Millor Fernandes:


Jornalismo, por princípio, é oposição – oposição a tudo, inclusive à oposição. Ninguém deve ficar acima de qualquer suspeita; para o jornalista, não existem santos.

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quarta-feira, 3 de junho de 2020

ALUNOS COM SENSO CRÍTICO OU O TERRAPLANISMO DA EDUCAÇÃO

Por: Kleryston Negreiros

Para você, caro leitor deste blog, qual é o papel da educação? Se você perguntar a qualquer pessoa minimamente sensata, ela responderá que é transmitir conhecimento. Esse sempre foi o seu papel, desde a Academia de Platão e desde que Alexandre, O Grande, era aluno de Aristóteles. Mas, se você perguntar a qualquer profissional da área de ensino – sejam esses professores ou pedagogos – ele dirá sem medo de errar e com peito inflado de orgulho que o papel da educação é formar cidadãos autônomos e com senso crítico. Aí, pergunto a você, leitor deste humilde escriba: o que é alguém autônomo com senso crítico? Vejamos...

Para que alguém seja considerado autônomo é necessário que essa pessoa seja capaz de cuidar de si, tomar decisões e ser responsável por suas ações sem que precise da intervenção de outros indivíduos. Essa pessoa será capaz de interagir com seus iguais, terá condições de aprender e aplicar novas habilidades no decorrer da vida. Esse indivíduo será capaz de decidir e avaliar as consequências de suas ações e terá condições de compreender o mundo a sua volta.

Já o que se pode chamar de alguém com senso crítico é o indivíduo que tem a capacidade de avaliar os argumentos favoráveis e contrários de determinado assunto e refletir sobre os mesmos. É ter um filtro que lhe permita avaliar os acontecimentos a sua volta, as ideias e preceitos dos mais variados temas que interferem na sociedade e ser capaz de discernir sobre o que é certo ou errado, o que é cabível de defesa ou repúdio, enfim, ele é capaz de fazer uma leitura dos fatos, olhar todos os seus ângulos e decidir por si mesmo que posicionamento tomar.

Ambas as habilidades são louváveis e importantes para se viver em sociedade – não discordo disso – e realmente, preparar a pessoa para essa autonomia cognitiva deve ser o resultado final do processo educacional. Porém, o modo como se chega a isso atualmente é de se questionar e qualquer um com a mínima noção de realidade consegue ver que, ao colocar o foco nessas habilidades, isto é, privilegiar o resultado final em detrimento do que leva a esse domínio, está tendo um resultado oposto ao que se almeja. Explicarei por quê.

Como professor de língua portuguesa, sempre começo minhas aulas perguntando aos meus alunos qual foi a maior invenção da Humanidade, aquela que permitiu todos os avanços que nos trouxe até aqui. Faço essa brincadeira para mostrar a importância da invenção da escrita e sua evolução, da escrita logográfica até a escrita alfabética. E por que estou falando disso? Porque é justamente nesse ponto que há o equívoco que quero mostrar. Até bem pouco tempo, acreditava-se que foi o cérebro humano que se adaptou à escrita dada a sua plasticidade, entretanto, estudos recentes da neurociência – no intuito de entender como se dá o processo de aprendizado da leitura no cérebro – comprovou que foi o contrário: foi a escrita que evoluiu da forma logográfica para a fonêmica para se adaptar ao nosso cérebro, já que ele apresenta limitações biológicas para sua plasticidade.

Portanto, como toda invenção humana, o nosso cérebro se adapta para dominar a sua técnica. Diferentemente da língua falada, que é inata, a língua escrita precisa ser aprendida de forma sistemática e progressiva para que seja dominada. E essa progressividade deve ser do mais fácil para a mais difícil e treinada repetida e exaustivamente para que as funções mais simples do processo sejam armazenadas na memória de longo prazo e automatize sua ação, para que, assim, a memória de trabalho possa se dedicar a assimilar as técnicas mais complexas e entrar num ciclo contínuo que se auto alimenta.

E segue essa dinâmica porque o reconhecimento das palavras passa diretamente pela parte do cérebro que reconhece as imagens e objetos. Significa, então, que quando estamos lendo, o nosso cérebro pega cada palavra, decodifica em pequenas partes (grafema/fonema, sílabas, morfemas, palavras) e a seguir, ao reconstruir a imagem da mesma, associa à sua imagem sonora, pronúncia e, por fim, chega ao significado. Todo esse processo durando menos de 1 segundo.

Quando se dá, portanto, a alfabetização, o que acontece é que o nosso cérebro passa por um processo de adaptação e reorganização neuronal que automatiza todo essa dinâmica nos permitindo dominar a leitura/escrita (esse processo todo é mais complexo, então fiquemos com seu resumo) assimilando progressivamente toda a estrutura lexical, gramatical, sintática e semântica do idioma. Portanto, o aprendizado da leitura/escrita deve invariavelmente seguir um processo fonêmico e ir das menores para as maiores unidades. É o princípio do aprender a ler para depois ler para aprender.

A importância de se seguir esse caminho é o fato de que quanto mais dominarmos essa habilidade, melhores leitores seremos e quanto mais fluentes formos na prática leitora, mais aprenderemos sobre os mais diversos assuntos, ou seja, para nos tornarmos autônomos e com senso crítico, invariavelmente, devemos ser alfabetizados da forma tradicional, devemos passar por um processo educacional que preza pela transmissão de conhecimento prévio para que posteriormente esse conhecimento se sedimente na memória de longo prazo alicerçando a aquisição de novas informações. É, pois, o ensino tradicional que permite que sejamos aquilo que tanto almeja os profissionais de ensino no país.

Mas, ao contrário do que a ciência diz, nosso sistema educacional despreza o ensino tradicional. Com o argumento de que essa forma de lecionar é mecanicista, que tira a autonomia do aluno, que o torna passivo no seu aprendizado, essa “educação bancária” (usando um termo de Paulo Freire, nossa maior vaca sagrada educacional) foi demonizada, os educadores brasileiros preferiram, nos últimos 40 anos pelo menos, adotar teorias pseudocientíficas da moda, preferiram abraçar preceitos das ciências sociais que não possuem qualquer comprovação de eficácia – ao contrário disso, países como Finlândia, Grã Bretanha, EUA, dentre outros abandonaram e abraçaram a volta do ensino tradicional – teorias essas que carregam mais viés político-ideológico que propriamente educacional e que estão nas diretrizes basilares do Ministério da Educação.

Enquanto os países no topo dos rankings educacionais reviram essas teorias e abraçaram a neurociência para entender como se dá o processo de aprendizagem no cérebro humano, enquanto países como Cingapura, Coreia do Sul ou Finlândia (para ficar nos que estão entre os melhores) adotam o modelo tradicional de ensino, o que se vê no Brasil é uma academia que se mantém parada nos anos 1960. O que temos é um sistema de ensino pautado exclusivamente por teorias como o sociointeracionismo ou o construtivismo e abraçando nomes já refutados como Piaget, Vygotsky, Foucault, Bakhtin e até mesmo o tão laureado Paulo Freire. Esse último, aliás, dito como grandemente citado ou reconhecido lá fora, na verdade é citado e reconhecido apenas como uma fraude e nunca tendo sido aplicadas suas teorias (que na verdade nem são realmente suas, mas isso é assunto para outro texto) em larga escala em outros países.

Portanto, a grande ironia disso tudo é que esse ensino progressista, abraçando causa ideológicas e levando essas causas para dentro da sala de aula com a intenção de formar pensadores críticos e cidadãos autônomos (mas fazendo isso desprezando o ensino tradicional), criou nas últimas décadas uma imensidão de analfabetos funcionais incapazes de compreender conceitos ou comandos simples, incapazes de avaliar qualquer situação cotidiana mais complexa, um exército de pessoas que mal conseguem ler um simples artigo como esse. Ao tentar formar pessoas críticas, criaram zumbis incapazes de pensarem por si mesmos e que passam seus dias procurando líderes que possam guiá-los por não terem qualquer autonomia de pensamento ou capacidade de pensar criticamente. Ao abandonarem um método eficaz e comprovadamente científico, criaram um país de terraplanistas que são incapazes de aprender qualquer coisa e não conseguem nem mesmo usar corretamente uma máscara cirúrgica ou entender um processo de contágio viral. E esse é o monstro que a educação progressista criou e que consumirá esse país: uma população de neandertais em meio a civilização ocidental.
Kleryston Negreiros é professor na rede privada de ensino do Rio de Janeiro e especialista em Gestão educacional.

REFERÊNCIAS:
BENEDETTI, Kátia Simone. A falácia socioconstrutivista: Por que os alunos brasileiros deixaram de aprender a ler e escrever. Editora Kírion. DF. 2020
ENKVIST, Inger. Repensar a educação. Bunker Editorial. SP. 2006.
ENKVIST, Inger. Educação: Guia para perplexos. Editora Kírion. DF. 2019.

terça-feira, 19 de maio de 2020

EPIFANIAS NO CAFÉ DA TARDE


Nesses mais de dez anos no magistério, desenvolvi duas habilidades que me ajudam muito a compreender o que acontece ao meu redor: a capacidade de ver um panorama geral e mapeá-lo nos detalhes e a capacidade de me aprofundar em algo e condensá-lo para transmitir aos demais. E é isso que tenho feito nesses 63 dias de quarentena (escrevo esse texto no dia 19 de maio, já estando em casa desde o dia 16 de março): observar e processar.

O que passei a observar – acompanhado de estudos feitos nos momentos em que não estou trabalhando nem tentando me entreter para não entrar em paranoia – foi basicamente o comportamento dos meus pares (professores), das pessoas comuns em relação a esse confinamento e a conduta do nosso maluco em exercício, Jair Messias. E cheguei a algumas conclusões a partir desses meus devaneios, na verdade, a uma conclusão, que passa invariavelmente pelo mesmo causador: a falta de educação – aqui no sentido acadêmico mesmo – brasileira e seu pouco apreço pelo Conhecimento. Mas, vamos por partes.

A primeira coisa que me chamou a atenção, logo nas duas primeiras semanas de fechamentos de toda ordem no Brasil (as escolas foram as primeiras a fechar), foi o despreparo e desespero da grande maioria dos professores em se adaptarem a essa realidade. Por que me chamou a atenção? Explicarei de forma sucinta: há alguns anos, as escolas privadas – de médio e grande porte em sua maioria e as pequenas em menor escala – adotam plataformas online (chamadas AVA – ambientes virtuais de aprendizado) entendendo que essa geração tem uma relação quase simbiótica com tecnologias móveis e é uma maneira de estender o conteúdo da sala de aula para fora do ambiente escolar. Além disso, há uma profusão de plataformas como essas, mas gratuitas; sem contar que nos currículos de formação de professores –seja graduação ou extensões – o domínio dessas ferramentas se faz presente.

Bem, onde quero chegar: a despeito de estarem disponíveis há pelo menos uma década, a despeito de estarem no currículo da formação docente, a despeito de já serem adotadas em muitas escolas, o que se viu foi um despreparo absurdo por parte dos docentes (antigos ou jovens) que, via de regra, deveriam ensinar aos alunos autonomia e prepará-los para a realidade. O que se viu foi a esmagadora maioria dos profissionais de ensino recusando-se a aprender novas tecnologias aplicáveis ao seu trabalho e que prepararia seus alunos para o mercado de trabalho ignorando o seu aprendizado nesses últimos anos devido a uma visão ludista dessas ferramentas. E o resultado foi a profusão de profissionais endossando o discurso de que o ano letivo deveria ser suspenso, que isso era ruim e contraproducente, que dessa forma só dariam conteúdo (!?) e dando razão aos pais que se recusavam a cumprir com sua obrigação de progenitores que é: educar seus filhos. E mesmo depois de adaptados, muitos desperdiçam a oportunidade de estarem em casa para se aprimorarem através de cursos gratuitos online disponíveis (considerando que a alegação de não se aprimorarem é a falta de tempo e recursos).

Daí parto para outra observação: o comportamento de pais que bradam que não se importam que seus filhos percam o ano letivo, que criticam as escolas por estarem criando meios de cumprirem com seu papel social. Essas pessoas apresentam o mesmo tipo de egoísmo e ignorância daquelas que saem sem máscara, que não se importam ou fazem pouco caso da pandemia, que são incapazes de compreender comandos simples ou, ainda, como bons palpiteiros, debatem até mesmo o uso de procedimentos ou medicamentos como se especialistas fossem.

Essas pessoas não estão preocupadas com seus filhos na verdade, apenas não querem ter trabalho ou ignoram a importância de se criar uma rotina para a criança em tempos de isolamento, não pesquisam ou tentam entender como é importante emocionalmente para os pequenos ter um senso de normalidade numa situação como essa. Assim como o outro exemplo, que não tem a real noção do quão grave é essa pandemia e faz troça, típico daqueles que ignoram as coisas mais básicas; são os que têm pouca capacidade cognitiva para compreender comandos simples e agir para a própria segurança. Assim como os professores citados acima, que são incapazes de usar uma ferramenta intuitiva ou entender uma frase simples de uma instrução, essas pessoas são incapazes até mesmo de entender como se usa uma máscara cirúrgica.

E esse comportamento típico de pessoas com baixa cognição ou baixa capacidade de reflexão é observado no nosso chefe de estado. Bolsonaro é o reflexo do brasileiro comum; todos nós temos um tio ou um vizinho com o mesmo perfil: tacanho, grosseiro, visão limítrofe, desdenhoso com quem sabe mais do que ele e ignorante aos preceitos mais básicos de civilidade. E esse perfil é refletido nas declarações e posturas dele como o pouco caso ao fazer piada enquanto se contabiliza dezenas de milhares de mortes de Covid-19, a irresponsabilidade de politizar uma tragédia pandêmica, impor sua vontade acima de especialistas, et reliqua. Ele, como os citados acima, ignora a ciência, despreza o conhecimento, não é capaz de compreender conceitos básicos e despreza as regras de civilidade ou, no seu caso, da liturgia do cargo que ocupa.

Mas como tudo isso se relaciona, irão me perguntar: simples, tudo é fruto de mais de 60 anos de deseducação no Brasil. O que faz com que tenhamos um povo como o nosso, que tenhamos presidentes como o Lula, a Dilma e Bolsonaro, que tenhamos professores que defendam a suspensão do ano letivo e aplaudam pais que se recusam a educar seus filhos é todo um histórico de práticas pedagógicas adotadas no país que desprezam o Conhecimento e adotam pedagogias que abraçam ideais igualitário e progressistas. São décadas de um programa de ensino que visa a formar professores, ano após ano, que preferem formar cidadãos críticos analfabetos funcionais a formarem cidadãos capacitados a ingressarem no mercado de trabalho e se tornarem autônomos (sim, já ouvi isso de um professor). É mais de meio século formando profissionais de ensino que abrem mão da pesquisa séria e racional e da busca pelo Conhecimento para legitimarem suas visões subjetivas e ideológicas.

E isso tudo, depois de todos esses anos de (intencional) formação precária dos profissionais de ensino, de formação de professores que deveriam abraçar o Conhecimento e sua busca como um credo (mas que o rejeita), depois de jogar em salas de aula essa turba de néscios com diploma, o que se vê é toda uma nação – independentemente da idade – no total vazio moral, na total ignorância, na plena incapacidade cognitiva. E essa população de homens-massa (para usar um termo de Ortega Y Gasset) acabam por eleger um dos seus, ano após ano, independentemente do que acreditem, na esperança de que o mentecapto em chefe possa guiá-los a um futuro promissor. E essa, senhores, é a nossa real tragédia: sermos neandertais em meio à civilização ocidental.

Kleryston Negreiros é professor de Língua Portuguesa da rede privada de ensino do Rio de Janeiro e especialista em Gestão educacional.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A EDUCAÇÃO NO BRASIL MUITO ALÉM DOS CLICHÊS – UM RETRATO REAL DO QUE ESTÁ ACONTECENDO





Depois de política, o tema mais discutido por especialistas de redes sociais por essas bandas é a Educação. Tema caro a todos nós – do meio ou não – ele foi assunto recorrente nos últimos meses tanto pelas confusões promovidas na curtíssima gestão Velez, quanto pela queda de braços promovida pelo atual ministro, Abraham Weintraub, e profissionais da área que se sentem ameaçados por suas medidas e declarações, como no caso do contingenciamento dos gastos das universidades federais e as acusações do ministro quanto à doutrinação de professores e aliciamento de alunos.

Bem, não vou me ater a bate boca de Clotilde aqui, nem levantar bandeira a favor de qualquer lado, o que pretendo mostrar é que, apesar de muito falado, poucos tem a real compreensão de como é a educação no Brasil, mesmo os profissionais da área não se dão ao trabalho de pesquisar e a tentar entender de maneira pragmática o problema e, na esmagadora maioria das vezes, ficam repetindo bordões e frases feitas promovidas por políticos oportunistas ou sindicatos, que no mundo real mais atrapalham do que ajudam. E mesmo esses profissionais do ensino que não procuram olhar de forma racional o drama educacional brasileiro, não o fazem nem é por canalhice, mas por terem sido malformados e também condicionados para acreditarem e reproduzirem ad eternum esses clichês.

Uma prova disso foram os argumentos usados nas manifestações que vimos no último mês onde professores e alunos – não farei juízo de valor, nem falarei nada sobre ter havido ou não coação dos alunos por parte dos professores, não é o intuito desse artigo – dentre eles, o clichê da falta de investimentos na área. Só que hoje, por exemplo, o país investe 6% do PIB – parece pouco, mas é mais do que o Chile e o Uruguai, os melhores sistemas de ensino da América Latina – e tem uma meta de investir 10% até 2024 (mesmo patamar dos países da OCDE). Isto é, como poderá ser visto logo a seguir, investir mais não significa melhores resultados.

Pois bem, as mesmas pessoas que apregoam que faltam recursos na área, não fazem a menor ideia de como ou se há qualquer relação entre gastos e produtividade, também não fazem a menor ideia dos reais números ou qualquer informação e não se dão conta nem de que eles próprios, professores, também foram vítimas desse processo falido e que virou fábrica de analfabetos funcionais. Abaixo enumerarei alguns números que servem para mostrar a quantas anda a educação e que servirá para se entender até mesmo porque os professores por aqui são como são.

O problema educacional já começa na formação do profissional de ensino e culmina nos resultados que mostrarei em breve, criando um círculo vicioso de baixa qualidade de ensino, que leva a um profissional mal preparado, que leva uma baixa qualidade e assim por diante. Dois dados iniciais já dão a tônica de como é formado um professor nas melhores universidades do Brasil:
  1.            Os cursos de licenciatura por aqui – vamos ficar nos principais: Letras e Matemática – dedicam apenas de 5% a 11% da carga horária para disciplinas didáticas específicas, em cursos de pedagogia o percentual ainda é menor, 4%, ficando o restante da grade dedicado a estudos teóricos diversos como sociologia ou história da educação (esses ficam em torno de 22% as obrigatórias e 20% as optativas);
  2.            Metade dos professores em atividade no Brasil não escolheram essa profissão, ou seja, um em cada dois professores queria fazer outra coisa. Pensem um pouco: como você vai trabalhar com competência e dedicação se não é necessariamente aquilo que você quer fazer?


Os dois dados acima não foram tirados do éter, eles fazem parte de uma pesquisa patrocinada pela UNESCO e feita em 2009. Essa pesquisa foi conduzida por Bernadete Gatti, que desde os anos 1980 estuda a situação do docente no país. Esse estudo revelou também mais um dado: os cursos de licenciatura, por serem os menos concorridos, acabam atraindo os alunos com os menores rendimentos escolares já que o nível de exigência para passar é menor (a relação candidato/vaga em Matemática na Fuvest, por exemplo é de 3 para 1).

Pois bem, o que isso serve para ilustrar, vejamos: a profissão que, segundo os memes forma outras profissões, é a que menos atrai cabeças pensantes. Atraindo somente os menos capacitados e ainda tendo uma formação precária, o que temos aqui é uma roda viva de alunos malformados que vão para as salas de aula e formam mal outros alunos, que por sua vez, viram novos professores e entramos num ciclo sem fim. E esses professores despreparados ainda são alvos fáceis de teorias relativistas e coletivistas, como a Escola de Frankfurt ou a pedagogia do oprimido. A realidade é que, quando o ministro fala sobre doutrinação nas academias e professores vêm putos alegando que não foram, na real, eles nem se dão conta do que lhes foi feito, são fruto de 3, 4, gerações de professores imersas nessas teorias, para eles – professores – essa é a realidade, é o mundo a que foram apresentados desde sempre.
E onde isso nos leva? Aos números sobre educação que listarei abaixo. Hoje, temos no Brasil:
  •          29% de analfabetos funcionais na faixa entre 15 e 64 anos;
  •          21% de analfabetos rudimentares na mesma faixa;
  •          8% de analfabetos absolutos (25% desse número são maiores de 65 anos);
  •          41% dos brasileiros na faixa de 25 anos não concluíram o ensino médio (no Chile e na Coreia do Sul, por exemplo, esse número é de 14% e de 7,5%, respectivamente);
  •          35% dos estudantes reprovaram pelo menos uma vez durante a sua vida escolar (a média da OCDE é de 15%);
  •          26% dos alunos abandonam a escola.


Esses números, somados aos baixos salários e os problemas de saúde relacionados ao ofício docente (66% dos professores se afastam por razões médicas, sendo 87% relacionadas ao trabalho em sala de aula), dão a tônica do que é a educação no Brasil. Isso é uma observação racional, a partir da coleta de dados reais e que passa ao largo dos clichês do tema. Infelizmente, aqueles que deveriam olhar de forma clara esses números e fazer algo, os que estão na ponta de lança – professores e gestores educacionais – na maioria das vezes aumentam mais ainda esse drama, não intencionalmente, mas por serem também vítimas desse sistema perverso que destrói a inteligência do país e impede nosso desenvolvimento.

E quando vemos um professor indo para as ruas protestar pedindo mais intervenção do Estado, quando vemos um ministro da Educação com discursos simplistas, quando percebemos a cegueira dos profissionais de ensino sobre a nossa rotina, fica claro o quanto poucos têm a real noção do que está acontecendo e que, infelizmente, esse nó ainda demorará muito a desatar.

Fontes:
ALBERTAL, Adriana L. Os resultados no Pisa: reflexões sobre a educação no nosso país. Direcional Escolas: A revista do gestor escolar, São Paulo, 19 set. 2018. Disponível em: < https://direcionalescolas.com.br/os-resultados-do-pisa-reflexoes-sobre-a-educacao-no-nosso-pais/>. Acesso em: 14 mar. 2019.
BARROS, Daniel. País mal-educado: por que se aprende tão pouco nas escolas brasileiras? Rio de Janeiro: Record, 2018.
MELANDA, Francine Nesello. Violência física contra professores no espaço escolar: análise por modelos de equações estruturais. Trabalho de pós-graduação em Saúde Coletiva. Universidade Estatual de Londrina, Paraná, 2017, 12 p.
PALHARES e DIÓGENES, Isabela e Juliana. Três em cada dez são analfabetos funcionais no país. Estadão, São Paulo, 06 ago. 2018. Disponível em: <ttps://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,tres-em-cada-10-sao-analfabetos-funcionais-no-pais,70002432924>. Acesso em: 14 mar. 2019.
PIERI, Renan. Retratos da educação no Brasil. São Paulo: INSPER, 2018.
TEIXEIRA, Larissa. Ansiedade, estresse, dores de cabeça e insônia estão entre os principais problemas que afetam educadores, segundo estudo realizado pela NOVA ESCOLA. Nova Escola. São Paulo, 16 ago. 2018. Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/12302/pesquisa-indica-que-66-dos-professores-ja-precisaram-se-afastar-devido-a-problemas-de-saude>. Acesso em: 14 mar. 2019.

domingo, 5 de novembro de 2017

SOBRE O TEMA DE REDAÇÃO DO ENEM

Nós, professores de Linguagens, passamos o ano todo instruindo nossos alunos a se manterem atualizados sobre os mais variados temas. Instruímos aos discentes a lerem jornais e acompanharem os noticiários para que possam falar dos possíveis temas, que se espera, a banca do ENEM possa colocar como tema de Redação, algo que seja possível de ser desenvolvido por estudantes de nível médio.
Mas o que acontece é que os organizadores do concurso optam por temas cada vez mais absurdamente específicos. O desse ano, sobre a formação educacional de surdos, é algo específico a educadores, um assunto discutido na academia e não numa sala de aula de ensino médio.
Isso é um absurdo, considerando o nível educacional no país como um todo e a insistente escolha de temas que fogem completamente ao universo de um aluno nessa fase.
O pior é que vão aparecer vários professores que legitimarão esse absurdo com argumentos totalmente fora da realidade e sem a coragem de denunciar esse absurdo que só impede o ingresso aos bancos acadêmicos aqueles que mais precisam se aprimorar.

Professor Kleryston Negreiros

terça-feira, 4 de abril de 2017

LINGUAGEM – A TRANSCEDÊNCIA DA REALIDADE

Por Kleryston Negreiros
Faz alguns meses, um episódio acontecido comigo em sala de aula ficou retinindo em meu pensamento e me levou a algumas ideias sobre o modo como as pessoas vêm interpretando os fatos e as palavras.

A situação foi a seguinte: numa aula de produção de texto, uma professora de Língua Portuguesa pediu para ser ouvinte. Como a uma colega e está iniciando a carreira, não vi problema em deixá-la assistir. Num dado momento, a mesma puxou uma discussão e fez uma relação entre abandono do filho pelo pai com aborto, usando inclusive o termo “aborto paterno” (o que é uma expressão vazia de sentido e lógica). Quando atentei para a incoerência da afirmação dela e como o termo era nonsense – apelando para a etimologia da palavra – escuto dessa professora a seguinte frase: vamos deixar de lado a etimologia e focar no drama social.

Num primeiro instante fiquei escandalizado com essa afirmação, mas logo após o episódio e refletido sobre ele vi total coerência e sentido no que ela disse. Não que sua afirmação estivesse correta, não estava, a coerência que vi foi contextual. Ela, uma jovem recém-formada num curso de licenciatura em Letras numa universidade pública do Rio de Janeiro, não seria diferente que ela pensasse assim. Considerando o cânone em instituições públicas e privadas desse país, é natural que ela ignore deliberadamente, para justificar uma ideologia e seu argumento caber num discurso social sem sentido, deturpe certos preceitos e sentidos reais das palavras. E que preceitos são esses? É o que quero dividir com os leitores desse blog.

O processo de linguagem é a transcendência da realidade. É através dela que descrevemos o mundo natural e real e o levamos para o mundo das abstrações, o que permitiu nossa evolução, já é sabido, inclusive, que a crença de que o pensamento origina a linguagem está errado, na verdade, a linguagem é que forma o pensamento e quanto maior o domínio do indivíduo sobre ela, maior sua capacidade de reflexão e pensamentos complexos.

E isso já era reconhecido ainda na Idade Média, quando foi desenvolvido o Trivium. Já nessa época, quem se propunha a estudar as artes liberais, tinha que estudar a lógica (aplicada a linguagem primeiramente) para depois aprender a gramática e aí a retórica. Esse encadeamento fazia com que o falante tivesse um profundo entendimento da língua latina (a corrente e erudita) e a sua língua nativa e, por conseguinte, um profundo entendimento do mundo que o cercava.

Porém, isso se perdeu no tempo e o que ocorreu foi que a cada século, principalmente a partir do XIX e maciçamente no XX, a lógica foi sendo retirada cada vez mais do estudo de linguagens e de maneira deliberada houve o empobrecimento do ensino de idiomas, que acarretou o fenômeno que temos hoje: a total incompreensão de conceitos básicos, a nulidade em estabelecer uma simples relação de causa e efeito ou mesmo compreender o sentido mais simples ou uma regra óbvia de gramática. E por que isso aconteceu?

Bem, foi algo deliberado. Qualquer estudante mediano de Letras aprende na graduação que a primeira forma de dominação é a da linguagem, o Império Romano, ao dominar um povo, a primeira coisa que fazia era impor o Latim como língua oficial e proibia o uso da língua local. Além disso, formava pelotões com nativos de regiões distintas ou fazia com que soldados servissem a quilômetros de suas terras. A língua é o mais poderoso agente de dominação.

E qualquer tiranete que queira impor sua doutrina ou seu reinado absolutista precisa primeiramente fazer com que as pessoas pensem como ele quer e a forma mais adequada para isso é através do domínio do ensino da língua materna. Domine a palavra e você domina todo um povo. Tanto isso é pertinente que Orwell, em seu romance 1984, criou a Novilíngua.

Pois bem, e onde quero chegar com tudo isso. A verdade é que o ensino de línguas aqui é feito para que cada vez mais as pessoas percam a capacidade de discernir. Ao adotar pensadores que descontruíram conceitos de certo ou errado e foram transformados em gurus do estudo linguístico- o exemplo mais forte, para ficar só nos brasileiros, cito Marcos Bagno, professor da UnB que defende que a Norma Padrão da Língua é na verdade uma forma de prestígio que oprime o falante menos abastado – que vendem a ideia de que há uma liberdade quase anárquica e que o estudo não deve oprimir o falante, que ele só vai se emancipar se o seu falar for respeitado.

Esse relativismo linguístico (que é visto em outras áreas do conhecimento) permitiu que palavras fossem criadas esvaziadas de qualquer sentido, permitindo-se assim jogar qualquer sentido nelas que convenha ao discurso vigente ou que sentidos novos fossem atribuídos a palavras já usuais criando, assim, uma aleivosia dissonante de sentidos e criando confusão e pouca ou nenhuma compreensão do que é dito ou escrito.

E quem ganha com essa torre de Babel linguística é aquele que usa a confusão para vender um discurso fazendo com que os poucos que ainda têm alguma compreensão do que é dito fiquem atordoados com a incapacidade de correlações, assustados como os termos político-econômicos perdem seu sentido ao serem adotados por essas paragens e até mesmo se desesperam ao ver pessoas algumas vezes esclarecidas sendo incapazes de perceber a lógica ou a relação de causa e efeito entre os fatos.

E tudo isso me veio à cabeça e percebi, como disse acima, que fazia todo o sentido a frase de minha colega. Ela é uma professora que foi instruída em sua graduação por professores que forma antes adestrados nesse pensar tortuoso, que por sua vez, foram também formados pelos que vieram antes deles por duas, três gerações de docentes remontando quase meio século de ensino acadêmico enviesado. E ela é fruto disso. O pior. Ela será a professora do seu filho, como tantos outros que saem anualmente das universidades desse país.

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Kleryston Negreiros é professor e administra o blog Professor, Me Indica um Livro? 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

DOUTRINAÇÃO, INVASÕES E FRANKEINSTEIN – O MONSTRO QUE IRÁ NOS DESTRUIR



Por Kleryston Negreiros

Neste final de semana, 191 mil estudantes estarão impedidos de fazer o ENEM – para muitos, a maior oportunidade de suas jovens vidas até aqui, a chance que ingressarem num curso superior e melhorarem de vida. E serão impedidos devido às ocupações que vem ocorrendo por todo o país (mais especificamente em Estados que se opuseram em algum momento ao governo que saiu) em escolas públicas promovidas por alunos que se declaram apartidários e que lutam por uma melhor educação.

Não vou me ater ao paradoxo irônico que essa turba profere. Na verdade (e é do que pretendo tratar), desde que essas invasões começaram, em 2015, não pude evitar a comparação com o sentido de uma obra que li há muitos anos, antes de entrar na faculdade e que rememoro toda vez que vejo a ordem das coisas sendo invertida e sendo promovido o caos. Sim, a obra é Frankeinstein, e, não, não enlouqueci, como pode achar o leitor dessas mal traçadas linhas.

O que me remete ao livro de Mary Shelley é justamente o ponto que levou a essa insanidade no país: a subversão da ordem natural, um espírito jovem e imprudente tomando as rédeas de algo que não lhe compete, a arrogância juvenil de não aceitar os fatos como são ou como devem ser e, de forma caprichosa e mimada, tentar desenhar o mundo à sua imagem e semelhança – algo barulhento e imprudente.

No livro, temos a história do jovem Victor Frankeinstein. Rico, com uma família feliz e estrutura, uma noiva que o ama e aspirante a médico, uma vida sem atribulações ou sustos. Ao ingressar na Universidade de Viena, toma contato com uma teoria de um de seus professores que o impacta bastante: o uso da eletricidade para reavivar mortos. Como todo jovem estudante, fica empolgado com essa teoria tão inusitada e passa a assistir as aulas desse docente.

Tudo ia bem até que a tragédia bate à sua porta e sua amada mãe morre. Não suportando a dor da perda e tentando vencer a morte de uma vez por todas, o rapaz retorna ao seu quarto em Viena, debruça-se sobre os estudos desse professor e tenta trazer à vida um homem criado a partir de cadáveres. Depois de profanar túmulos, isolar-se de todos e chegar à beira do precipício da insanidade, ele consegue dar vida a um ser grotesco, abjeto e assustador composto por partes de corpos mortos. Victor fica assombrado com o que criou e foge, deixando sua criatura recém acordada dos mortos à própria sorte.

O monstro sobrevive, e com o avançar da narrativa vai tomando consciência do que é e quem o criou. Determinado, vai atrás de seu “pai” para que o reconheça como sua criação e ao ser rejeitado por Frankeinstein ele promove uma carnificina em sua família matando pai, irmão, noiva, deixando atrás de si um rastro de morte e miséria. Na narrativa Victor é consumido por seu maior pecado: subverter a ordem natural, sua desgraça é a criatura que trouxe ao mundo por não aceitar as leis naturais e o preço a pagar foi a sua aniquilação pelas mãos do monstro que criou.

E é assim que eu vejo esses jovens militantes. Assim que eu vejo essas invasões. São pequenos Victors insuflados por professores irresponsáveis que os ensinam que a ordem natural deve ser subvertida e negligenciados por pais omissos e permissivos que criam pequenos tiranos incapazes de lidar com frustrações e a ordem estabelecida. São alçados à categoria de engenheiros de um novo mundo, os baluartes da nova era e são instigados com teorias espúrias de caos e miséria. Assim como Victor Frankeinstein, a arrogância desses meninos e meninas levam-nos a atos impensados que causam mais danos que benefícios.

Olhando as escolas ocupadas é possível perceber o poder destruidor desses garotos. O monstro que vai devorando o patrimônio público, as vidas desses jovens e os que são prejudicados por eles é incomensurável. Da mesma forma que a família Frankeinstein foi uma vítima da vaidade do jovem médico, os alunos que perderam aula e terão que fazer a prova dentro de um mês ou até os que farão agora e perderão a oportunidade de se preparar um pouco mais são tão vítimas quanto a família do livro.

Já esses jovens invasores não. Porque num mesmo ambiente de militância, como são essas escolas, há também aqueles que não se deixam contaminar pela a insanidade. Esses pequenos tiranos fazem uso de um discurso que legitima seus mimos e arrogância e essa minoria de bárbaros se acha no direito de decidir o destino de muitos.

Sim. Há uma relação com a obra. Não na estrutura ou diretamente, mas na loucura, na irresponsabilidade, na arrogância. Há relação no caos provocado por um gesto tresloucado e mimado de alguém que não aceita adaptar-se ao mundo, mas ao contrário, quer adaptar o mundo ao seu universo particular. Há proximidade de narrativas entre alguém que não aceita o fato de que há uma ordem, seja natural, seja social, de que sua imprudência não é isolada. E sim, não isento professores, sindicatos, políticos e toda uma corja que se esconde atrás de crianças para ter seus intentos, mas isso, é assunto para outra coluna. Até a próxima.

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Kleryston Negreiros é professor e administra o blog Professor, Me Indica um Livro? 

Também é membro do grupo Biblioteca Liberal-Conservadora

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

ARROGANTE IGNORÂNCIA OU O FIASCO DO ENSINO BRASILEIRO EM 3 ATOS




ATO I

Um dia desses, compartilhei uma postagem que ironizava o ateísmo ao mostrar como o Cristianismo moldou o mundo Ocidental a partir da Idade Média. Como sou católico (menos praticante do que gostaria, confesso) achei interessante, descontraído e repliquei a imagem. Eis que, no decorrer do dia, vi-me, eu e mais alguns da minha lista de contatos da rede social onde postei, envolvido num debate teológico sobre a religião católica e seus benefícios ou malefícios para o mundo medieval e por tabela o atual.

Até aí, nada demais. Muitas postagens minhas rendem discussões, haja vista que minhas posições ideológicas são públicas e procuro ter na minha relação de amigos pessoas de várias tendências ou opiniões, procuro manter uma relação amistosa com todos e ouvir todos os argumentos, mesmo que discorde. Acontece, que o autor da polêmica, que tentou legitimar um discurso ateísta e digladiou com umas quatro pessoas, foi um rapazinho recém-saído do ensino médio, na verdade dois rapazes, que não passam dos vinte anos (um ex-aluno meu, formado no médio ano passado) e um outro também imberbe, amigo de um outro ex-aluno, mas que desconheço.

E isso foi curioso para mim porque esses dois meninos, com pouca ou nenhuma base de conhecimento – tanto por não ter muita idade para empreender um estudo mais aprofundado e amplo sobre o tema, quanto por não terem o hábito de ler – resolveram defender uma ideia cheia de chavões, lugares-comuns de livros escolares do MEC, repleto de achismos e tentavam refutar ou desmerecer argumentos e fontes de: um medievalista, um professor de Literatura (eu), um publicitário e um engenheiro, estes últimos estudiosos de temas conservadores e liberais nas horas vagas.

ATO II

Após a ocupação do Colégio Pedro II, uma aluna minha, contraria a isso, tenta legitimar o ato como forma de protesto e os professores que estimularam os alunos, mesmo que ela própria estivesse sendo prejudicada, já que ela fará o ENEM na próxima semana e as aulas foram interrompidas.

Ao perguntar a ela sobre a razão, se ela (e os demais alunos) tinha lido os projetos de lei que motivaram os protestos e apelar para a falta de sentido disso tudo, quando mostrei a ela que esses mesmos professores que dizem lutar por eles, na verdade, estão apenas atrapalhando as suas vidas, ela teve o gesto mais típico de adolescentes que se deparam com a lógica, racionalidade e a realidade da vida... pediu que me calasse, não queria me ouvir. Nesse caso, sua verdade, seu mundo de protestos e sonhos de mudar o mundo no pátio ocupado da escola – mesmo que as salas estejam vazias e sem aulas, o que é um contrassenso – é mais desejável que o mundo real.

ATO III

Hoje ainda, depois de comentar uma publicação de um amigo católico – sobre a declaração da Arquidiocese do Rio de Janeiro acerca das eleições municipais – um outro ex-aluno, este egresso do Pedro II (o mesmo das saias para meninos e ocupação de alunos sob às bênçãos dos professores e pais prafrentex) e hoje aluno da UFRJ, no alto dos seus 20 anos e quase nenhuma (ou nenhuma) leitura relevante, questionou minha colocação sobre a incoerência de cristãos seguirem discursos de esquerda. Exigiu fontes, apresentou argumentos baseados na Wikipédia, usou um tom irônico para menosprezar dois adultos formados – um deles seu ex-professor e amigo pessoal de sua mãe – e desprezando indicações bibliográficas de autores relevantes sobre o tema.


Pois bem. Três situações muito parecidas com jovens estudantes saídos ou ainda no ensino médio, oriundos de escolas tanto públicas quanto privadas e de diferentes meios socioeconômicos. Todos, entretanto, apresentaram um ponto comum, uma postura arrogante diante de pessoas que haviam estudado mais e por mais tempo que eles, pessoas que já estavam no mundo batalhando, aprendendo, procurando entender o que está ao redor e que possuem mais experiência de vida e de saber.

E esse é o retrato do jovem brasileiro. Uma pessoa que começa a dar os primeiros passos na vida adulta sem qualquer conhecimento, bagagem de leitura, grau mínimo de instrução ou capacidade de compreensão, que acumula meia dúzia de clichês de internet e confronta a todos com sua estupidez arrogante de quem não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe. Um jovem que é fruto de um sistema de ensino que infla seu ego e esvazia seu cérebro, um sistema que desde cedo diz para ele que é capaz de formar o seu saber a hora que quiser, um sistema que o ensina que é quem detém o poder de mudar o mundo, pois é jovem e são os jovens que possuem o monopólio da mudança.

E, ao inflar o ego desses pequenos ditadores, faz com que se sintam os donos do mundo e da verdade, tornam-nos iconoclastas sem critério e entopem as ruas com pequenos bárbaros que riem da beleza, da erudição, debocham do que é tradicional e se regalam, no alto de sua autossuficiência frágil e insegura, da feiura, vulgaridade e estupidez.



Temos um sistema educacional que, infelizmente, está criando uma não só, mas, pelo menos, umas três gerações de mentecaptos – que desconhecem até o significado dessa palavra – de ignorantes arrogantes que desconhecem a diferença entre um substantivo e um verbo, não sabem o que é a fórmula de Báskara, ignoram o que aconteceu na Europa entre 1938 e 1945 e nem ao menos sabem como o ser humano se reproduz, mas que são senhores de suas ideias, que resumem tudo a uma opinião (eles têm várias e sobre tudo) e se arvoram o direito de até mesmo desmerecerem especialistas, porque no fim, tudo é uma questão de opinião e ponto de vista.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Ocupações de escola: Maoismo à brasileira


“No fim de maio de 1966, Mao montou um novo organismo, o “Grupo restrito da Revolução cultural”, encarregado de organizar a purga. (...) “Em junho, Mao estendeu o terror ao conjunto da sociedade, fazendo dos jovens que frequentavam escolas e universidades seus instrumentos primeiros. “Os estudantes foram encorajados a atacarem os professores e a todas as pessoas encarregadas de sua educação, com o pretexto de que uns e outros lhes tinham deformado o espírito com suas “idéias burguesas” (...) as primeiras vítimas foram os mestres e o pessoal administrativo dos estabelecimentos escolares porque eram eles que instilavam a cultura... “Em 2 de junho, colegiais de Pequim afixaram um cartaz assinado por um nome impactante: “os guardas vermelhos” ... “A prosa estava salpicada de fórmulas agressivas “A baixo os ‘bons sentimentos’!”, “Nós seremos brutais!”, “Nós vos derrubaremos e vos esmagaremos aos nossos pés!”. Mao tinha semeado o ódio e ia recolher os frutos desencadeando os piores instintos dos adolescentes que constituíam o elemento mais maleável e mais violento da sociedade”. (p. 556-557) Fonte: Jung Chang e Jon Halliday, “Mao”, Gallimard, Paris, 2005, 843 p.

O Colégio Pedro II realizou evento em homenagem à revolução cultural Chinesa, com a presença do MST e movimentos sociais de esquerda. Pais que protestaram contra isso foram expulsos do evento.


 "A revolução não é o convite para um jantar, a composição de uma obra literária, a pintura de um quadro ou a confecção de um bordado, ela não pode ser assim tão refinada, calma e delicada, tão branda, tão afável e cortês, comedida e generosa. A revolução é um insurreição, é um ato de violência pelo qual uma classe derruba a outra." (Mao Tse Tung).

Nas ocupações de escola, principalmente no Paraná, jovens menores de idade orientados por professores, sindicalistas e universitários ocupam escolas sem supervisão de um maior de idade e não permitem a entrada dos pais dos alunos nessas escolas. Atas assinadas por esses alunos subvertem a realidade, a ordem e as leis. Transformam essas escolas em território onde a constituição inexiste.

Percebam o denominador comum entre as duas situações e também à sua solução. Família.

Eu fui jovem e posso dizer. jovem só faz merda. A ausência de um pai e uma mãe para dar rédeas aos filhos historicamente sempre causou tragédias.

O que a revolução comunista na China tem a ver com os protestos e ocupações de escola no Brasil? Talvez a pergunta certa seja: O que jovens de 16 a 20 anos cheios de ideais e guiados pela pessoa errada podem fazer?

Adultos, sindicalistas pelegos usando adolescentes para fazer o trabalho sujo de uma greve. Isto meus amigos, nada mais é do que um Maoismo à brasileira.

sábado, 8 de outubro de 2016

A Preocupação Esquerdista com a "Educação" é uma Farsa

Ainda que sem querer, a página esquerdista Quebrando o Tabu nos presenteou esses dias com uma pérola que mostra exatamente o que a esquerda pensa sobre educação e escancara o nivelamento por baixo que ela faz.

A princípio, poderia-se dizer que se trata de um caso isolado. Mas com mais de 50 mil "likes", isso mostra que pelo menos outras 50 mil pessoas concordam com este pensamento, mostrando que é muito mais que apenas um caso isolado.

Vejam o que diz este sujeito:






Vejam a inversão de prioridades nisto. Ao invés de dirigir sua indignação à incompetência das escolas públicas, dirige-a contra a competência de uma das melhores, pelo simples fato de ser uma instituição de elite. Note a diferença que faria se, ao invés dos últimos 2 parágrafos, ele tivesse escrito algo assim:

"O fato de que 5 escolas públicas ficaram entre as 100 primeiras mostra que é possível ter uma educação pública de qualidade. Falta descobrir o que tornou isso possível e como expandir este sucesso ao resto da rede pública".

Nenhum elogio às escolas públicas que conseguiram uma boa classificação, nenhuma nota ou comentário sobre usarem-nas como exemplo a ser seguido. Apenas indignação contra a "elite" para então poder reclamar da "meritocracia".

Claro que o conceito de meritocracia tem seus problemas e, de fato, é mais útil como conceito de gestão do que como conceito de economia. Mas o ataque da esquerda à meritocracia não é por acaso. Uma coisa é você mostrar que o que importa não é o mérito, mas a produtividade, e que se você quer de fato melhorar a vida dos mais pobres, o que você precisa é aumentar a produtividade deles. Outra bem diferente é você atacar a meritocracia com o intuito de demonstrar que a ideia de que as pessoas podem prosperar por conta própria é uma piada e que, portanto, são "vítimas" da "sociedade" e precisam de um empurrãozinho do governo. A esquerda odeia a ideia de que as pessoas podem prosperar por conta própria porque isso faria com que todas as pautas políticas que defende se tornem obsoletas, para não dizer contraprodutivas. Por isso não perde uma única oportunidade de atacar a meritocracia.

Em praticamente nenhum lugar você verá esquerdistas convictos discutindo como melhorar a educação das escolas públicas ou como aumentar a renda do trabalhador. Ouvirá apenas queixas sobre a desigualdade. Defensores das cotas não irão discutir como fazer com que as escolas públicas se tornem tão boas quanto as privadas. Ao invés disso, preferem apenas se indignar pelo fato de que os melhores colocados são de instituições de elite, para que possam então denunciar os ricos e a classe média como possuidores de "privilégios ilegítimos" pelo simples fato de terem uma maior probabilidade de passar em processos seletivos, e então usar esta retórica para justificar um agigantamento do estado e mais poder para seus líderes políticos. Se realmente estivessem preocupados com os pobres, no máximo defenderiam cotas como uma medida paliativa enquanto promovem sistemas de vouchers ou similares às charter schools norte americanas, que permitiriam que os pobres estudassem em boas escolas particulares. Dirigiriam sua indignação contra o que há de pior no sistema educacional - que é justamente o que impede que os pobres avancem - e não contra o que há de melhor, que são as instituições de elite. Ao invés de tentar avançar quem está por baixo, opta por denunciar quem está por cima, ou até destruí-los.

O silêncio da esquerda - quando não pura oposição - a medidas que poderiam de fato colocar os pobres em boas escolas, aliado às denúncias de "concorrência desleal" nos processos de seleção é a prova cabal de que a esquerda não liga a mínima para a educação. O que importa para a esquerda não é o fato de que as escolas públicas não conseguem sequer alcançar padrões mínimos de qualidade sob qualquer ponto de vista, mas sim o fato de que os "ricos" têm maiores probabilidades de passar num vestibular. No fundo, o que estão dizendo é que, se os ricos estudassem em escolas péssimas, então estaria tudo bem. Melhorar a qualidade das escolas? Que nada! Fazer ocupação nas escolas enquanto ficam enchendo a cabeça das crianças com aberrações como ideologia de gênero é muito mais proveitoso. "A gente não sabemos fazer conta nem entender um texto", parodiando uma certa canção, mas pelo menos somos engajados porque discutimos gênero nas aulas, não temos preconceito e tratamos igualmente os "alunxs".

A esquerda não liga a mínima para os pobres nem para a educação porque o que a move não é o amor aos pobres, mas o puro ressentimento contra os ricos.

terça-feira, 12 de julho de 2016

NÃO EXISTE GREVE DE ALUNO!!



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terça-feira, 24 de maio de 2016

A CARA DOS NOVOS ESTUDANTES

Duas notícias me chamaram a atenção nos últimos dias relacionadas as ocupações de estudantes no Rio de Janeiro e em São Paulo: na primeira, alunos paulistas expulsaram os ocupantes para que as aulas voltassem a acontecer. Na segunda, uma escola privada da Baixada Fluminense abriu suas portas para alunos oriundos da rede pública prejudicados pela greve dos professores (nos links http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/05/estudantes-expulsam-alunos-de-ocupacao-e-retomam-etec-de-sp.html e http://extra.globo.com/noticias/rio/escola-particular-na-baixada-oferece-vagas-para-alunos-do-estado-que-estao-sem-aula-19308134.html).

O que chamou a minha atenção foi justamente o fato de que nos dois casos os alunos, uma parte considerável deles, foi contra não só ao discurso como também as ocupações em si. Eles queriam aulas, sabem da importância da educação como meio de melhoria de suas realidades. São jovens que não se vitimizam e não compram mais a narrativa dos coletivismos.

Isso é um fato de grande valor para aqueles que batalham para desconstruir a narrativa esquerdista. São jovens que cresceram na era PT e percebem que o discurso de professores e até seus pais não bate mais com a realidade. Eles não se sentem representados por docentes grevistas que dizem lutar por eles. São alunos que querem aulas, querem professores que ensinem de forma honesta, sem esconder a realidade.

E é reflexo desses nossos tempos. Por trabalhar com jovens se preparando para o ENEM, ouço seus relatos, suas críticas com relação aos discursos de professores de esquerda e, devido ao meu posicionamento, aumenta o número dos que buscam algo além de slogans.


Evidentemente, ainda vulneráveis a esse tipo de pressão ideológica, entrarão na faculdade e se depararão com uma militância muito mais voraz, porém, um trabalho bem feito com eles os protegerão de professores mal-intencionados e mostra como há uma nova geração ávida por novas ideias.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Ensinamos História ou Propaganda Política?

Você sabe o que é uma falácia? Falácias são artifícios retóricos que permitem que pareça que se está argumentando sem que se esteja criando um único argumento coerente. Algumas podem ser simples erros de desencadeamento lógico enquanto outras beiram a pura desonestidade intelectual. Voltarei a elas mais tarde.

Estou cada vez mais convencido de que muito do nosso ensino de história não está, de fato, compromissado com a verdade, mas sim em criar uma narrativa com fins políticos, mesmo que para isso tenha que criar falsos heróis e vilões.



Um exemplo ocorreu logo após a votação do Impeachment, quando se criou um verdadeiro estardalhaço nas redes sociais graças à fala do deputado Jair Bolsonaro elogiando o Coronel Brilhante Ustra, o que lhe rendeu ataques furiosos tanto por parte da esquerda quanto da direita, acusando-o de defensor da tortura, não obstante a falta de provas contra o Coronel exceto por testemunhos de terroristas e guerrilheiros comunistas. Os mesmos, por sinal, que praticavam assaltos, assassinatos, sequestros e atentados a bomba. Há inclusive relatos de que os líderes comunistas da época instigavam os militantes a mentirem que foram torturados caso fossem presos.

De qualquer forma, a tentativa parece ser não a de entender o que de fato ocorreu no período militar, mas de retratá-lo como se tivesse sido a época mais negra de toda a história brasileira. Não deixa de ser curioso que o "horror" causado pela ditadura militar não seja reservado à Era Vargas que, para todos os efeitos, também era uma ditadura, talvez até pior. De alguma forma, Getúlio Vargas conseguiu a sua redenção histórica e saiu como o mocinho, não obstante suas flagrantes tendências e inclinações fascistas.

Algo muito parecido pode ser dito da Revolução Francesa, frequentemente retratada como um evento que trouxe "liberdade, igualdade e fraternidade" ao povo francês, apesar de ter apenas substituído um governo autoritário por outro. Basta lembrar que foi logo após a revolução que começou o período napoleônico, ao passo que as análises e alertas de autores como Edmund Burke, para quem a revolução foi um erro, são claramente ignoradas.

O mesmo pode ser dito de diversas personalidades históricas. Anos atrás, a revista Veja publicou uma matéria mostrando as figuras históricas mais mencionadas entre os professores, assim como as avaliações que os professores faziam deles. Entre estes, estava Che Guevara, com uma maioria esmagadora de avaliações positivas e nenhuma negativa. O lado assassino e psicopata do guerrilheiro permanece desconhecido pela maioria esmagadora dos professores e estudantes.

Este viés não é o único problema. A completa desconexão do ensino de história com outras áreas do conhecimento, em especial a economia (mas não se limitando necessariamente a ela) dificultam ou mesmo impedem qualquer compreensão mais acurada da realidade. Lembro de um tempo atrás ter uma pequena discussão em que falávamos da prosperidade de Hong Kong, cujo sucesso atribuo a sua excepcional política econômica não intervencionista. A pessoa em questão disse que esta explicação não era suficiente, e que eu deveria estudar um pouco sobre a história de Hong Kong.

O problema é que a história, da maneira que é tratada, não diz porque as coisas acontecem, apenas narra uma sequência de fatos.

Entretanto, como bem colocado pelo economista Thomas Sowell, fatos não falam por si sós, eles falam contra ou a favor de teorias concorrentes. Sendo assim, conhecimento de fatos isolados não tem nenhuma serventia se isolados dos conhecimentos de causa.

Por exemplo, um aluno poderia passar toda a sua vida acadêmica ouvindo sobre os fracassos do socialismo. Mas quantos, de fato, sabem os princípios que caracterizam socialismo ou, ainda mais importante, o PORQUÊ do socialismo ter fracassado? Sem esse entendimento, as ideias socialistas podem se reciclar indefinidamente e, assim como a fênix mitológica, renascer das próprias cinzas. Basta que se apresentem com nomes pomposos adornados de intenções humanitárias, tais como "justiça social" ou "estado de bem-estar social" que, na prática, não deixam de ser uma espécie de socialismo "light". É como um indivíduo que fracassa mas é incapaz de compreender porque fracassou. Como alguém assim pode ganhar qualquer sabedoria ou prudência com suas experiências passadas?

E aqui voltamos um pouco à questão das falácias que mencionei no começo. Sem esse conhecimento, tanto alunos quanto professores ficam vulneráveis às falácias das mais simples possíveis. Uma dessas, por exemplo, é conhecida pelo nome de falácia ad hoc, que consiste em assumir que 2 eventos quaisquer sejam consequência um do outro apenas porque um ocorreu após o outro. Sendo assim, eu posso ter o evento A que ocorreu graças a B e C, mas que foi atrapalhado pela política D. É muito fácil, portanto, simplesmente ignorar os fatos B e C - seja por má-fé ou ignorância - e portanto assumir que a política D foi a causa da melhora de A.

Um exemplo para deixar mais claro. Há vários estudos mostrando que políticas de salário mínimo causam desemprego. Não vou me ater aos méritos ou explicação do fenômeno, mas vamos supor que isto seja de fato verdade, apenas para efeitos de argumentação. Agora digamos que se notou que, em um período específico, os salários dos pedreiros aumentou consideravelmente. Acontece que esse mesmo período viu uma explosão do mercado imobiliário, o que aumentou a demanda por pedreiros e, consequentemente, também aumentou o salário dos mesmos (lei da oferta e procura). Alguém que ignore ou desconheça esses fatos pode muito bem concluir que o aumento do salário deles foi fruto do aumento do salário mínimo.

Este exemplo, assim como diversas formas de manipulação estatística, mostra como é possível dizer uma grande mentira contando apenas verdades. A não exposição a análises econômicas sólidas torna tanto alunos quanto professores completamente vulneráveis a qualquer propaganda política disfarçada de conhecimento histórico. Nossos alunos não são expostos a uma única análise das consequências das leis trabalhistas criadas durante a Era Vargas - nem que sejam meras comparações com países que não possuem tais leis - e ainda assim lhes é ensinada a narrativa de que Getúlio foi o "pai dos pobres". Demagogos e populistas usam e abusam deste tipo de narrativa, como faz o PT quando diz que foi graças ao Lula que o pobre pode andar de avião. Se não forem tomadas as devidas precauções, logo esta poderá ser a versão que estará nos livros de história.

Para todos os efeitos, despida do conhecimento econômico, o histórico do socialismo - assim como qualquer histórico econômico no geral - não passa de uma sucessão de fatos que não possuem causa nem consequência. Alie isto à incapacidade de pensamento lógico e conciso, facilitado pelo desconhecimento até mesmo das falácias mais básicas por parte de nossos alunos.

Desta forma, a velha máxima que diz que o ensino de história serve para que não cometamos os mesmos erros do passado perde totalmente o sentido. Enquanto a forma de estudar história não mudar, estaremos condenados a continuar em uma espiral intervencionista e a cometer eternamente os mesmos erros do passado.

"Se a prudência da reserva e decoro indica o silenciar em algumas circunstâncias, em outras, uma prudência de uma ordem maior pode justificar a atitude de dizer o que pensamos." - (Edmund Burke)