Millor Fernandes:


Jornalismo, por princípio, é oposição – oposição a tudo, inclusive à oposição. Ninguém deve ficar acima de qualquer suspeita; para o jornalista, não existem santos.

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quarta-feira, 5 de abril de 2017

1984 – A PROFECIA QUE SE CONCRETIZOU


Por Kleryston Negreiros

Uma das coisas mais interessantes na cultura é que uma obra, quando se torna relevante para uma geração ou mesmo é eternizada como obra imortal, passa a ser cultuada e vira fonte de inspiração em outras linguagens também. Uma dessas obras é o livro de George Orwell, 1984, um dos romances mais influentes do século XX e o próximo livro da série Livros para Ouvir. (https://play.spotify.com/user/kajotha77/playlist/4no2yNIyJ7YptP3P4iyujA)

Fonte das mais diversas mídias – das histórias em quadrinhos ao cinema (V de Vingança), passando por discos de artistas distintos como David Bowie, Dead Kennedys ou Iced Earth – a obra é uma das maiores distopias do século passado e que, infelizmente, virou uma obra quase profética dos nossos tempos. (trailer dos filmes nos links abaixo)



Escrito em 1948 pelo escritor inglês, a trama narra um longínquo futuro em 1984 onde o mundo passa a ser dividido em três grandes territórios: Oceânia (que engloba a Inglaterra, todo o continente americano, África do Sul e países da Oceania), Eurásia (Europa continental e Rússia) e Lestásia (países dos tigres asiáticos, China e Japão), que vivem em conflitos entre si pelo controle do Oriente Médio a África saariana.

Toda a trama acontece na capital Londres e o país vive sob o regime de um partido único, o INGSOG (sigla para partido socialista inglês) e sob o governo ditatorial do Grande Irmão. Nessa sociedade distópica, não há liberdade ou relações familiares, as pessoas vivem em casas vigiadas a todo instante por teletelas e câmeras nas ruas. A verdade é manipulada, a informação é controlada pelo Estado e até mesmo o significado das palavras está sujeita a mudanças de acordo com os interesses do poder para que as pessoas não consigam refletir.

E é nesse ambiente sufocante que Winston Smith começa a tentar buscar a verdade sobre o Grande Irmão. Funcionário do ministério da Verdade, órgão do governo responsável por reescrever a História (o paradoxo é presente em toda a obra), ele começa a registrar escondido seus questionamentos em um diário, algo proibido, tendo uma polícia do pensamento para tolher qualquer ideia contrária ao que o Grande Irmão deseja. Ao confrontar o poder vigente e cometer uma série de delitos, Smith é preso e torturado por O’Brien, alto funcionário do governo. Ao ser solto, uma lavagem cerebral é feita no protagonista e este passa a amar incondicionalmente o Grande Irmão.

A trama é complexa e dinâmica e seu quadro assustador acabou se concretizando com o passar dos anos. Escrito para ser um alerta, acabou virando um manual de sobrevivência a esses tempos e seu caráter premonitório torna a obra uma das principais já escritas no Ocidente. Muito do que vemos no livro, com o tempo, virou realidade, as teletelas, aparelhos de tv que transmitem e gravam informações (como as smarts tvs, web cams ou smartphones), as câmeras vigiando as ruas (como as de vigilância tanto dos órgãos públicos quanto as privadas) e principalmente, a ideia de um Estado grande que controla os pequenos detalhes da vida de cada indivíduo, está tudo lá e estamos vivendo tudo isso hoje.

Mesmo no cenário político internacional não muda muita coisa. Ao vermos, por exemplo a questão da saída do Reino Unido da União Europeia, está se tornando um bloco da Europa continental (como é a Eurásia) ou mesmo a Inglaterra aproximando as relações com os EUA e países desse lado do Atlântico (como o bloco de Oceânia), percebemos que Orwell é praticamente um profeta dos nossos tempos.

Portanto, essa realidade não poderia levar muitos outros artistas a serem influenciados e criar a partir desse futuro tão sombrio quanto presente em nossos dias. Filmes como V de Vingança – que foi baseado em uma história em quadrinhos homônima – ou álbuns inteiros de artistas tão diferentes como Diamond Dogs, do David Bowie, e Dystopia, do grupo Iced Earth, são vários os exemplos. Mesmo músicas isoladas em discos não conceituais bebe nessa fonte: Califórnia Über Alles, do grupo californiano Dead Kennedys é um bom exemplo.


O livro ainda é atual e sua relevância está no fato de que o mundo acabou, infelizmente descambando para aquilo que Orwell previu como o que poderia acontecer de mais funesto e pelas mais diversas razões o livro não da lista dos mais vendidos em vários países do mundo. Então, leiam o livro antes que seja tarde e ouçam os álbuns que ele inspirou. Até a próxima.




Dystopia - Iced Earth

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Kleryston Negreiros é professor e administra o blog Professor, me indica um livro

terça-feira, 28 de março de 2017

LIVROS PARA OUVIR


Por: Kleryston Negreiros
O rock e a Literatura sempre tiveram papéis muito importantes em minha vida, tanto emocionalmente, quanto a minha formação cultural, em especial o heavy metal – com todas as suas variações – e punk rock, além de outros subgêneros mais acessíveis fizeram parte do meu imaginário.

E devido à minha formação acadêmica e natural gosto por leitura, aos poucos fui percebendo a relação entre esse estilo muitas vezes tão incompreendido e a arte das belas letras, comecei a notar que muitas músicas de que gostavam eram inspiradas direta ou indiretamente em livros que li e me encantaram, com isso (graças à internet e seus recursos, é verdade) pude fazer uma pesquisa e montar num serviço de músicas – o Spotify (https://play.spotify.com/user/kajotha77/playlist/4no2yNIyJ7YptP3P4iyujA) – uma playlist com canções que me agradam e que surgiram a partir de grandes livros. E foi essa a inspiração para essa série de artigos que começa hoje aqui nesse blog, a série Livros para ouvir.

A primeira canção, ou livro de que vou falar, é muito conhecida do grande público, um clássico absoluto e que voltou à tona graças à sua presença na trilha do filme Suicide Squad (Esquadrão Suicida). Sim, meus caros leitores, estou falando de Bohemian Rhapsody, do Queen. A canção que encerra a película e é uma das maiores canções da banda foi baseada (não oficialmente, mas toda a letra faz referência) ao romance de Albert Camus, O Estrangeiro.

Lançado em 1942, a obra se passa na Argélia e conta a história de Mersault, um homem comum e indiferente à vida que vai preso e é condenado pelo assassinato de um argelino mostrando o quanto a existência pode ser uma sucessão de fatos sem sentido e absurda, sem qualquer traço de fatalidade ou predestinação.

A história começa quando o protagonista recebe um bilhete informando do falecimento de sua mãe, o que o leva a tirar o dia seguinte de folga para ir ao enterro. Não fica claro se devido ao cansaço ou a qualquer rancor que possa existir entre mãe e filho, mas o fato é que o rapaz simplesmente não demonstra qualquer traço de dor ou chora durante o cortejo fúnebre. Isso vai ser relevante para os futuros acontecimentos.

A seguir, Mersault volta à sua rotina de trabalho, seus banhos de mar com sua namorada e suas conversas com seu amigo Raymond, um proxeneta que é ajudado por ele numa situação que envolve a polícia. O jovem portanto vai tocando sua vida sem muitos sobressaltos e sendo levado pelas circunstâncias, sem fazer planejamentos ou criando expectativas quanto à sua vida.

E numa dessas situações a que ele não tem controle e que se vê inserido por puro acaso, o francês acaba se envolvendo numa briga iniciada por seu amigo, levando-o a matar o argelino com quem brigavam num ato impulsivo e sem planejamento prévio. Isso o leva a prisão e à julgamento e durante todo o processo, fica claro como a vida é uma sequência interminável de absurdos culminando na condenação de Mersault não pelo assassinato em si, mas pelo fato dele não ter chorado no enterro da mãe, o que caracterizaria um traço de personalidade sociopata.

Camus foi um escritor com forte influência filosófica e nessa obra mostra como a vida muitas vezes não tem muito sentido, como ela se desdobra em fatos corriqueiros sem quaisquer relações entre si e que vai jogando nossos planejamentos e projetos para escanteio enquanto tentamos administrar os improvisos que nos acometem. Essa imprevisibilidade que faz com que planos sejam apenas isso, planos etéreos. Isso fica claro na passagem em que o protagonista percebe o quanto é prazeroso a companhia de sua namorada (relação que surge do acaso e é levada de forma descompromissada) resolvendo, assim, aceitar sua proposta de casamento.

Mas o acaso, essa entidade que não respeita planos ou sonhos o coloca diante de um argelino, com uma arma na mão e quando Mersault se dá conta da sua condição, está diante de um juiz sendo sentenciado à morte. E são nesses momentos finais da vida que ele percebe quanto sua vida era simples, mas prazerosa, como as pequenas coisas, como as conversas com Raymond ou os banhos de mar com Marie. Nesse momento de epifania, na iminência da morte, ele percebe o quanto a vida é sem sentido, como são absurdos os acontecimentos.

A obra de Camus é um de seus mais conhecidos romances tendo inspirado filmes (produzido por Luchino Visconti, em 1967) como também canções de sucesso. Além da icônica música do Queen, outra banda que se inspirou em O Estrangeiro foi a banda The Cure, a música Killing na Arab faz referência direta à essa relevante obra que marcou a literatura mundial do século XX e gerou clássicos em outras expressões artísticas também. Leiam o livro, vejam o filme e fiquem com as músicas abaixo. Até a próxima.

BOHEMIAN RHAPSODY

https://www.youtube.com/watch?v=fJ9rUzIMcZQ

KILLING AN ARAB


https://www.youtube.com/watch?v=ZMqPlQgHww8

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O BOSQUE DAS ILUSÕES PERDIDAS E A BUSCA DO ÉDEN



Por Kleryston Negreiros

Quem frequenta redes sociais e aprecia discussões políticas deve ter percebido uma postura mais aguerrida em todos os lados do espectro ideológico. São aqueles que defendem – com certo saudosismo ufanista – alguma intervenção militar, alguns que enaltecem um ideal de esquerda anacrônico e fracassado historicamente e há, ainda, os que tentam manter um pouco de sanidade (em ambos os lados, a que admitir) nesse embate. Todos buscando um Éden para chamar de seu e mostrar que é o conhecedor da verdadeira felicidade para os demais. E foi nesses extremos ideológicos que fiquei pensando durante e ao término da leitura do livro O Bosque das Ilusões Perdidas, de Alain Fournier.

O livro é a obra única desse escritor, que morreu no campo de batalha durante a Primeira Grande Guerra – curiosamente num bosque e cercado de mistério, haja vista que seu corpo nunca foi encontrado – e conta a história de Augustin Meaulnes. Narrada por seu amigo, François Seuriel, a trama narra a aventura vivida por Augustin ainda em sua adolescência e que provocou uma busca por toda a sua vida, levando-o a uma existência aflitiva e angústia aos que o cercava.

Durante uma fuga da escola (para buscar os avós de François, filho dos donos da escola local), Meaulnes se perde e vai parar numa misteriosa mansão no meio de um bosque e participa de uma estranha fresta. Nesse lugar é também onde o jovem se apaixona pela bela Yvone deGalais, moça misteriosa que cruza seu caminho durante a mágica aventura. Ao regressar, passa então a buscar obstinadamente o caminho de volta ao bosque e a mansão onde viveu o momento mais feliz de sua vida. Essa busca passa a nortear seus anos fazendo com que se torne mais sombrio. O rapaz acredita que só poderá ser feliz novamente quando encontrar a velha casa e a bela moça por que se apaixonara naquela noite de mistério e magia.

Não pretendo me alongar mais sobre o livro para não estragar a leitura de vocês, mas sim da impressão que essa obra me causou e a que reflexão me levou. A história trata de um jovem que tem como único objetivo retornar a um lugar mágico e idílico onde acredita está sua felicidade. Ele passa a alimentar uma fantasia a partir de suas impressões, formadas, aliás, de poucas informações sobre o lugar, a festa e tudo mais a respeito do ocorrido. É um jovem que se recusa a aceitar o fato de que a vida segue e que a felicidade está em como encaramos a realidade, Meaulnes passa os anos seguintes preso a uma puerilidade, a uma rejeição a um amadurecimento natural por viver obcecado por um sonho.

Por estar preso a uma busca onírica, por querer viver preso a um sonho, quando a realidade o assalta e se depara com o que buscava ao seu alcance, porém, sem a magia de outrora, Augustin acaba por não vivenciar aquilo que acreditava ser sua fonte para ser feliz e foge daquilo que tanto desejava. Ao fugir, leva aos que lhe apreiam também dor e aflição por não entenderem o que poderia ainda faltar ao jovem sonhador.

Foi essa busca por um passado idílico, pelo desejo de retorno a uma possível época mais feliz e mágica do livro que me levou a refletir sobre os atuais embates ideológicos. Em ambos os lados, vejo pessoas que idealizam o passado, buscam o retorno a uma época que consideram melhor e mais feliz, uma época onde tudo era mais perfeito e todos os sonhos eram possíveis. São pessoas que olham para trás com o mesmo sentimento do protagonista do livro. Acreditam que a festa no bosque (tempos passados) foi o ápice de sua felicidade e dedicam suas vidas a retornar a essa mansão onírica onde, acreditam, repousa todo o fim dos infortúnios.

Da mesma forma que ainda há (mesmo com a ascensão da new left) de saudosos de uma época de luta, quando ainda vivíamos o calor da Guerra Fria, quando a esquerda ainda possuía certo charme e a burguesia flertava com ditadores sem abrir mão do conforto capitalista, que ainda tentam implantar uma ditadura do proletariado e ainda tentam levantar discursos de lutas de classe, há também o seu antagonismo mais direto, seu nêmesis, a outra face. São as viúvas da ditadura. Aqueles que clamam por uma intervenção militar, defendem a ideia de que nessa época – uma época mágica, onde o país era grande e tudo beirava a perfeição – o país vivia uma espécie de época áurea, acreditam na sua mansão mágica, no seu bosque perdido.

Ambos ignoram os males de suas ideias, ambos negam as mortes, a supressão das liberdades individuais, ignoram o Estado grande, o atraso em relação às grandes nações, ignoram que, independentemente de quem defenda, uma ditadura é sempre algo abjeto. Em defesa dos seus sonhos, de suas ilusões perdidas, não olham de forma racional, clamam algo a partir de emoções distorcidas por uma busca de felicidade perdida, olham para trás como Meaulnes olhava para a Mansão, para o bosque e para a bela Yvone: como um sonho mágico, alheio ao mundo real.

Foram eles que me vieram ao pensamento. Essas pessoas que clamam por uma ditadura para chamar de sua, que querem – em detrimento de todo avanço (apesar de tudo) que tivemos – viver um passado que não cabe mais, querem viver uma ilusão por acreditarem nessa busca pelo Éden perdido nos anos 1960. É lá que buscam sua felicidade. É lá que acreditam que tudo se perdeu e que deve se voltar para resgatar algo que, acreditam, foi destruído. Ignoram que não é a busca pelo passado mágico que se atinge a plenitude e sim vivendo a realidade como ela é e trabalhando para que um mundo cada vez mais livre venha a tornar-se um mundo real e não apenas mais um Éden. Até a próxima.

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Kleryston Negreiros é professor e administra o blog Professor, Me Indica um Livro? 
Também é membro do grupo Biblioteca Liberal-Conservadora

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

CÂNTICO – O HINO DE LOUVOR AO INDIVÍDUO




Por Kleryston Negreiros

Fui presenteado pelos pais de um aluno essa semana com uma pequena joia da Ayn Rand. Devorei o livro em um dia e aqui estou para falar dessa obra que me impactou bastante e é a primeira que a autora idealizou, ainda em sua adolescência nos primeiros anos do regime socialista na Rússia, e que é um prefácio para o que ela iria defender no decorrer de sua vida e em seus romances mais conhecidos – A Nascente e A Revolta de Atlas.

E o texto é uma joia não pela qualidade da escrita ou rebuscamento do texto, mas pela sua atualidade quase profética acerca de como as pessoas escolhem cada vez mais abrir mão de suas liberdades ou de suas identidades como indivíduos para se tornarem parte de “algo maior”, para vivarem apenas mais uma célula de algum coletivo ou outro termo abstrato da moda.

A narrativa, por ter sido pensada por uma então adolescente, é bem simples e até pueril. Com uma estrutura que (para mim) está mais para um conto do que propriamente um romance, o livro trata de um indivíduo que luta por sua individualidade e a percepção de si mesmo numa sociedade distópica onde o que prevalece é o desejo comum, a vontade da maioria, o mais importante é o todo coletivo e não o desejo individual. Esse jovem luta para ser apenas ele mesmo.

Ambientada num futuro não identificado, a sociedade elimina todos os traços de individualidade, as palavras que carregam esse sentido, por exemplo, foram extintas, não existe EU ou TU, apenas NÓS e ELES. Até mesmo nomes próprios deixam de existir, como pode ser visto desde o início da trama pelos nomes das personagens: o protagonista se chama Igualdade 7-2521.

Igualdade 7-2521 carrega desde cedo o estigma de ser diferente e se perceber diferente numa sociedade que busca igualar a todos. Mais alto que os demais e também mais inteligente, é designado a trabalhar com varredor de rua em detrimento de sua inteligência pois alegam, é assim que ele será mais útil para todos. Só que não é isso que ele quer e por ter uma vontade que é relevante só a ele, Igualdade passa a achar que é amaldiçoado. A trama se desenrola rapidamente desde sua infância até o momento que se torna um proscrito e escolhe viver longe dessa sociedade com a mulher que ama (relacionamentos são proibidos por acarretarem escolhas individuais) e descobre a palavra EU.

Como disse, o texto é bem simplório, mas é um assunto pertinente e que, por trás da simplicidade da escrita, revela algo assustador em nossa sociedade que já era exposto por Rand ainda nos anos 1930 que é a escolha de indivíduos livres preferirem abrir mão de sua liberdade plena, de sua identidade para abraçar ideias ou bandeiras que os anulam como ser e faz com que desejem ser apenas um rosto compondo uma face abstrata ideológica.

Sua atualidade aparece ao percebermos como pessoas passam a lidar com outras através de slogans e reducionismos de características. Quando pessoas, que sarcasticamente chamo de “pessoas do bem” forçam uma conduta coletiva de todos a comerem comida orgânica ou ajudar uma criança faminta na África, quando pessoas te forçam a aceitar aquilo que você (por princípios ou quaisquer que sejam suas razões) acha errado e você passa a ser tido como algum tipo de pária por não seguir o coro dos contentes. São pessoas que passam a medir seus atos não por seus próprios padrões ou juízo de valor, mas porque a sociedade ou a maioria ou o coletivo assim o quer.

E isso é muito perigoso. Perigoso porque a espontaneidade, as escolhas individuais e tudo que é relacionado a uma vontade de apenas um indivíduo passa a ser condenado porque não condiz com o que se espera dele, já que ele faz parte de uma sociedade. É perigoso ao percebermos que tudo, até mesmo a profissão, deve ser pensada e escolhido(a) não porque lhe apetece ou, sei lá, por que você está pensando no próprio lucro e sim pelo bem comum.

É uma sociedade que cobra de cada um a responsabilidade de fazer pelo outro e nunca para si próprio. É um ambiente onde aquele que defende algo é logo interpelado que isso é errado porque não privilegia a todos. É a anulação do esforço, do mérito, do merecimento, o fato de existir já corrobora o direito de ter tudo igual a todos. E se tudo pertence a todos, nada é de ninguém.

Como todos os livros de Ayn Rand, esse também é um alerta. Claro que, sendo distopia, há o exagero típico da ficção, mas a mensagem é clara: não há liberdade ou felicidade dentro de coletivos. Não há prazer ou vida plena quando a vontade individual é anulada para privilegiar a todos, ao grupo, ao coletivo. Tudo parte do indivíduo e sua vontade de ser melhor e proporcionar o melhor para si e assim todos acabam ajudando-se mutuamente por vontade própria. Tudo parte do indivíduo, mesmo essas abstrações que tentam se tornar entidades independentes tendo o homem como célula. O indivíduo é concreto. Sociedade, coletivo, células, grupos, são abstrações que dependem antes de tudo do ser concreto para existir. Até a próxima.

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Kleryston Negreiros é professor e administra o blog Professor, Me Indica um Livro? 

Também é membro do grupo Biblioteca Liberal-Conservadora

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O SENHOR DAS MOSCAS – O QUE HÁ DE MAIS VIL NA CONDIÇÃO HUMANA



Em aulas de Literatura, eu costumo falar de uma linha filosófica iluminista, idealizada por Rousseau, chamada "mito do bom-selvagem". Segundo o filósofo, o homem é naturalmente bom e o que o corrompe é a sociedade, ou seja, em seu estado primitivo ele é puro e livre dos males morais que nos aflige desde que saímos da caverna. Esse pensamento é muito utilizado, por exemplo, por progressistas em geral quando defendem que criminosos agem barbaramente por serem vítimas de uma sociedade opressora e que não lhes dão oportunidades.

Mas, será que realmente somos bons se optarmos por uma vida autóctone e fora da civilização? Será que, sem regras ou freios morais, somos realmente bons, puros e cordiais? Hoje, por acaso, deparei-me com uma notícia que faz essa teoria cair por terra. Quatro meninas, entre 13 e 16 anos, torturam uma outra de 14 anos somente porque esta convidou o ex-namorado de uma delas para sua festa de 15 anos. Foi algo hediondo, dentre as “delicadezas” que fizeram, as meninas arrancaram o aparelho dentário da vítima com uma faca. Foi algo brutal e me levou a pensar até que ponto somos vis, até onde o ser humano é capaz de descer, de perder sua humanidade. E esse questionamento me levou ao livro O Senhor das Moscas, de William Golding.

Escrito em 1954, narra a história de um grupo de crianças entre 6 e 12 anos que naufragam numa ilha (não especificada) e precisam se organizar até chegar algum socorro. Com uma narrativa ágil e sem muitos rodeios, o romance mostra o embate entre a necessidade de manter um traço de civilidade e organização - através da liderança de Ralph - e a formação de uma sociedade livre e nova, mas também violenta - através da liderança de Jack, líder dos caçadores - tendo como mediador e com um pensamento maduro, porém inseguro, Porquinho.

É na dicotomia entre os dois antagonistas, Ralph e Jack, que pode ser percebido o questionamento dessa forma de pensar. O grupo está longe de qualquer civilização, porém tentam, num primeiro instante, um tipo de organização coletiva simbolizada pela concha. Cada um tem a palavra ao segurar o artefato, ele exerce a figura simbólica do poder da palavra. Quando a liderança é dada a Ralph, Jack, tomado de vaidade, se coloca como caçador e começa a questionar até mesmo a autoridade da concha.

Com o avança da narrativa, o caçador e seu comandados começam, cada vez mais, a se afastar de seus traços civilizatórios - no início são apresentados como um coral. A medida que Jack percebe sua liderança crescendo por conta da carne que ele passa a trazer através da caça e a tentativa de Ralph de liderá-los num comportamento disciplinado que, acredita ele, os farão ser resgatados, percebemos como, num meio hostil e sem amarras morais e/ou legais o ser humano pode se tornar tão cruel ou mais cruel que qualquer animal selvagem.

Esse comportamento bestializado dos caçadores pode ser percebido na postura dessas meninas - "No nosso pensamento, nós ia bater nela e ela ia morrer e nós ia enterrar ela” (palavras delas). Numa sociedade cada vez mais complacente com delitos de menores e com um código penal cada vez mais acolhedor a quem comete crimes, pessoas com pouco ou nenhum valor moral sente-se impelido a fazer o que lhe der prazer e se matar for isso, se houver a certeza de que sairá impune, não pensará duas vezes e cometerá os atos mais vis, basta lembrar do caso Champinha.

E quando me refiro a valores morais, refiro no caso dos adolescentes a permissividade legal, mas também a familiar. Cada vez mais mimados e com a ideia de que o mundo gira em torno de seus umbigos, esses proto-delinquentes agem como pequenos tiranos e são capazes de mentir, ferir, agredir e até matar se suas vontades não forem atendidas ou caso sintam-se preteridos. São jovens que não reconhecem qualquer voz de comando e não reconhecem qualquer regra como uma regra de convivência social, agem como Jack, que se vê livre, sem qualquer adulto e passa a fazer o que lhe vem à mente e mata a ser contrariado.

Não estragarei o final, mas vale ressaltar que, diferente do que acreditava Rousseau, o homem não é naturalmente bom. É possível perceber que, quando os caçadores se deixam levar por seus instintos mais íntimos e renegam qualquer traço que um dia os ligou ao mundo convencional, tornam-se assassinos cruéis, capazes de matar sem qualquer remorso ou piedade e chegam ao extremo de incendiar toda uma parte da ilha para matar um dos garotos. Da mesma forma que o sentimento de impunidade faz com que pessoas, independentemente da idade, sejam capazes das atitudes mais cruéis. Bem, essa é a dica de leitura da semana, O Senhor das Moscas, que leva a reflexão do que nos torna humano e o que pode nos desumanizar. Até a próxima.

terça-feira, 26 de julho de 2016

SUBMISSÃO – A DERROTA DOS CRUZADOS MODERNOS

Nos últimos meses, ocorreram uma sucessão de notícias muito parecidas e que vêm causando temor em alguns e incompreensão em analistas de toda ordem no mundo todo: ataques terroristas na Europa promovidos por muçulmanos. Nas últimas semanas, só para ficar nas mais atuais, foram pelo menos três sérios na Alemanha, sem contar os atentados na Bélgica e os acontecidos na França (Charlie Hebdo, Bataclan e Nice). Conservadores mundo afora apontam esses atos como consequência da onda de refugiados que força a entrada no continente, outros mais progressistas tentam vender a ideia de que são radicais, lobos solitários que distorcem o Islã e sem qualquer relação com os moderados. A verdade é que todos estão sem entender o que anda ocorrendo no berço do Ocidente. Todos, menos um, o escritor Michel Houellebecq. Autor do livro Submissão, obra que trata do tema de maneira sui generis, ele conseguiu traçar um painel – cada vez mais real – do que aguarda a França e de quebra o mundo ocidental.

Com um romance distópico, seguindo a escola de Orwell e Huxley, Houellebecq descreve um França em 2022 elegendo o primeiro presidente muçulmano da Europa. Após uma aliança entre o partido islâmico e os partidos socialista (Hollande) e de centro (Sarkosy), a aliança sai vitoriosa em cima do partido de Marine LePen. Carismático e moderado, num primeiro momento, o presidente não interfere na política econômica ou em outros assuntos do país, mas interfere diretamente na educação. Fazendo mudanças sutis, mas relevantes, aos poucos as universidades francesas – representada na obra pela Sorbonne – começam a ditar como será a vida dos franceses a partir desse ponto: mulheres com véus pelos corredores e depois pelas ruas, aumento de postos de trabalho favorecido pela saída das mulheres dessas frentes e ficando em casa e até mesmo a poligamia e pedofilia (o diretor da Universidade casa-se com uma jovem de 15 anos) passam a ser aceitos.

Sendo narrado em primeira pessoa, por François, professor de Literatura na instituição, ele é um homem cético, irônico e descrente com a vida, alguém que vive numa espécie de limbo, a parte da vida social. Através do olhar da personagem, o texto faz uma análise apurada da política francesa, colocando de maneira irônica os caminhos tomados pelos socialdemocratas e apontando o mal que o politicamente correto causa. O tom sarcástico do narrador-personagem serve para expor as escaramuças políticas em que a esquerda e centro-direita francesas colocam o povo e como isso facilita a entrada dos islâmicos na cena política francesa.
Um fato interessante da trama é justamente o tom analítico do protagonista e narrador. Como ele está fora do jogo político e é apenas um cidadão comum que tem sua vida alterada radicalmente por conta das mudanças, ele passa a tentar entender o que aconteceu fazendo com que a narrativa tome um tom memorialista. Voltando cinco anos no tempo (ao ano de 2017) ele remonta os acontecimentos que levaram a essa situação. Por ser alguém que é levado pela maré, François acaba se rendendo ao status quo, converte-se ao islamismo por conveniência e retoma suas atividades como professor acadêmico. Sua apatia e adaptação a essa realidade é uma forma de ilustrar o próprio povo francês com sua indiferença e aceitação com tudo que está acontecendo.

O livro é visionário. Ele traça um panorama que se fosse lançado há três ou quatros anos soaria fantasioso e até ridículo, porém, com o crescimento das comunidades muçulmanas formadas por nascidos em países europeus e que, por conta do volume populacional cada vez maior, começam a impor a sharia nesses locais. Com a chegada de refugiados, aumentando consideravelmente o número de islâmicos e agora com o fortalecimento político deles com a eleição de um muçulmano moderado para a prefeitura de Londres, fica evidente o quanto esse livro é revelador e até profético, mais uma vez tendo uma distopia que, servindo de alerta, acaba sendo usada como um manual. Até mesmo o fato de a esquerda mundial abraçar o mal que pode acabar com Ocidente é mostrado no texto. Vale lembra que, assim como no texto o partido socialista francês apoia o partido muçulmano, o prefeito de Londres foi eleito pelo Partido Trabalhista da Inglaterra, partido esse com o mesmo direcionamento do partido de Hollande ou dos de esquerda no Brasil.


A realidade que se descortina no horizonte e tenebrosa e precisa de uma solução iminente. O mundo como o conhecemos, os valores que por séculos foram defendidos e praticados e que levaram o mundo livre ser o que se tornou, um ambiente de liberdades individuais e progresso, pode deixar de existir e é com a leitura cada vez maior de obras como essa, que apontam de forma direta e sem melindres os problemas e seus causadores da destruição da Europa e por tabela de todo o Ocidente, que vai nos levar a enfrentar um mal assombroso e cruel. Fiquem com Submissão de Michel Houellebecq e até a próxima.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

A DISTOPIA NOSSA DE CADA DIA



Um tipo de narrativa que passei a gostar nos últimos anos foram as distopias. E o que me faz buscá-los é o seu assustador retrato da realidade servindo de alerta (muitas vezes ignorado) sobre os perigos que nos cercam em sociedade. Mas o que são distopias?

Diferentes do mundo perfeito e idílico apresentado na obra A Utopia (Thomas Moore) e referência a algo ideal, as distopias nos apresentam um mundo cruel, totalitário, onde o homem perde sua individualidade e liberdade. Muitas obras, durante o século XX, tornaram-se referenciais nessa seara e quando olho para o que acontece no país – e no mundo em muitos momentos – não consigo deixar de pensar que vivemos aqui no Brasil numa assustadora distopia que abarca o enredo das principais obras do gênero, como se essas fossem não um aviso e sim um manual.

Um primeiro exemplo é o livro 1984, de George Orwell. Ambientado numa Londres no ano de 1984 cujo governo está nas mãos do Grande Irmão, a população vive sob eterna vigilância, num ambiente de total falta de privacidade e liberdade. Toda e qualquer informação é controlada e a verdade é subjetiva, é usada ou criada por interesse dos que detêm o poder. Nesse ambiente, até mesmo as palavras têm seu sentido modificado através da Novilíngua, idioma criado a partir de contradições e supressões de sentidos e expressões para que as pessoas pensem de maneira confusa. Tudo é controlado por essa entidade, O Grande Irmão, e ninguém se dá conta de que é controlado.

Aí, meu provável leitor vai pensar: “qual a relação desse livro com o Brasil? ”. Explico. Ao pensarmos em leis como o Marco Civil da Internet, pensar em como a informação e o sentido das palavras e ideias são deturpados para defender uma ideologia, quando percebemos que estamos nas mãos de uma entidade que deveria nos proteger e legisla contra a população (STF) nos mantendo sob eterno medo e incompreensão, fica claro como vivemos num mundo como 1984. Quando mentiras viram verdades e pessoas subjugadas defendem com afinco os responsáveis por sua miséria – como o pai preso denunciado pelos filhos e mesmo após ser agredido pelos representantes do Estado ainda defende o Grande Irmão – e quando aqueles que tentam mudar esse quadro sombrio são perseguidos, calados e até mortos, fica claro a realidade distópica em que vivemos.

E quanto ao esvaziamento cultural? Pensem na peça dos macaquinhos (aquela em que atores exploram os orifícios alheios em cena), nas músicas cada vez mais pobres, nos programas cada vez mais imbecilizados e afinados com uma agenda política disposta a idiotizar a população no intuito de manter e aprofundar a realidade acima? A cada dia, os que pensam por conta própria, os que buscam conhecimento, são cada vez mais hostilizados, perseguidos. Essa ignorância coletiva planejada, esse entusiasmo em vender livros para colorir, infantilizando adultos, essa produção intelectual que trata adultos como crianças de 12 anos e que faz com que qualquer pensador sério seja um proscrito nos centros acadêmicos está diretamente ligada a outra obra distópica onde o conhecimento é proibido e a ignorância é vista como a verdade maior: Fahrenheit 451.

Na obra de Ray Bradbury, o conhecimento é perseguido. O papel dos bombeiros nessa sociedade é queimar livros. As pessoas vivem em suas casas com telas que levam entretenimento vazio para as pessoas enquanto aqueles que não se conformam com essa realidade, que escondem livros em suas casas, são perseguidos por um Estado totalitário que preza a ignorância do seu povo. Nesse caso, a escravidão do povo – diferente de 1984 – é pelo saber, ou ausência dele. Por desconhecer, o povo é dominado e a máquina estatal usa sua infraestrutura para que continue assim. E essa ignorância, esse entretenimento vazio e deturpação do sentido das coisas, essa distorção de valores morais, leva-nos a outro traço em nossa sociedade que me faz crer que vivemos numa distopia.

Muito foi falado das ocupações escolares em algumas cidades brasileiras. Da mesma forma, fala-se muito de como os mais jovens se tornaram cada vez mais desinteressados e irresponsáveis. Como professor, sou um ferrenho crítico do ECA e de outras leis que protegem jovens indisciplinados ou criminosos. Essas leis criaram uma geração que não respeita a autoridade, não valoriza preceitos morais, ignoram a importância de se adquirir conhecimento. São crianças mimadas criadas por adultos incapazes de puni-los por força de lei.

Essa geração totalmente violenta e desrespeitosa não diferente em nada dos protagonistas de Laranja Mecânica, outra distopia que serve de parâmetro para olharmos o Brasil. No livro, adolescentes enveredam pela delinquência, pais são incapazes de conter seus filhos e as ruas passam a ser dominadas por hordas de garotos arruaceiros que não respeitam nada nem ninguém. Num mundo onde o Estado cria leis que inibem a autonomia dos pais, o protagonista Alex torna-se um marginal violento sendo preso e torturado diante da impotência de seus pais de o educarem. A cada turba de crianças que invadem os ônibus na saída das escolas pichando, gritando, atrapalhando a ordem e depredando patrimônio alheio por puro prazer, fica difícil não lembrar de Alex.

Ainda é possível pensar em mais uma obra ou duas obras. O hedonismo desmedido, por exemplo, a banalização do sexo através de músicas e programas de TV, a busca pelo eterno prazer que leva a uma ditadura da felicidade onde todos devem ser felizes a qualquer preço está no mesmo grau de prisão prazerosa descrita em admirável Mundo Novo. Enquanto nas obras acima mostrarem um mundo opressor, privando o homem de sua liberdade pela opressão estatal ou ignorância mantida pelos que estão no poder, no livro de Huxley, a privação da liberdade é mais perigosa por se travestir de liberdade. Esse mundo libidinoso de eterno prazer embota os sentidos fazendo com que todos pensem que são livres, mas se tornando escravo de seus prazeres e esse estado de coisas mantido de forma deliberada pelo governo.


Até mesmo as obras de ayn Rand (sobre as obras leia nos links: http://meindicaumlivro.blogspot.com.br/2016/07/quem-vai-parar-o-motor-do-mundo-quem-e.html e http://meindicaumlivro.blogspot.com.br/2016/07/a-nascente-e-o-legado-do-homem-ideal.html) possuem um ar de profecia ao olharmos as decisões tomadas pelos 13 anos de governo petista levando a nossa economia ao colapso que nos encontramos hoje. Tanto uma obra quanto a outra mostram como um grupo de formadores de opinião pode ser manipulado para defender uma ideia destrutiva sem que tenha a noção de que estão sendo manipulados (A Nascente) ou como decisões desastrosas podem levar a uma queda profunda de produtividade e dilapidação da riqueza, um estrangulamento daqueles que empreendem levando o país a uma quebradeira generalizada.



Muitos são os exemplos de obras que podem nos fazer entender o nosso mundo, mas as distopias de forma geral servem para abrirmos os olhos para os perigos de certas posturas daqueles que governam e devem ser sempre leituras obrigatórias para aqueles que lutam pelas suas liberdades e por um mundo onde esse tipo de narrativa seja apenas isso: uma narrativa. Até a próxima.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Lendo o Mundo Pelos Livros: The Quest for Cosmic Justice

Livros frequentemente nos fornecem explicações melhores sobre o mundo do que qualquer veículo de mídia. Enquanto os jornalistas se focam apenas nas consequências e acontecimentos superficiais, apenas leituras mais profundas nos permitem entender o que ocorre de fato, pois é neles em que se pode alcançar a raiz das grandes questões de nosso tempo. Estou cada vez mais convencido que aquele que lê livros e nenhuma notícia está mais apto a compreender o mundo do que aquele que lê apenas notícias.

Muito disso pode ser alcançado através dos clássicos. Em outros casos, com livros mais técnicos e detalhados. Em raros casos, apenas um resumo ou resenha de um livro pode nos dar uma explicação melhor sobre a realidade do que encontraríamos em qualquer outro lugar. Um desses livros é The Quest for Cosmic Justice, de Thomas Sowell.

Infelizmente ainda sem versão em português, aproveito para deixar aqui uma tradução de uma resenha escrita pelo próprio autor. O diagnóstico feito pelo autor sobre noções deturpadas de direito e justiça é realmente preocupante, mas estritamente necessário nessa época de assistencialismo, vitimismo e interferência cada vez mais acirrada do governo em nossas vidas. Este breve resumo certamente ajudará a entender muito do caos político moderno gerado através de concepções não apenas diferentes de justiça, mas antagônicas, assim como muitos de seus resultados nefastos.


The Quest for Cosmic Justice (A Jornada por Justiça Cósmica)
Por: Thomas Sowell



Quando você tenta condensar um livro representando anos de pensamentos e pesquisa em uma palestra de meia hora, uma certa quantidade de simplificações são inevitáveis. com isto em mente, deixe-me tentar resumir a mensagem de The Quest for Cosmic Justice em 3 proposições que podem parecer axiomáticas, mas cujas implicações são politicamente controversas.

1. O impossível nunca será alcançado

2. Tentar alcançá-lo é um desperdício de recursos preciosos

3. Os custos e perigos sociais devastadores que se seguem a tentativas de alcançar o impossível devem ser levados em consideração.

Justiça cósmica é um dos sonhos impossíveis que tem um custo muito alto e potencialidades extremamente perigosas.

O que é justiça cósmica e como ela se difere de concepções tradicionais de justiça -- e da forma mais recente e fervorosamente procurada de "justiça social"?

Conceitos tradicionais de justiça ou equidade, pelo menos dentro da tradição americana, se resumem a aplicar as mesmas regras e padrões para todos. É isto que se entende por "igualdade de condições" -- pelo menos dentro desta tradição, ainda que as mesmas palavras signifiquem algo radicalmente diferente dentro do quadro que se autodenomina "justiça social". Palavras como "equidade", "vantagem" e "desvantagem", da mesma forma, possuem significados radicalmente diferentes dentro dos quadros de justiça tradicional e de "justiça social".

John Rawls talvez tenha melhor resumido as diferenças quando ele distingue igualdade de oportunidades "justa" de igualdade de oportunidades meramente "formais". Justiça tradicional, equidade, ou igualdade de oportunidades são meramente formais na visão do Professor Rawls e na visão de seus vários seguidores e camaradas. Para aqueles com esta visão, "igualdade de oportunidades genuína" não podem sem alcançadas ao aplicar as mesmas regras e padrões para todos, mas requer intervenções específicas para equalizar ou as perspectivas ou os resultados. Como Rawls coloca, "desigualdades não desejadas pedem por reparação".

Uma luta na qual ambos os boxeadores seguem as regras do Marquês de Queensberry seria uma luta justa de acordo com padrões tradicionais de justiça, independente dos competidores terem ou não a mesma habilidade, força, experiência ou outros fatores que possam afetar o resultado -- e independentemente do resultado ser um empate acirrado ou uma surra unilateral.

Entretanto, isto não seria uma luta justa dentro dos padrões daqueles que buscam "justiça social" se os lutadores entrassem no ringue com perspectivas muito diferentes de sucesso -- especialmente se essas diferenças fossem devido a fatores além do seu controle.

Presumivelmente, a ampla gama de desigualdades encontradas em qualquer lugar são uma falha da "sociedade" e a reparação dessas desigualdades é chamada justiça social, indo além da justiça tradicional de aplicar a cada indivíduo as mesmas regras e padrões. Entretanto, mesmo aqueles que argumentam desta maneira reconhecem que algumas desigualdades não desejáveis podem surgir de diferenças culturais, genes familiares ou confluências históricas de eventos fora do controle de qualquer indivíduo ou sociedade. Por exemplo, não há a menor chance que Pee Wee Reese fosse conseguir tantos "home runs" como Mark McGwire, ou que Shirley Temple corresse tão rápido quanto Jesse Owens. Não haveria a menor chance de que os escandinavos ou polinésios soubessem tanto sobre camelos como os beduínos do Saara -- e nenhuma chance de que os beduínos fossem saber tanto sobre pesca quanto os escandinavos ou polinésios.

Em um sentido, defensores da "justiça social" são extremamente modestos. O que eles estão querendo corrigir não é meramente as deficiências da sociedade, mas do cosmos. O que eles chamam de justiça social abrange muito mais do que qualquer sociedade é causalmente responsável. Paladinos da justiça social buscam corrigir não apenas os pecados do homem, mas também os desígnios de Deus ou os acidentes da história. O que eles estão realmente buscando é um universo feito sob medida para sua visão de igualdade. Eles estão buscando justiça cósmica.

Esta perspectiva de justiça pode ser encontrada em uma grande variedade de atividades e lugares, desde o ativista da comunidade da esquina até as câmaras da Suprema Corte. Por exemplo, uma ex-reitora de admissões na Universidade de Stanford disse que ela nunca exigiu que os requerentes enviassem os resultados dos Testes de Desempenho porque "exigir tais testes poderia injustamente penalizar estudantes em desvantagem no processo de admissão" porque "não é culpa deles que eles frequentemente se encontrem em colegiais que forneciam preparação inadequada para os Testes de Desempenho". Não é culpa deles -- uma das frases recorrentes neste tipo de argumento -- parece implicar que a culpa é da "sociedade", mas os remédios são buscados independente de qualquer evidência empírica de que seja.

Deixe-me ilustrar alguns dos problemas com este tipo de abordagem com um exemplo pessoal. Onde quer que seja que eu ouça discussões sobre igualdade na educação, minha resposta automática é: "Graças a Deus que meus professores não foram justos quando eu era criança crescendo em Harlem". Umas dessas professoras era uma mulher chamada Dona Simon, que era o que poderia ser chamado de General Patton da educação. Cada palavra em sala que continha erros ortográficos tinha que ser escrita 50 vezes -- não na sala, mas na tarefa de casa para a manhã seguinte, em adição a toda a carga de dever de casa que ela e os outros professores passavam. Erre a ortografia de 4 ou 5 palavras e você teria uma noite longa pela frente.

Isto era justo? Claro que não. Como muitas crianças em Harlem naquela época, eu vinha de uma família onde ninguém havia sido educado para além da escola primária. Não podíamos comprar livros ou revistas como as crianças nas escolas de bairros mais afluentes, então era bem menos provável que estivéssemos familiarizados com estas palavras que tínhamos que escrever 50 vezes.

Mas justiça no sentido cósmico nunca era uma opção. Como notado no início, o impossível nunca será alcançado. Nenhuma ação ao alcance das escolas faria as coisas justas neste sentido. Teria sido uma autoindulgência irresponsável se eles fingissem que estão fazendo justiça. Muito pior que injustiça é justiça de faz de conta. Ao invés disso, eles nos forçavam a alcançar padrões que eram mais difíceis para nós -- mas muito mais necessários, uma vez que estes eram nossa principal rota de escape da pobreza.

Muitos anos depois, eu por acaso encontrei um dos meus colegas de escola nas ruas de São Francisco. Ele já era um psiquiatra e possuía uma casa e propriedades no vale de Napa. Conforme nos lembrávamos do passado e comentávamos sobre o que tinha acontecido, ele mencionou que várias de suas secretárias comentaram o fato de que ele raramente errava a grafia de alguma palavra. Minhas secretárias fizeram o mesmo comentário -- mas, se elas tivessem conhecido Dona Simon, não seria mistério.

Também aconteceu de que eu abandonei a escola no Ensino Médio. Mas o que me fora ensinado antes foi suficiente para que eu conseguisse notas maiores no teste verbal do SAT [uma espécie de vestibular americano] do que o estudante médio de Harvard. Isto também pode ter tido algo a ver com minha admissão em Harvard em uma época anterior à concepção da ideia das "ações afirmativas".

E se nossos professores tivessem sido imbuídos com o conceito presente de "justiça"? Claramente não teríamos sido testados com os mesmos testes e submetidos aos mesmos padrões que as crianças dos bairros mais ricos, cujos pais tinham pelo menos o dobro de anos de escolarização que os nossos e com salários provavelmente duas vezes maiores. E onde meu colega e eu estaríamos hoje? Talvez em uma casa de recuperação, se tivéssemos sorte.

E isto não teria sido uma injustiça -- pegar indivíduos capazes de se tornarem homens e mulheres independentes e autossuficientes, com orgulho de suas realizações, e transformá-los em dependentes, clientes, suplicantes, mascotes? Atualmente, o Serviço de Teste Educacional está adotando estudantes de minorias como mascotes ao transformar os exames do SAT em instrumentos normalizados por raça para driblar o número crescente de proibições contra preferências de grupo. O propósito primário dos mascotes é simbolizar algo que faz os outros se sentirem bem. O bem-estar do mascote raramente é uma consideração maior.

O argumento aqui não é contra justiça ou igualdade reais. Ambas estas coisas são desejáveis por si mesmas, assim como a imortalidade pode ser considerada desejável por si mesma. Os únicos argumentos contra qualquer uma destas coisas é que são impossíveis -- e os custos de se buscar sonhos impossíveis não são negligíveis.

Políticas sociais contraprodutivas são apenas um dos muitos custos da jornada pela justiça cósmica. O Império da Lei, do qual uma sociedade livre depende, é inerentemente incompatível com justiça cósmica. Leis existem em todos os tipos de sociedades, das mais livres às mais totalitárias. Mas o império da lei -- um governo feito de leis e não de homens, como costuma ser chamado -- é raro e vulnerável. Você não pode reparar as incontáveis desigualdades que permeiam a vida humana ao aplicar as mesmas regras para todos ou aplicando qualquer regra além de dispensas arbitrárias daqueles no poder. O capítulo final de The Quest for Cosmic Justice está intitulado "The Quiet Repeal of The American Revolution" (A Silenciosa Anulação da Revolução Americana) -- porque é o que está acontecendo pouco a pouco através dos fanáticos devotados a suas visões particulares de justiça cósmica.

Eles não estão tentando destruir o império da lei. Eles não estão tentando minar a república americana. Eles estão simplesmente tentando criar "igualdade de gênero", instituições que "parecem com a América" ou milhares de outros objetivos que são incompatíveis com o império da lei, mas corolários da justiça cósmica.

Uma vez que o cidadão americano comum ainda não abandonou a justiça tradicional, aqueles que buscam justiça cósmica necessitam tentar justificá-la politicamente como se estivessem atendendo a conceitos tradicionais de justiça. Um fracasso em alcançar esta nova visão de justiça deve ser representada ao público e aos tribunais como "discriminação". Testes que registram as inumeráveis desigualdades devem ser representados como sendo a causa destas desigualdades ou como esforços deliberados para perpetuar estas desigualdades ao erigir barreiras arbitrárias aos avanços dos menos afortunados.

Resumindo, para promover a justiça cósmica, eles devem falsear o que está acontecendo como se fossem violações da justiça tradicional -- como entendida por outros que não compartilham de sua visão. Aqueles que fazem tais alegações não necessariamente precisam acreditar nelas. Como Joseph Schumpeter uma vez disse: "A primeira coisa que um homem fará por seus ideais é mentir".

A próxima coisa que o idealista fará é assassinato de reputações. Todos aqueles que discordam com a grande visão devem ser mostrados como gente com intenções malignas ou falhas incorrigíveis de caráter. Suas visões devem ser tratadas como uma "justiça estranha" se eles sobreviverem a esse assassinato de alguma maneira. Devem ser retratados como possuindo alguma "obsessão" pessoal se eles seguirem à risca os deveres que eles juraram cumprir como promotores especiais. Em resumo, demonização é um dos custos da jornada pela justiça cósmica.

As vítimas deste processo não estão limitadas a estes alvos. A sociedade como um todo perde quando suas decisões são feitas através de assassinato de reputações ao invés de discussões racionais e quando o conjunto de pessoas elegíveis para liderança é reduzido através do êxodo daqueles que não estão preparados para sacrificar sua reputação ou sujeitar suas famílias a humilhações pelo bem de alcançar as alavancas do poder. Esta perda não é meramente quantitativa, uma que aqueles que estão dispostos a suportar qualquer humilhação pessoal ou familiar pelo poder são as pessoas mais perigosas a quem se confiar o poder.

Até certo ponto, aqueles apanhados pela visão da justiça cósmica também estão entre suas vítimas. Tendo se comprometido a uma visão e demonizando todos os opositores, como eles irão olhar ao seu redor e sujeitar esta visão ao escrutínio empírico, menos ainda repudiá-la conforme surgirem evidências de seus resultados contraprodutivos?

Ironicamente, a jornada por maior igualdade social e econômica é promovida através de uma desigualdade muito maior de poder político. Se as regras não podem produzir justiça cósmica, sobre apenas o poder bruto como uma maneira de produzir os tipos de resultados sendo buscados. Em uma democracia, onde o poder deve ganhar aquiescência pública, não apenas o império da lei deve ser violado ou burlado, mas também o império da verdade. Por mais nobre que seja a visão de justiça cósmica, poder arbitrário e mentiras descaradas são os únicos caminhos que ainda parecem levar em sua direção. Como dito no começo, os custos e perigos sociais devastantes que se seguem a essas tentativas de alcançar o impossível deveriam ser levados em consideração.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

LARANJA MECÂNICA - O QUE O ECA NOS RESERVA


Hoje vi uma postagem de uma briga entre duas adolescentes numa sala de aula. O que me espantou nao foi a luta ou a omissão dos presentes, mas sim sua frequente normalidade e me lembrei de um texto que escrevi sobre a atualidade do livro Laranja Mecânica e esses fatos. Esse texto é de 2014 e esta cada dia mais próxima a realidade da obra. Leiam a resenha e tirem suas conclusões.

Num domingo desses, li uma notícia que me chamou a atenção sobre formaturas de alunos do ensino médio. Falava sobre o excesso de bebidas nessas festas e a total inércia dos pais. Antes disso, já havia acompanhado o caso dos “rolezinhos” e sempre procuro acompanhar casos de brigas e atos violentos cometidos por essas crianças. O que parece ser uma novidade, aqui nestas paragens e também lá fora, na verdade já havia sido contado de forma explícita e visionária na obra Laranja Mecânica, e esse é o livro da semana, abrindo uma série de Best-Sellers que viraram clássicos na literatura e no cinema.
Uma das razões de eu ser um apreciador de distopias é o fato desse tipo de obra antecipar acontecimentos com margem de anos de diferença, porém não como profecias, mas como uma descrença no ser-humano, seus autores baseiam-se no pior da humanidade e na consequência de seus atos, esse é o caso da obra de Anthony Burgess.
Lançado no início dos anos de 1960, o livro conta (em primeira pessoa) a história de Alex, garoto de 14 anos e líder de um grupo de adolescentes arruaceiros nuns EUA distópico onde garotos dominam as ruas ao cair da noite praticando roubos, espancamentos e estupros. Ele narra suas andanças noturnas regadas a leite com drogas, até ser traído por seus comparsas e preso virando cobaia num programa de conversão de marginais.
Há dois pontos a observar na obra. O primeiro deles é a antecipação do comportamento hedonista, agressivo e ditatorial desses meninos filhos de pais permissivos que não conseguem impor limites a esses jovens. Quem pensou nos rapazes que queimaram o índio em Brasília, há anos, ou os jovens que foram para shopping centers fazer arruaça assustando clientes e sendo justificados por seus pais, não está equivocado. Os personagens parecem saídos dos jornais atuais: violentos, vaidosos, sem qualquer noção de limites ou valores.
O segundo ponto também tem relação com os novos tempos. Quando vai preso, Alex é usado como cobaia em um experimento do governo que promete acabar com o instinto mal e violento dos criminosos. Submetido a tortura e infusão de drogas em seu sangue, o rapaz passa a sentir-se mal diante de atos violentos ou libidinosos. Ele passa a não ter opção entre agir correta ou incorretamente, ele é obrigado a ser bom para não sentir dor. A questão moral da escolha, do livre-arbítrio é levantada pelo fato de que a recuperação passa não pela percepção do erro e escolha em agir diferente e sim pela obrigação de ser bom.
O que isso tem a ver com nossos tempos? Muito simples, caro leitor. A cada gesto de altruísmo midiático, a cada exposição da própria felicidade, a cada comentário superficialmente profundo em redes sociais, obriga a todos nós a sermos também bons, generosos, altruístas e felizes. Não há escolha. Todos são bons, cultos e têm vidas perfeitas. Há uma ditadura da felicidade, um bom mocismo que impõe frases de efeito e clichês que todos seguem sem questionar ou refletir. A mesma obrigação de Alex em ser bom, aparece nas hastags diárias de campanhas benevolentes criadas por agências publicitárias.
Alex se recupera. Todos nós podemos também salvar nossas crianças desse futuro sombrio que aparece na obra. As distopias servem para mostrar o quanto podemos ser ruins para nós mesmos. Quando saímos da bolha, quando não nos deixamos levar por essas imposições conseguimos escolher e educar e isso é que importa no fim: o poder da escolha e a melhor escolha que não prejudique ninguém.


"Se a prudência da reserva e decoro indica o silenciar em algumas circunstâncias, em outras, uma prudência de uma ordem maior pode justificar a atitude de dizer o que pensamos." - (Edmund Burke)