduro.
E o mais assustador disso tudo é que diferentemente do que esperaríamos que fosse o comportamento das pessoas diante de uma personagem assim, muitas apoiam os Thanos da vida real. Os mesmos que aplaudem o Capitão América quando este grita “Vingadores, avante” para derrotar o grande vilão, esse símbolo do mal no mundo (ou nos mundos), são os mesmos que apoiam os tiranos reais, são os mesmos que, a despeito de todas as mortes e genocídios promovidos por esses déspotas, ainda há aqueles que bradam com orgulho seus ideais e ainda sonham com o grande líder cor violeta que irá dizimar todos os que impedem que o futuro glorioso chegue. Os mesmos que aplaudem os Vingadores, lutam para colocar no poder um Thanos para chamar de seu e que provavelmente emergirá nas hortinhas orgânicas ou bares de cerveja artesanal da Vila Madalena ou do Baixo Leblon, com sua pele arroxeada e um coque samurai.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

NÃO SEJA BABACA

O conceito de babaca mudou um pouco, ficou mais abrangente. Babaca é aquela pessoa que inventa ou espalha mentiras e ainda tenta ridicularizar quem não acredita em suas falácias.

Pois bem.

Em momento algum alguém disse (ou acreditou) que a corrupção e a impunidade acabariam no Brasil com a prisão do Lula, ou, que o PT é o único partido corrupto no Brasil.

Nenhuma pessoa com um nível aceitável de atividade cerebral diria ou pensaria algo desse tipo, pelo menos na minha timeline, nenhum amigo publicou esse tipo de coisa.

Lula não foi para a cadeia pelo desempenho de seu governo. O Brasil teve muitos governantes péssimos e nenhum deles foi para a cadeia por ser incompetente. A maior prova disso é Dilma livre, soltinha e falando suas asneiras por aí. E Dilma foi umas das governantes mais incompetentes que o Brasil já teve, se não foi a maior.

Óbvio que os 8 anos de governo Lula trouxeram acertos, e algumas boas ideias foram implantadas. Porém, Lula foi preso por que roubou, simples assim. E a decepção do povo brasileiro é particularmente maior com o PT do que com os demais, porque o PT (e Lula) passou anos vendendo-se como diferente dos demais partidos e, quando finalmente recebeu a chance do povo brasileiro, fez tudo da mesma forma que os outros fizeram, chafurdando na lama do que há de pior na política.

E defender um criminoso, por algumas coisas corretas que fez, é como defender o marido que espanca a mulher em casa, apenas porque ele paga as contas.

Boa parte do país está feliz com a prisão de Lula, pois, numa terra de impunidade galopante, conseguir processar (com lisura), com amplo direito de defesa, provar a culpabilidade de um ex-presidente, condená-lo e prendê-lo é uma grande vitória.

Acabou? Claro que não, e todos sabemos disso.

Tem muito corrupto esperando a sua vez de ir para a cadeia, de vários partidos e defensores das mais diversas ideologias. E muitos desses corruptos, estão hoje protegidos por uma aberração, chamada foro privilegiado.

Se vocês se lembrarem bem, o próprio Lula quando se viu atolado até o pescoço em denúncias e com a justiça já em seus calcanhares, tentou conseguir um foro privilegiado, fazendo-se ministro de Dilma em seus momentos derradeiros.

A luta contra a corrupção está longe de acabar. Não minta dizendo que não sabemos disso, pois, sabemos sim. E se a sociedade quer mesmo seguir nessa luta, o próximo alvo é o fim do foro privilegiado.

Essa é a bandeira que a sociedade organizada e movimentos como MBL, Vem pra rua e outros tem de comprar.

É uma luta longa que pode levar muito tempo, mas, você pode ajudar. É só não reeleger alguns políticos que estão na mira do MPF e da PF, e que hoje se escondem atrás do foro privilegiado.
Faça a sua parte. E não seja babaca.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

AINDA ACREDITO

Farei 41 anos em março.  Boa parte desse tempo passei acreditando e vendo políticos e empresários se safando da justiça, fazendo uso de poder e dinheiro pra saírem impunes. Esse era o praxe e a frase de Orwell fazia todo o sentido: todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros.

Mas o que estamos vendo nos últimos anos é a aplicação, ainda que com alguma dificuldade, a materialização do império das leis. O que temos visto é a prisão de grandes empresários, vimos um senador da República e um deputado federal presos, vimos os 3 últimos governadores do segundo maior Estado da federação presos estando um deles encarcerado há mais de 1 ano e ontem assistimos (alguns embevecidos) à condenação de um ex-presidente da República, mas não um qualquer, mas, o mais popular desde Getúlio Vargas.

Muitos estão desesperançosos com as constantes notícias de corrupção e violência, este sintoma crônico do primeiro, porém, ao presenciarmos um colegiado agindo como agiu, quando ouvimos de um desembargador mostrando que ninguém está acima da lei, podemos voltar a acreditar que há chances de melhorias pro país.

Não sou um utópico, sei que há muito o que se fazer e combater. Melhor que muitos, sei quão nefasta é a doutrinação ideológica na formação de docentes e demais profissionais que atuam como formadores de opinião e fomentadores de cultura, há uma guerra cultural e ideológica acontecendo e que está ligada diretamente ao modo como pensa essa população. Entretanto, cresce o número de pessoas que não compram mais isso, é cada vez maior o número de jovens descontentes e que não aceitam essa doutrinação e essa vitória de ontem é uma injeção de ânimo naqueles que acreditam que as coisas podem mudar pra melhor. Ainda tenho esperança.

domingo, 5 de novembro de 2017

SOBRE O TEMA DE REDAÇÃO DO ENEM

Nós, professores de Linguagens, passamos o ano todo instruindo nossos alunos a se manterem atualizados sobre os mais variados temas. Instruímos aos discentes a lerem jornais e acompanharem os noticiários para que possam falar dos possíveis temas, que se espera, a banca do ENEM possa colocar como tema de Redação, algo que seja possível de ser desenvolvido por estudantes de nível médio.
Mas o que acontece é que os organizadores do concurso optam por temas cada vez mais absurdamente específicos. O desse ano, sobre a formação educacional de surdos, é algo específico a educadores, um assunto discutido na academia e não numa sala de aula de ensino médio.
Isso é um absurdo, considerando o nível educacional no país como um todo e a insistente escolha de temas que fogem completamente ao universo de um aluno nessa fase.
O pior é que vão aparecer vários professores que legitimarão esse absurdo com argumentos totalmente fora da realidade e sem a coragem de denunciar esse absurdo que só impede o ingresso aos bancos acadêmicos aqueles que mais precisam se aprimorar.

Professor Kleryston Negreiros

sexta-feira, 30 de junho de 2017

O MESTRE E A MARGARIDA – BASTA ME CHAMAR DE LÚCIFER




Depois de um longo hiato – provocado por razões profissionais (e algumas pessoais) – caro leitor deste humilde colunista, estou de volta com muitas obras para falar e muita música para indicar na já cativa coluna: Livros Para Ouvir.

Como os leitores desse blog sabem, essa coluna se propõe a mostrar livros que inspiraram canções de rock ‘n roll, gênero que me agrada e faz parte da minha formação cultural na origem e a obra abordada hoje é um clássico que inspirou uma das maiores bandas de rock do mundo e que é tema de um dos maiores clássicos desse gênero tão controverso. A banda? Rolling Stones. A canção? Simpathy for the Devil. O livro? O Mestre e a Margarida.

Escrito pelo autor ucraniano, Mikhail Bulgákov, o livro é considerado a maior obra da literatura russa no século XX e levou doze anos para ficar pronto, além de só ter sido publicado em 1966. Considerado satânico, foi proibido em vários países durante muitos anos, inclusive na então URSS por conta de seu conteúdo extremamente crítico ao regime comunista – do qual o autor era crítico ferrenho e opositor.

E toda essa polêmica foi causada a partir do próprio enredo. Nele, Lúcifer (sob a alcunha de Woland, um mago) chega à Moscou junto com um estranho séquito de demônios: Koroviev, Azazello e Behemoth, um gato que anda sobre duas patas e joga xadrez e provoca um grande estrago na vida dos habitantes da cidade durante a sua estadia. Em paralelo a isso, é narrado o enredo de um livro, cuja a história se passa em Jerusalém, no dia da crucificação de Jesus mostrando o diálogo inusitado entre Jesus e Pilatos.

Tendo o romance entre o Mestre e a Margarida, ele um escritor frustrado e autor do romance em questão, que tem sua obra recusada pelo governo para ser publicada; ela, uma jovem rica, casada e infeliz como pano de fundo para a narrativa, o texto é uma impactante crítica ao regime soviético (sem contar que durante muitos anos foi considerado uma obra satânica). E essa crítica é feita através da passagem de Woland (o Diabo em pessoa).

Através das mortes e punições promovidas por Woland, o autor do livro expõe toda a hipocrisia e problemas provocados pelo regime de Stalin. Ao levar a plateia do teatro ao extremo ridículo de brigar por pedaços de papel ou fazer com que mulheres saíssem nuas pelas ruas da capital russa, Bulgákov – através da personagem – mostra o quanto era gananciosa e sem escrúpulos a população do país. Passagens como o coral que começa a cantar sem vontade e sem se controlar ou o funcionário público que desaparece e sua roupa continua executando a sua tarefa mostram como era nocivo à sociedade a repetição de comportamentos forçada e a burocracia estatal.

O próprio personagem do Mestre é uma espécie de alter ego do autor. Por sua oposição ao regime stalinista, Bulgákov teve suas obras cerceadas pelo governo e colocado em ostracismo (por stalin apreciar suas peças, ele não foi morto pelo regime) pedindo ao ditador para sair do país para que pudesse publicar suas obras. Assim é com o Mestre (seu nome não é citado). Seu livro é recusado e ele entra em depressão, indo parar num hospício ao se ver sem sua amada, Margarida – inspirada na terceira esposa do autor – e sem o reconhecimento da sua obra.
Um livro que explora bastante o realismo fantástico, algo pouco comum na literatura russa de então, a obra deve ser apreciada tanto por sua narrativa inventiva e dinâmica quanto por sua crítica a um regime nefasto que dizimou milhões de pessoas durante as décadas em que foi mantido naquele e em outros países. Sua narrativa foi tão importante para a literatura mundial que não só os Rolling Stones foram inspirados pelo romance, até mesmo nomes de bandas, como o caso da banda de Black Metal, Behemoth, nome esse inspirado no gato infernal. Um abraço e até a próxima.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

REVOLUÇÃO DOS BICHOS – QUANDO ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS IGUAIS QUE OS OUTROS


Por: Kleryston Negreiros

Uma frase marcou essas duas últimas semanas e foi dita por Emílio Odebrecht em sua delação premiada. Ele disse (parafraseando o General Golbery) que Lula era um bom vivant, que gostava do que é luxuoso e refinado. Fiquei com essa frase na cabeça e lembrei de mais uma obra de Orwell (tão premonitório), mais precisamente seu final: Revolução dos Bichos, inspiração do décimo álbum da banda Pink Floyd (Animals) e dessa semana na série Livros Para Ouvir.

Publicado em 1945, a obra é uma fábula de contornos políticos e que critica regimes totalitários em geral e duramente o de Stálin e o comunismo em particular. No livro, os porcos Napoleão e Bola de Neve – respectivamente Stálin e Trotsky – lideram os demais animais da fazenda onde vivem numa revolução que expulsa os humanos. Tendo sete diretrizes de teor igualitário (1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo; 2. Qualquer coisa que ande sobre quatro patas, ou tenha asas, é amigo; 3. Nenhum animal usará roupas; 4. Nenhum animal dormirá em cama; 5. Nenhum animal beberá álcool; 6. Nenhum animal matará outro animal; 7. Todos os animais são iguais) no começo, com o passar do tempo, descamba para uma ditadura totalitária controlada por Napoleão – tendo, inclusive, ordenado a morte do Bola de Neve – e os demais porcos, seus aliados e mantendo os outros animais na mesma condição de miséria e dominação, num estado pior do que na época dos humanos enquanto eles passam a viver no luxo e conforto da sede da fazenda, descumprindo as próprias ordens.

No fim da narrativa, os porcos já estão negociando com os humanos, mudam as diretrizes para apenas uma (o título da coluna) e – como é percebido pelos outros animais – passam a andar em duas patas, vestir-se com as roupas dos humanos e a negociar com eles. A última cena do livro descreve a semelhança entre os porcos e humanos, não sendo possível diferenciá-los uns dos outros.


E foi nisso que pensei ao ouvir a fala do patriarca da empresa. Lula e o PT são os porcos da narrativa. Eles passaram trinta anos defendo a ética, alegando uma luta pelos trabalhadores e mais pobres, defendendo os interesses dos mais fracos contra os patrões, grandes vilões do país e responsáveis pela miséria do povo. Foram eles que se levantaram nos anos de 1970 para falar em nome de todos os operários e em nome de cada trabalhador desse país que lutava para sustentar suas famílias. E muitos acreditaram nele. Eu acreditei nele. Cresci vivendo o sonho do grande partido que lutava pelos mais pobres e sendo eu filho de retirantes aqui no Rio de Janeiro, fui seduzido por eles. Como eu, muitos acreditaram e lutaram por esse sonho. Nós, os crédulos, pobres sonhadores, aqueles que buscavam uma vida mais digna, éramos os animais da fazenda, a grande massa de manobra, os idiotas úteis (como diria o Velho Major, porco que inspirou Napoleão e baseado em Lênin).


E assim como os porcos, eles traíram aqueles que diziam defender. O mesmo que levantava a voz contra empresários e patrões sentava à mesa deles para se regalar com eles. Lula, o homem mais impoluto do Brasil, que se dizia o grande defensor dos trabalhadores, traía a todos desde sempre. Vendeu companheiros de luta que acreditaram nele, recebia uma mesada vultosa daqueles que jurara combater e com o passar dos anos, ficou cada vez mais difícil diferenciá-lo dos donos de empreiteiras, banqueiros ou megaempresários. Assim como Napoleão, foi capaz até de mandar matar aqueles que se puseram no caminho do seu projeto de poder. E como os porcos, ele hoje age como se seguisse o lema da fazenda: “Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que os outros”. Coloca-se acima da lei e sai por aí soltando bravatas e desafiando a justiça. A sua megalomania é paralela ao do personagem principal do romance de Orwell, sua gana por poder é incontrolável e diabólica e assim como os porcos do livro, é capaz de chafurdar na lama e na sarjeta para conseguir chegar onde quer.

Pink Floyd - Pigs (Three different Ones)


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Kleryston Negreiros é professor e administra o blog Professor, Me Indica um Livro? 

"Se a prudência da reserva e decoro indica o silenciar em algumas circunstâncias, em outras, uma prudência de uma ordem maior pode justificar a atitude de dizer o que pensamos." - (Edmund Burke)