Millor Fernandes:


Jornalismo, por princípio, é oposição – oposição a tudo, inclusive à oposição. Ninguém deve ficar acima de qualquer suspeita; para o jornalista, não existem santos.

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quinta-feira, 23 de maio de 2019

Game of Thrones: Porque muitos não gostaram do Final? Parte 1 A Teoria dos Jogos em Game of Thrones.


Game of Thrones, Teoria de Jogos e desconhecimento básico de política. Porque muitos não gostaram do Final? 

Parte 1 A Teoria dos Jogos em Game of Thrones.

A insatisfação de boa parcela dos fãs de GOT revela uma verdade muita clara se trouxermos para nossa realidade cotidiana de como as pessoas desconhecem o básico sobre política.

Game of Thrones apesar dos zumbis de gelo, lobos gigantes e dragões sempre foi um ensaio sobre teoria dos jogos e política numa roupagem fantástica medieval. A Teoria dos jogos pretende estudar os passos estratégicos de um individuo quando o resultado depende das escolhas e movimentos de terceiros. Sejam adversários, concorrentes ou mesmo amigos, amantes e familiares.
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Contém SPOILERS diversos de toda a série.
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A historia logo de cara nos apresenta o Rei Robert Baratheon, o mais velho da casa Baratheon, o rei bêbado e incompetente sem aspirações políticas que só chegou ao trono após uma revolta por um coração partido ao ter sua paixão e noiva Lyanna Stark, da nobre família Stark do norte também conhecido como Winterfel, um dos 7 reinos/estados que constituem o reino de 'Westeros' roubada por Rheagar Targaryen, a família real de Westeros, herdeiro do trono de ferro. Após destruir a casa Targaryen e depo-los do trono, torna-se rei e faz alianças com a Casa Lannister - mais rica do reino a quem Robert vivia pedindo empréstimos, o que aumentava cada vez mais o poder dos Lannisters sobre seu reinado - casa-se com uma mulher ambiciosa e sem escrúpulos - Cersei Lannister, que sempre almejou o poder, ser rainha mas tinha como grande calcanhar de Aquiles ser amante do próprio irmão Jayme. A descoberta desse romance incestuoso pela "mão" do Rei é o que dá inicio a toda trama política.

Do outro lado do oceano e longe dos 7 reinos unificados temos a jovem Daenerys Targaryen, sobrevivente do massacre de sua casa criada em exílio em outro continente com seu irmão - Lembrando que Robert sabendo da existência de uma Targaryen ainda viva postulando ao seu trono e querendo vingança pela destruição de sua família, tentou mata-la algumas vezes - É provável que sua trajetória até antes de cruzar o mar fosse a mesma independente de Robert ser morto pela própria esposa, querendo usar seu filho como um avatar de rei enquanto ela joga os dados. E todo o desenrolar do jogo em Westeros.

Da outra ponta de Westeros temos os Starks, enfurecidos com a morte de seu pai Ned Stark, melhor amigo de Robert e convidado pelo mesmo para ser sua nova "mão", após esse também descobrir o adultério incestuoso da Rainha e que seus três filhos herdeiros do trono na verdade são todos bastardos filhos de seu irmão, portanto, ilegítimos.

Passam se 6 temporadas. Chegamos a oitava e última temporada com três personagens centrais postulando ao trono. Duas querem a coroa um, o único legítimo herdeiro ao trono, não.

Temos Cercei Lannister, odiada mas temida a típica tirana sem escrúpulos capaz de usar o próprio povo como escudo sem se importar com as consequências somente para manter o poder.

Jon Snow, o "herói" da trama filho legitimo de Rheagar Targaryen e Lyanna Stark e verdadeiro herdeiro do trono, criado como bastardo de Ned Stark que prometeu a sua irmã protege-lo da fúria de Robert Baratheon; porém, este total desapegado do poder e demonstrando ao longo da serie que seria outro rei incompetente (justo, porém sem tino para a política). Muito mais um herói preocupado somente em salvar as pessoas e símbolo capaz de unificar pessoas do que um governante e jogador.

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 E temos Daenerys Targaryen com desejo de poder e vingança com um exercito numeroso e a maior arma de guerra apresentada na serie: Dragões. Porém, adotando um discurso libertador do povo mesclado a um direito quase divino ao trono. A "Nascida na tormenta", "a não queimada", "quebradora de correntes" em vários pontos da série demonstrou ser a personificação de um déspota esclarecido. E após chegar a Westeros se apaixonar por Jon Snow, herói de guerra e querido por nortenhos e selvagens, e após perceber que estava isolada e perdendo seus leais amigos, vendo a legitimidade ao trono ir literalmente, pro saco apos Jon "sabe de nada, inocente" Snow ter lhe contado a verdade sobre sua recém descoberta origem e rejeitada pelo amado percebeu o óbvio, para um ditador prepotente e egocêntrico. Nunca seria amada pelo povo que desejava dominar. Nem mesmo com todo seu discurso libertador da opressão dos mestres. E para ser respeitada teria que ser temida. E literalmente dizima toda a população de Porto Real, inclusive mulheres e crianças, com seu dragão, Drogon. Terminou morta por Jon após esse finalmente entender que sua rainha era uma genocida com um discurso bonitinho. E que ela faria o mesmo com seu povo e família no Norte.

Daenerys poderia perfeitamente assumir a real identidade de Snow, casar se com ele (algo normal entre os Targaryen) e ela reinar absoluta o usando como avatar. Coisa que Cersei fez com seus dois filhos. A arrogância de Daenerys foi seu fim. Por arrogância, prepotência e, talvez loucura; preferiu tomar o poder pelo medo.

Ao matar Daenerys Jon se tornou um pária. E torna-lo rei ou mesmo liberta-lo criaria outra guerra, talvez ainda mais sangrenta em Westeros.

Nenhum dos três poderia ganhar o jogo. Essa era a realidade. Todos tinham seus calcanhares de Aquiles e em algum momento do jogo cometeram erros crassos ou foram levados a loucura. O desenrolar dos fatos e das decisões erradas levaram a esse fim.

Não à toa o dragão "Drogon", numa perfeita metáfora entende o que ninguém mais tinha entendido. O inimigo, o alvo de disputa era o trono de ferro, símbolo de todas aquelas tragédias que culminou na morte de sua dona, ou mãe; e ele o destrói derretendo-o com suas chamas.
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No final, escolher Bran Stark, o "Corvo de três olhos" para rei foi a decisão mais sábia, muito embora possam dizer que Bran manipulou todas as peças do jogo, um detalhe me faz crer que não. Apesar de quase onisciente, Brandon não sabia que Jon Snow era filho legítimo de Rheagar e Lyanna e real herdeiro. Isso na minha opinião invalida a teoria de que o corvo foi o maior jogador da série; Ignorando essa tese, pra mim, quem melhor jogou o jogo foi Sansa Stark que aprendeu bem com Baelish ("Mindinho", um dos melhores jogadores da trama) e com Cersei - seus "mentores" - e terminou coroada a "Rainha do norte", dizendo na cara de todos que o norte não se ajoelharia a Kings Landing nem mesmo para um Stark.


Assim Ned Stark, o pai morto na primeira temporada, viu dois filhos terminarem reis. E um sobrinho heroi virar "lider comunitário" dos selvagens. O "Rei além da muralha" num prêmio de consolação com cara de final feliz pra quem nunca quis ser rei.
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Fim dos spoilers
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Isso é teoria dos jogos. A maioria das pessoas desconhece esse ramo da ciência e matemática. Assim como desconhecem politica e fazem as escolhas dos seus eleitos pelos motivos mais passionais, irracionais e as vezes mais canalhas possíveis.

Mas isso é outro assunto. E merece um post a parte só pra ele.

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  Era melhor ter deixado ele ganhar...

terça-feira, 21 de maio de 2019

THANOS, O VILÃO DO BAIXO LEBLON



Thanos é o vilão do momento. A essa altura do sucesso do filme Vingadores e de todo o rebuliço nos últimos anos com os filmes da Marvel Studios, ele não só não precisa de apresentações, como (acho que posso dizer sem medo de errar por excesso) entrou para o hall dos maiores vilões do cinema. Está entre os maiores porque, de certa forma, ele é mais real do que pensamos, vejamos por quê.
O que o move é o seu desejo de equilibrar o universo. Thanos considera que as criaturas que vivem nos mundos habitados (estamos falando de uma narrativa criada para os quadrinhos, não esqueçamos) destroem seus recursos, povoam de forma desordenada levando até ao próprio extermínio, ele acredita que todo o universo vai deixar de existir se algo não for feito. E ele faz. Reúne as Joias do Infinito e com elas reequilibra as coisas dizimando metade de todos os seres do universo, pois acredita que, reduzindo as populações pela metade, a que sobrar ficará grata por ter mais terras e possibilidades de sobrevivência. Ele se vê como alguém inevitável e acredita que está fazendo o bem.
O problema é que ele desconsidera alguns fatores relevantes para pôr seu plano utópico em prática: a resistência desses povos para preservar os seus, o desejo de lutar para desfazer tudo e trazer de volta quem perderam e ainda, desconsidera as condições populacionais que permitiram a esses mundos evoluírem. Sua visão malthusiana faz com que ele não perceba que com metade das populações, perde-se também metade da força produtiva, metade da mão-de-obra e metade dos consumidores, isso gera escassez, carestia e uma vida muito pior do que antes e os sobreviventes lutarão para restaurar o que tinham porque, por pior que pudesse parecer, era o seu mundo.
Não satisfeito com a rebelião, por achar que foram ingratos, que a lembrança do mundo como era faz com que não aceitem o futuro maravilhoso e perfeito que os aguardam, Thanos toma a decisão drástica de destruir todos e então criar novos habitantes para esses mundos, criar os povos ideais, que não possuem quaisquer lembranças do mundo anterior e que serão gratos pelo porvir nessa realidade idílica, a materialização do Éden. No fundo, ele não é mal, ele só quer equilibrar a realidade e finalizado seu projeto – não importando quantos morrerão para que esse equilíbrio chegue – irá para o seu jardim, cuidar de sua vida, sua horta e viver em paz.
Olhando assim, parece coisa de quadrinhos, esse vilão que tem o plano perfeito, mas que destruirá tudo e todos, que precisa ser detido e todos torcemos para que os heróis vençam esse mal absoluto, todos queremos que no fim, seu projeto de poder falhe, ninguém em sã consciência apoiaria um ser assim. Ninguém fica ao lado do vilão. Não fica?
Fica. O desejo de Thanos, a reengenharia social, o alarmismo como justificativa à criação da sociedade perfeita amparando o Homem Ideal, o Homem do Futuro, não é um discurso inventado, muito pelo contrário, ele foi largamente (e ainda é) aplicado desde o início do Século XX, sempre promovido por líderes abnegados que lutavam por uma causa nobre e em nome desse futuro glorioso e utópico. Esse plano de Thanos já foi chamado de vários nomes: Revolução Bolchevique, Nazismo, Fascismo, Revolução Cultural, Revolução Cubana, mais recentemente, Bolivarianismo e Thanos já teve diversos nomes também: Lênin, Trotsky, Hitler, Mussolini, Mao, Fidel e mais recentemente, Maduro.
E o mais assustador disso tudo é que diferentemente do que esperaríamos que fosse o comportamento das pessoas diante de uma personagem assim, muitas apoiam os Thanos da vida real. Os mesmos que aplaudem o Capitão América quando este grita “Vingadores, avante” para derrotar o grande vilão, esse símbolo do mal no mundo (ou nos mundos), são os mesmos que apoiam os tiranos reais, são os mesmos que, a despeito de todas as mortes e genocídios promovidos por esses déspotas, ainda há aqueles que bradam com orgulho seus ideais e ainda sonham com o grande líder cor violeta que irá dizimar todos os que impedem que o futuro glorioso chegue. Os mesmos que aplaudem os Vingadores, lutam para colocar no poder um Thanos para chamar de seu e que provavelmente emergirá nas hortinhas orgânicas ou bares de cerveja artesanal da Vila Madalena ou do Baixo Leblon, com sua pele arroxeada e um coque samurai.

"Se a prudência da reserva e decoro indica o silenciar em algumas circunstâncias, em outras, uma prudência de uma ordem maior pode justificar a atitude de dizer o que pensamos." - (Edmund Burke)