Millor Fernandes:


Jornalismo, por princípio, é oposição – oposição a tudo, inclusive à oposição. Ninguém deve ficar acima de qualquer suspeita; para o jornalista, não existem santos.

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segunda-feira, 22 de julho de 2019

Previdência não é direito, é investimento

Uma das coisas que mais tenho chamado a atenção nos últimos anos é para prestar atenção aos termos de um debate. Muito da mediocridade do debate público de hoje se deve ao fato de que muitas palavras são usadas de forma inadequada, de forma a marcar posição mais do que, de fato, expor uma ideia objetiva e que tenha um significado claro na realidade.

Se as palavras são a matéria-prima do pensamento, então a qualidade do que pensamos se deve muito à qualidade das palavras que são utilizadas. Se utilizamos palavras vagas ou ambíguas demais, nosso pensamento tende a se tornar também tortuoso e confuso. Intelectualmente falando, é como construir uma casa de palha esperando que ela tenha a mesma substância e robustez de uma casa de alvenaria. E a única forma de garantir que sejamos capazes de pensar claramente é definir adequadamente os termos que utilizamos. Furtar-nos desta tarefa é pedir para sermos enganados por charlatães com o dom da oratória, mesmo que não sejam capazes de expor uma única ideia coerente.

Talvez um dos melhores exemplos disso seja a forma com que a palavra "direitos" é utilizada, principalmente ao se referir a temas como a previdência.

Um sujeito que esteja fazendo uma poupança - para qualquer fim - e apenas guarde dinheiro embaixo do colchão não tem direito de reclamar quando percebe que esta poupança, quando chega a hora de usá-la, é insuficiente se comparado ao amigo que colocou em uma conta poupança gerando juros. Da mesma forma, alguém que investiu na poupança dificilmente teria direito de reclamar do fato deste dinheiro não ter rendido tanto quanto o dinheiro de outro que tenha investido em outros fundos mais rentáveis, como o mercado de ações.

Curiosamente, tal lógica parece desaparecer toda vez que se fala sobre o dinheiro do governo. Pessoas que agiriam de forma completamente lógica ao fazer um investimento parecem ser incapazes de aplicar esta mesma lógica ao dinheiro do governo - simplesmente evitando falar a palavra "investimento" e chamando-a de "direito". Fale com qualquer amigo esquerdista e veja-o falar horrores sobre o tal "regime de capitalização". Ele não saberá sequer definir ou explicar o que é, mas argumentará com toda a convicção do mundo que este regime serve apenas para garantir o lucro dos ricos e dos banqueiros, supostamente às custas dos mais pobres (como se os depositantes de um banco qualquer pudessem ser beneficiados com a falência deste, vendo suas poupanças evaporarem nas mãos de gestores que não mais serão capazes de devolver o dinheiro que os depositantes possuíam em suas contas).

Se formos pensar como investidores de fato, a previdência pode facilmente ser encarada como um investimento em você mesmo. Ou um investimento na sua velhice se preferir. Me parece que nossa educação financeira é tão fraca que,  quando falamos de investimento, normalmente pensamos apenas em algo como comprar um carro ou uma casa própria. Mas mesmo neste caso, a previdência não é muito diferente. A única diferença é que a renda deste investimento é algo que será gasta aos poucos: ao invés de comprar uma casa ou um carro, ela irá sustentá-lo durante as últimas décadas de sua vida, quando a velhice não mais lhe permitir trabalhar com tanto afinco e produtividade como antes.

Se seguirmos por essa linha, não faz sequer sentido haver uma previdência pública, menos ainda compulsória. Chamar encargos como INSS e FGTS de "benefícios" serve apenas para impedir as pessoas de enxergá-los pelo que realmente são: investimentos ruins, fraudulentos e com pouca rentabilidade que o governo força o cidadão a pagar em nome de protegê-los, para fins eleitoreiros. Na prática, é como se ele lhe obrigasse a guardar o dinheiro embaixo do colchão quando você poderia financiar um apartamento e cobrar aluguel.

Não pense, tampouco, que esta será a última vez que haverá a necessidade de uma reforma. O "investimento" que o governo lhe força a fazer é fraudulento porque não há qualquer geração de riqueza, apenas pagamento de encargos, com custos cada vez crescentes e receitas cada vez menores. A maior prova disto está no fato de que você não vê absolutamente nenhuma "crise" nos fundos de investimento privado. Ainda assim, há quem insista na necessidade de uma previdência pública, supostamente para proteger justamente aquela parcela mais vulnerável da população. Chega a beirar a insanidade achar que, para cuidar dos mais pobres, é necessário um sistema que sofre de recorrentes crises - principalmente quando os mais pobres são justamente os mais afetados por estas crises.

Ainda assim, quando chega a hora de pagar, muitos ainda parecem perplexos ao perceber que o governo não mais é capaz de arcar com suas obrigações porque foram treinados a enxergá-la como algo garantido por considerá-la um "direito", sem se preocupar em saber de onde virá o dinheiro. Um investidor entende que há riscos em um investimento e ele pode perder dinheiro em algumas ocasiões. Quando algo é um "direito", a falha em provê-lo é encarado como uma injustiça, por mais previsível que seja este resultado.

Não precisamos de mais políticos cuidando dos pobres e idosos. O que precisamos é de mais educação financeira e de uma população que saiba cuidar de si mesma e administrar melhor o próprio dinheiro.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Rafael Andreazza Daros: Por que virei à direita?

Sim, eu sei. Já existe um livro com o mesmo título deste artigo. Não quero plagiá-lo, mas me pareceu apenas o título mais apropriado para este ensaio.

Tendo já flertado no passado com algumas ideias de esquerda, talvez alguns pudessem se perguntar porque a critico tanto hoje. Alguns podem até dizer que o faço por conveniência e que não mantenho contato com esquerdistas por medo do contraditório e que busco apenas viés de confirmação para as minhas ideias.

Entretanto, digo por experiência própria que simplesmente não vale a pena debater com esquerdistas. Tivessem eles bons argumentos, talvez mantivesse alguns em meus círculos de relacionamentos para confrontar minhas ideias. Mas tudo que consegui até hoje foram apenas desapontamentos.

Podem até me chamar de radical de direita se quiserem. Não me importo. A questão é que o motivo de ter abandonado toda e qualquer simpatia pela esquerda é um só: a absoluta mediocridade intelectual da esquerda.

O esquerdista típico não debate com você, apenas despeja juízos de valor sobre a sua posição baseados na posição dele. Se o assunto é a reforma da previdência, ele não tentará provar que as análises sobre a insustentabilidade da previdência estão erradas, apenas se limitará a dizer que quem é a favor da reforma está a favor do capitalista malvadão e quer tirar o dinheiro do trabalhador. Mostre a eles este vídeo com argumentos mostrando que o boicote a países que exploram a mão-de-obra infantil apenas piora a situação dessas crianças e será acusado de ser um sociopata ou estar a serviço dos interesses dos empresários.

Até hoje, eu NUNCA vi um esquerdista capaz de fazer uma argumentação sólida e pautar seus argumentos em evidências. Você pode discutir com vários deles sobre desarmamento sem que nenhum deles traga um único dado empírico sobre algum país que tenha visto sua criminalidade despencar depois de desarmar a população. Ou sobre algum país que tenha visto o padrão de vida do trabalhador decair por ter legalizado a terceirização. Talvez o exemplo mais emblemático seja este artigo culpando o neoliberalismo por todos os males do mundo. Uma verdadeira obra-prima no que se refere ao uso da retórica em detrimento dos fatos.

Como exemplo, há 2 passagens do texto em especial que me chamaram a atenção. A primeira é quando o autor fala que a cobrança de juros é uma forma ilegítima de renda que apenas transfere renda dos pobres para os ricos. Em momento algum ele sequer pareceu ver a necessidade de se perguntar por que então as pessoas contraem dívidas se sabem que vão precisar pagar juros, ou do fato delas pegarem empréstimos porque têm urgências financeiras e não podem esperar poupar o bastante. Tampouco o autor parece levar em consideração a hipótese de que os bancos simplesmente iriam à falência ou se negariam a conceder empréstimos se fossem impossibilitados de cobrar juros. E, quando tais questões são levantadas por economistas e intelectuais "de direita", jamais os esquerdistas se focam em mostrar algum erro de análise ou fato equivocado. No máximo, pegam citações fora de contexto e interpretadas da forma mais porca possível para que possam denegrir a imagem do autor como se tratasse de um lunático ou um mau caráter cujas ideias nem merecessem resposta.

O comportamento padrão do esquerdista não é rebater o argumento, mas simplesmente desmerecer a fonte como se não fosse digna de crédito algum, ou então atacar espantalhos através de alguma ampliação indevida, extrapolando vícios individuais como se fossem vícios da sociedade (um ato racista isolado jamais é visto como um ato racista isolado, mas sim como uma prova de que "a sociedade" é racista e precisa ser "consertada" através do poder redentor do estado). Já debati com uma esquerdista que simplesmente se negou a ler um link que enviei que expunha melhor a minha posição simplesmente por se tratar de um colunista da Veja. Outros, quando apresentados a um fato novo ao qual não davam crédito, simplesmente perguntavam em tom de deboche: "leu na Veja né?". Outro, novamente ao ser apresentado a um texto que explanava melhor a minha posição, simplesmente acusou o texto de ser "burguês e comportado", seja lá o que isso queira dizer. Outras 2 simplesmente acusaram certos autores liberais de serem um fascista e um racista, mas tampouco foram capazes de justificar a alegação ou de sequer citar algum pensamento do autor em questão que pudessem levar alguém a crer que nutrem algum apreço pelo fascismo ou pelo racismo (a primeira simplesmente mencionou que "ouviu falar" que o autor era fascista e aparentemente aceitou tal alegação como fato consumado sem sequer perguntar o motivo).

Um conhecido meu disse ter percebido como a esquerda quase nunca cita fontes primárias. Há outra passagem no texto sobre o neoliberalismo que mostra isso, quando ele afirma que "O consumo e o crescimento econômico são os motores da destruição do meio ambiente". Uma rápida consulta no google é capaz de refutar isto. Se fosse verdade, então os lugares mais devastados deveriam ser aqueles onde há mais crescimento econômico e mais consumo. Entretanto, dos 10 lugares mais poluídos do mundo, nenhum deles está em países desenvolvidos. Os países mais desenvolvidos da lista são Rússia e Argentina.

Na visão da esquerda, TUDO que acontecesse de ruim no mundo é culpa de alguém que quer efetivamente promover o mal, e nada parece ser deixado ao fruto do acaso ou de forças fora de nosso controle. Por exemplo, se uma vacina mata 10 crianças e salva outras 1000, então os esquerdistas irão acusar a indústria farmacêutica de só se importar com o lucro e não ligar a mínima para as vidas humanas. Se um petroleiro naufraga causando um desastre ambiental, então a culpa é do capitalismo ou da "ganância" dos empresários, apesar do fato de que o desastre tenha causado prejuízo a todos os envolvidos e sem nenhuma consideração à mera possibilidade de existir ou não alguma tecnologia de navegação 100% à prova de acidentes, ou ao fato de que usar meios alternativos de transporte possam causar ainda mais impacto ambiental no longo prazo por dispensarem mais recursos para serem transportados. Toda a retórica esquerdista se baseia em criticar a realidade em prol de uma utopia imaginária: enquanto o capitalismo é criticado por situações lamentáveis que ainda persistem - mesmo que sejam mais acentuadas em países socialistas ou com agendas claramente anticapitalistas - o socialismo é julgado por sua retórica, jamais por fatos.

A visão de esquerda parece se basear em uma busca quase quixotesca por heróis para se admirar e vilões para se odiar. Quase sem exceção, a sociedade ocidental é a vilã, não raro como se esta fosse a fonte de todos os vícios e de toda a maldade no mundo. Um comentário que vi esses dias sobre essa questão ilustra muito bem essa visão por beirar o absurdo. Reproduzo abaixo:

Este pensamento é velho: Se não fosse este trabalho ‘escravo’ os asiáticos estariam em uma situação pior. O cara do vídeo mostra, eu até já li o livro do Krugman. Por tras (tão atrás disto que ninguém lembra) existem dois sistemas de valores que um dia estavam em conflito, agora um domina. Os asiáticos estavam muito bem (obrigado) treinando tai chi chuam e comendo peixe cru, quando chegaram os ocidentais e falaram: vcs não são civilizados, tem um padrão de vida baixo e etc. Mas pelos valores orientais não estava tão ruim. Conversa vai conversa vem, o capitalismo criou um novo mercado consumidor, mão de obra e fonte de matéria prima. Algum tempo depois temos escravos modernos, pobreza, criminalidade alta, prostituição de crianças e toda uma rede de ideologia para que ninguém faça a pergunta proibida: sem os valores ocidentais sobre os quais o capitalismo está assentado os asiáticos não estariam melhor? Pq que tenho que consumir tanto?
Parece uma historia que teve com uns povos que moravam na ‘américa’
Em outras palavras, o que o sujeito está dizendo, implicitamente, é que o oriente era praticamente uma sociedade utópica até que os selvagens ocidentais trouxeram todos os males que afligem o continente. O fato do ocidente ter sido a primeira sociedade na história a condenar e abolir a escravidão parece ser algo de uma realidade paralela, assim como o fato dos povos orientais também terem cometido diversas atrocidades, sendo a China comunista e a Coreia do Norte os exemplos mais notáveis. Será que ele acredita, como deixa transparecer, que sequer existia pobreza no Oriente antes da chegada dos "ocidentais malvadões"?

Para qualquer um que se interesse pelo mundo intelectual e preze pelo rigor e pela honestidade intelectual, e que não seja mau caráter nem tenha rabo preso com alguma visão de mundo ou partido político, a superioridade intelectual da direita é gritante. É praticamente impossível ler autores como Sowell, Mises, Hayek e Dalrymple - entre tantos outros - , e continuar sendo um esquerdista. Eu pelo menos não conheço nenhuma exceção a esta regra. Muitos dos maiores nomes de intelectuais liberais e conservadores são, eles próprios, ex-esquerdistas.

Nelson Rodrigues disse uma vez que não há ninguém mais bobo do que o esquerdista sincero porque ele não sabe nada e apenas repete o que meia dúzia de imbecis lhe dão para dizer. Mas mesmo isto me parece uma visão condescendente demais na minha opinião. Como não tenho rabo preso com nenhuma sensibilidade politicamente correta, vou um pouco além: não suporto a esquerda porque o esquerdista padrão é um boçal.

domingo, 19 de março de 2017

Destruindo clichês: "Violência só gera mais violência."

Um dos maiores vícios do debate moderno talvez seja o uso desmedido de clichês e slogans como substitutos para uma argumentação sólida. Isto é, frases ou provérbios de efeito que são tratados como axiomas ou verdades auto-evidentes, mas que no fundo são apenas fruto de pura preguiça intelectual e acabam apenas transformando debates sérios em discussões de pré-primário.

Nesta série, "destruindo clichês", que espero tenha vários outros textos para a frente (embora não possa prometer nada), me disponho a analisar e derrubar alguns dos mais comuns, expondo a fragilidade da sua lógica (ou falta dela) interna.

O primeiro destes é o clichê que abre o título deste artigo: "violência só gera mais violência", usado frequentemente por aqueles que defendem que o uso da força não é adequado para a resolução de absolutamente nenhum problema (principalmente desarmamentistas), sem levar em consideração as condições específicas do conflito em questão.

É possível que este clichê tenha sua utilidade para evitar brigas de crianças, como uma forma de ensiná-las a resolver suas diferenças de forma civilizado mostrando a elas que o uso da violência só tende a criar mais problemas do que solucioná-los. Mas sua utilidade - ou veracidade - termina aí.

Para explicar o problema desta lógica, é possível separar a violência em dois tipos, de acordo com sua motivação e propósito: a violência ativa, usada para demonstrar ou adquirir dominância, e a reativa, usada para auto-defesa.

O primeiro tipo é usado primordialmente para intimidar e gerar medo e expressar poder, tal como a violência praticada por gangues ou pais e cônjuges abusivos. A mensagem que esse tipo de violência tenta passar é bem clara: "eu mando neste lugar, e quem ousar se opor a mim sofrerá as consequências". O segundo tipo é essencialmente uma tentativa de resistência a esse tipo de violência, uma recusa à submissão.

Normalmente, quem se utiliza deste tipo de violência intimidatória só reconhece a linguagem da força. Isso significa que, uma vez que tudo que eles reconhecem é a força, a única coisa que eles respeitam é uma força superior. Mostrar ter mais força - e não ter medo de usá-la - passa a essas pessoas a seguinte mensagem: "usar a força para conseguir o que quer não será tolerado, e se você tentar fazer isso, não apenas não vai conseguir o que quer, como quem vai sair ferido é você".

Note que, uma vez que esse segundo tipo de violência é usado apenas como uma reação à primeira, é impossível haver violência reativa onde inexiste violência ativa. Mas é possível haver violência ativa onde inexiste a reativa, e é justamente nesses locais onde há mais vítimas inocentes, principalmente pela sensação de impunidade aos que praticam este tipo de violência. A mensagem que se passa para eles é "se eu posso conseguir o que quero praticando violência, por que parar?". O episódio recente da greve da polícia no Espírito Santo foi um exemplo muito claro disto.

Sendo assim, se for possível reduzir a violência ativa (aquela usada com o propósito de dominar) aumentando a violência reativa - isto é, aquela usada apenas para autodefesa - então o resultado será MENOS violência, e não mais. Ou seja: aplica-se certa quantidade de violência para impedir que uma quantidade ainda maior de violência seja iniciada. Aqueles que são contra a ação punitiva podem não vê-la em uma comunidade pacífica. O que eles podem não ver é que a garantia de punição pode ser o suficiente para impedir que a força física sequer seja usada em primeiro lugar. Se a força física não é iniciada, nenhuma reação violenta a ela é necessária.

Um clichê parecido, mas que caminha lado a lado com este, é aquele que diz que "quando um não quer, dois não brigam". Mas isto é apenas uma meia verdade. Para isto ser verdadeiro, aquele que não quer brigar deve ser capaz de se defender. Caso contrário, vira apenas saco de pancadas. Qualquer um que já tenha sofrido bullying na escola sabe que os valentões não estão procurando uma "luta justa", querem apenas mostrar quem é que manda. Valentões normalmente não brigam com outros valentões, apenas infernizam as vidas daquelas crianças mais fracas e incapazes de reagir ou resistir. Este ditado parece simplesmente não levar em consideração a hipótese de que quem quer brigar não passa de um covarde.

Já está na hora de começar a elevar o nível destes debates e começar a discutir estas questões como adultos, e não como se estivéssemos na pré-escola ou criando apenas um bando de crianças birrentas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

“Fronteiras Abertas” é eufemismo para ausência de segurança



Comecemos com um pequeno exercício de lógica. Estamos de volta à Roma Antiga. Do lado de fora das fronteiras, povos bárbaros e sem nenhum senso de decência, prontos a saquearem nossas cidades, roubarem nossa comida, estuprarem nossas mulheres e escravizarem todos os sobreviventes. Você agora é o imperador de Roma. Que medida tomaria? Colocaria mais exércitos nas fronteiras ou abriria os portões para que eles pudessem entrar sem nenhuma resistência?

Se os antigos romanos tivessem a mesma mentalidade que nós, temo que muitos optariam pela segunda opção, tal o nível de leviandade e falência intelectual com a qual muitas questões substantivas são tratadas hoje. O erro? Tratar imigrantes de forma abstrata, como se fossem pessoas abstratas vivendo em um mundo abstrato. Isso significa agrupar, como se fossem um único grupo homogêneo, povos potencialmente hostis de povos que querem apenas fugir de governos e culturas opressoras para que possam trabalhar e viver uma vida honesta sem serem incomodados.

Importar imigrantes não é apenas importar números. Significa também importar valores, costumes e modos de vida. Até mesmo imigrantes com pouca educação e habilidades conseguem prosperar em poucas gerações quando eles trazem consigo uma bagagem cultural que favoreça a prosperidade. Na Grã-Bretanha, não é incomum que filhos de indianos sejam mais letrados que filhos de outras minorias que estudam nas mesmas escolas. Imigrantes judeus e asiáticos também têm prosperado praticamente em qualquer lugar onde se assentam.

Enquanto é verdade que muitos imigrantes engrandeceram e contribuíram para a prosperidade de muitos lugares onde se assentaram, isto não é uma regra universal. Em muitos casos, apenas contribuíram para a desordem social. O fato mais óbvio, e completamente ignorado, é que mudar as pessoas de localização não muda seu comportamento. Quando o furacão Katrina devastou Nova Orleans, centenas de milhares de americanos foram realocados para Houston. Acontece que o índice de criminalidade em Nova Orleans era quase o quádruplo do índice de Houston. O resultado foi uma explosão da criminalidade nesta última. Já na Suécia, imigrantes do Oriente Médio apenas elevaram os gastos com programas de bem-estar social. De 1976 a 1999, o porcentual de pessoas que usaram esses serviços aumentou de 6% a 41%, sendo que apenas 7% da população nativa e de imigrantes europeus utilizava esse serviço, contra 44% dos imigrantes do Oriente Médio o usam. O índice desproporcional de crimes cometidos por imigrantes também fez com que a proporção de imigrantes nas prisões chegasse a ser 5 vezes maior que sua proporção na população geral. Após começar a receber refugiados recentemente, a Suécia se tornou o país com a maior taxa de estupros na Europa, embora possa haver controvérsias devido à forma com que esses crimes são relatados e computados (mais sobre esse assunto neste link). A histeria e o sentimentalismo parecem ter contaminado o debate público a tal ponto que, em alguns casos, até mesmo relações consensuais são tratadas como estupro. Em outras, denúncias graves não são sequer apuradas por medo do escracho da opinião pública.

Hoje, não é politicamente correto sequer falar sobre esses assuntos. Se temos uma certeza, é a de que qualquer um que tentar alertar dos perigos será facilmente acusado de racismo ou xenofobia por palpiteiros irresponsáveis que não sofrem as consequências das políticas que defendem.

Fronteiras não existem sem motivo. Elas existem para garantir a segurança dos cidadãos que nela residem e para garantir a continuidade das instituições e da cultura deste povo. Aqueles que defendem um mundo “sem fronteiras” frequentemente imaginam um mundo que permita o livre trânsito de pessoas pacíficas e decentes, mas esquecem de seu corolário, que é o livre trânsito de terroristas, criminosos e de pessoas que buscam apenas uma forma de parasitar sobre a riqueza de lugares mais prósperos. Imigrantes, estes, que podem até mesmo subverter as instituições políticas e culturais para benefício próprio se lhes for dada uma oportunidade. Por exemplo, circula na internet um vídeo de uma política alemã dizendo que em poucos anos os alemães serão uma minoria em seu próprio país e deixando claro aos "direitistas" que isso é uma coisa boa... deixando implícito que aqueles que querem apenas preservar a cultura de sua terra natal só são contra imigrantes por serem intolerantes ou devido a alguma tara política.

Claro, isso não significa que devamos fechar as fronteiras para todos os imigrantes. Mas a solução frequentemente proposta – de abrir completamente as fronteiras – não é uma alternativa viável, exceto pelo ponto de vista da pura retórica e de políticos oportunistas, pois significa passagem livre para qualquer grupo de desordeiros que vise apenas causar o caos nos lugares que os acolhem. O primeiro dever de um governo é zelar pela segurança de seus cidadãos, não apostar suas vidas pelo benefício de forasteiros desconhecidos.

*Agradecimentos especiais a Thomas Sowell e Theodore Dalrymple pelos dados e análises, sem os quais este artigo não seria possível. Este artigo é uma pequena compilação das análises de Sowell acrescidas de algumas conclusões e comentários pessoais. Leia mais sobre as controvérsias sobre imigração nestes links:








sábado, 8 de outubro de 2016

A Preocupação Esquerdista com a "Educação" é uma Farsa

Ainda que sem querer, a página esquerdista Quebrando o Tabu nos presenteou esses dias com uma pérola que mostra exatamente o que a esquerda pensa sobre educação e escancara o nivelamento por baixo que ela faz.

A princípio, poderia-se dizer que se trata de um caso isolado. Mas com mais de 50 mil "likes", isso mostra que pelo menos outras 50 mil pessoas concordam com este pensamento, mostrando que é muito mais que apenas um caso isolado.

Vejam o que diz este sujeito:






Vejam a inversão de prioridades nisto. Ao invés de dirigir sua indignação à incompetência das escolas públicas, dirige-a contra a competência de uma das melhores, pelo simples fato de ser uma instituição de elite. Note a diferença que faria se, ao invés dos últimos 2 parágrafos, ele tivesse escrito algo assim:

"O fato de que 5 escolas públicas ficaram entre as 100 primeiras mostra que é possível ter uma educação pública de qualidade. Falta descobrir o que tornou isso possível e como expandir este sucesso ao resto da rede pública".

Nenhum elogio às escolas públicas que conseguiram uma boa classificação, nenhuma nota ou comentário sobre usarem-nas como exemplo a ser seguido. Apenas indignação contra a "elite" para então poder reclamar da "meritocracia".

Claro que o conceito de meritocracia tem seus problemas e, de fato, é mais útil como conceito de gestão do que como conceito de economia. Mas o ataque da esquerda à meritocracia não é por acaso. Uma coisa é você mostrar que o que importa não é o mérito, mas a produtividade, e que se você quer de fato melhorar a vida dos mais pobres, o que você precisa é aumentar a produtividade deles. Outra bem diferente é você atacar a meritocracia com o intuito de demonstrar que a ideia de que as pessoas podem prosperar por conta própria é uma piada e que, portanto, são "vítimas" da "sociedade" e precisam de um empurrãozinho do governo. A esquerda odeia a ideia de que as pessoas podem prosperar por conta própria porque isso faria com que todas as pautas políticas que defende se tornem obsoletas, para não dizer contraprodutivas. Por isso não perde uma única oportunidade de atacar a meritocracia.

Em praticamente nenhum lugar você verá esquerdistas convictos discutindo como melhorar a educação das escolas públicas ou como aumentar a renda do trabalhador. Ouvirá apenas queixas sobre a desigualdade. Defensores das cotas não irão discutir como fazer com que as escolas públicas se tornem tão boas quanto as privadas. Ao invés disso, preferem apenas se indignar pelo fato de que os melhores colocados são de instituições de elite, para que possam então denunciar os ricos e a classe média como possuidores de "privilégios ilegítimos" pelo simples fato de terem uma maior probabilidade de passar em processos seletivos, e então usar esta retórica para justificar um agigantamento do estado e mais poder para seus líderes políticos. Se realmente estivessem preocupados com os pobres, no máximo defenderiam cotas como uma medida paliativa enquanto promovem sistemas de vouchers ou similares às charter schools norte americanas, que permitiriam que os pobres estudassem em boas escolas particulares. Dirigiriam sua indignação contra o que há de pior no sistema educacional - que é justamente o que impede que os pobres avancem - e não contra o que há de melhor, que são as instituições de elite. Ao invés de tentar avançar quem está por baixo, opta por denunciar quem está por cima, ou até destruí-los.

O silêncio da esquerda - quando não pura oposição - a medidas que poderiam de fato colocar os pobres em boas escolas, aliado às denúncias de "concorrência desleal" nos processos de seleção é a prova cabal de que a esquerda não liga a mínima para a educação. O que importa para a esquerda não é o fato de que as escolas públicas não conseguem sequer alcançar padrões mínimos de qualidade sob qualquer ponto de vista, mas sim o fato de que os "ricos" têm maiores probabilidades de passar num vestibular. No fundo, o que estão dizendo é que, se os ricos estudassem em escolas péssimas, então estaria tudo bem. Melhorar a qualidade das escolas? Que nada! Fazer ocupação nas escolas enquanto ficam enchendo a cabeça das crianças com aberrações como ideologia de gênero é muito mais proveitoso. "A gente não sabemos fazer conta nem entender um texto", parodiando uma certa canção, mas pelo menos somos engajados porque discutimos gênero nas aulas, não temos preconceito e tratamos igualmente os "alunxs".

A esquerda não liga a mínima para os pobres nem para a educação porque o que a move não é o amor aos pobres, mas o puro ressentimento contra os ricos.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Laicismo ou Perseguição Religiosa?

Provavelmente uma das ideias mais repetidas e defendidas, porém mal compreendidas, é a do estado laico. Frequentemente, a justificativa de que "O Estado é Laico" é usado com interesses muito mais escusos em jogo.

Recentemente, o jogador Neymar recebeu uma carta de reclamação do COI por usar uma faixa escrita "100% Jesus". Um vereador de São Paulo aproveitou a situação para criticar a ação do jogador nas redes sociais, partindo do princípio de que isso de alguma forma possui qualquer relação com o estado laico, e não com um regulamento privado feito pelo comitê organizador do evento.



É difícil pensar, entretanto, que princípio do laicismo demanda que manter a religião "na vida privada" significa suprimir qualquer manifestação de fé religiosa em lugares que não sejam a igreja e a própria casa. A intenção, aqui, parece ser a de simplesmente banir da vida pública qualquer manifestação de fé religiosa.

O que frequentemente parece escapar às discussões sobre o assunto é que laicismo não é sinônimo de ausência de fé religiosa e muito menos de supressão ou neutralidade. O Estado Laico é simplesmente uma forma de garantir a liberdade religiosa e, consequentemente, a liberdade de crença e de consciência.

Como diz Thomas Sowell, até mesmo o famoso "muro de separação entre igreja e estado" sequer existe na constituição americana. Tampouco se referia a qualquer princípio arcano, mas sim a uma situação com a qual os pais fundadores estavam bastante familiarizados. Acontece que a Inglaterra tinha uma igreja oficial, financiada com dinheiro dos impostos, e cujos membros e afiliados gozavam de certos privilégios legais. O que a primeira ementa fez foi simplesmente proibir o congresso americano de fazer o mesmo.

O laicismo é antes de tudo uma limitação ao estado, não ao indivíduo. É um poder de veto que impede a concessão de poder e de privilégios políticos a grupos ou seitas religiosas e que impede que o estado tenha uma religião oficial. Mas a imposição de neutralidade religiosa é uma conclusão que não deriva desta premissa. Seria como dizer que posso obrigar o meu vizinho a pintar sua casa de preto apenas porque a prefeitura não pode obrigá-lo a pintá-la de branco. Ou afirmar que o indivíduo não pode ostentar a bandeira de nenhuma ideologia ou partido político dentro de sua propriedade apenas porque a suástica nazista é proibida.

Da mesma forma, é inconsistente - se não desonesto - dizer que a constituição brasileira impõe a neutralidade religiosa a menos que a constituição assim o especifique. Mesmo sem conhecê-la, é difícil crer que assim o seja quando até mesmo nossas cédulas de real levam a inscrição "Deus seja louvado".

Alguns poderão dizer que isso fere o princípio do estado laico, assim como o fato de haver imagens religiosas em tribunais ou no congresso. Mas, novamente, o laicismo não impõe a neutralidade ou a supressão de fé religiosa, apenas proíbe a imposição de uma crença e de privilégios para grupos religiosos. Não é incomum, por exemplo, que nos EUA o Congresso e até mesmo a Suprema Corte comecem suas atividades com uma oração. Pesquisas de opinião também mostram que parte considerável da população norte americana já admitiu que não votaria em um presidente ateu. No entanto, nada disso muda o fato de que os EUA continuam sendo um dos países que mais respeitam a liberdade religiosa.

Outra ideia consiste em afirmar que, em um estado laico, a crença religiosa não deve interferir na política. Mesmo assim, é questionável se isso é realmente desejável, ou sequer possível. Boa parte da atmosfera moral da sociedade se baseia na religião predominante. Em muitos países islâmicos, por exemplo, as autoridades ainda fazem vista grossa a assassinatos por honra por considerá-los justificados.

É inegável de que, ao longo dos últimos séculos, diversos avanços civilizacionais importantíssimos foram alcançados, mas que, no entanto, não são universalmente aceitos. Dentre esses podemos citar a condenação da escravidão (o Estado Islâmico e outras seitas similares ainda permitem que se tenha escravas sexuais), da conquista militar, da pedofilia, dos assassinatos por honra, do racismo, da violência e da intolerância. Não é de todo improvável que tais avanços sejam defendidos baseados em preceitos religiosos. Nesses casos, a religião pode muito bem ser uma importante forma de defesa contra a tirania. Se, em um país altamente repressor e intolerante, alguém se dispuser a defender a liberdade e a tolerância baseando-se em princípios ou em uma moral religiosa, será que algum secularista ousaria se opor apenas porque sua defesa é de cunho religioso?

Leis devem ser defendidas ou atacadas por suas consequências, independente das motivações que levaram as pessoas a fazê-las. Se a lei é boa e a motivação é de cunho religioso, por que se opor? O que é difícil de entender é que tipo de princípio ou justificativa faz com que seja legítimo defender ou propor uma política ou uma legislação se motivada por razões ideológicas, mas ilegítimo se motivado por razões religiosas. Se tal princípio ou justificativa não existe, então é inconsistente dizer que há algo de ilegítimo em se propor uma política tendo-se por base alguma crença religiosa. 

Um exemplo para tornar mais claro. Se as pessoas que votaram contra a legalização do aborto o fizeram por considerá-lo imoral, e se elas o consideram imoral primariamente por influência da religião, seria de fato factível esperar que as convicções religiosas não interfiram no resultado da votação? Ou: por que o fato de terem votado desta forma haveria de ser incompatível com um estado laico?

Voltando um pouco no tempo, antes que escravidão pudesse ser legalmente abolida, foi necessário que a população aceitasse um código moral que considere a escravidão uma atitude abominável. E a religião é frequentemente o principal alicerce ao qual as pessoas se apegam quando há necessidade de se defender algum valor ou algum código de moralidade. Impedir que se faça isso no âmbito político não é laicismo, mas sim perseguição religiosa, pois é a exata antítese da liberdade de crença e de consciência. Impedir a manifestação de crença religiosa na arena política não fará com que as pessoas não as levem em consideração na hora de votar ou de apoiar suas causas ou bandeiras políticas. Muito pelo contrário: a manifestação aberta de crença religiosa não está em conflito com o estado laico, mas o confirma, uma vez que é exatamente o tipo de coisa que o indivíduo não pode fazer em um estado que não respeite a liberdade religiosa.

A polêmica causada durante a votação do Impeachment ilustra isso. Fez-se muita "polêmica" por causa de senadores que votaram em nome de Deus e da família, ainda que outros tenham dedicado seus votos a terroristas como Marighella e Che Guevara. Que princípio definidor do estado laico, exatamente, faz com que seja legítimo votar em nome de revolucionários assassinos e ideologias sanguinárias, mas ilegítimo votar em nome de Deus, da família ou de convicções religiosas?

domingo, 10 de julho de 2016

Conservadorismo Não é Crime



Em poucos lugares há tanta falta de bom senso quanto o meio intelectual.

Não que haja algo de surpreendente nisto. Em “Intelectuais e Sociedade”, Thomas Sowell dá o diagnóstico. Profissionais como médicos e engenheiros ganham notoriedade ao fazer apenas o que todos os outros fazem, mas com excelência. Já no mundo intelectual, os que ganham notoriedade são os que vêm com algo novo, que fogem ao status quo, que creem ter pensado algo que ninguém mais pensou. Ainda segundo ele, diz-se que muitos criticam a falta de bom senso dos intelectuais, mas que isso não lhes é nenhum atrativo. Como, afinal, poderiam os intelectuais demonstrar sua sapiência superior ao concordar com todo mundo? George Orwell ironizou uma vez essa presunção ao dizer que há ideias tão absurdas que apenas um intelectual poderia acreditar nelas.

Em nenhum outro lugar tal tendência se mostra tão óbvia quanto ao tratamento dado por nossa mídia ao “conservadorismo”. Quando vejo alguém na mídia atribuir a culpa de uma tragédia a uma suposta “onda conservadora” ou ter calafrios à mera menção do conservadorismo, já sei estar diante de um pulha ou de um embusteiro.

Ser conservador não é ser reacionário e querer parar no tempo. É reconhecer que as ideias têm consequências. Ideias são boas ou ruins de acordo com suas consequências. Pouco importa se essas ideias surgiram na última década, no último século ou se sempre acompanharam a humanidade.

Qualquer pessoa que não esteja delirando em seu submundo intelectual particular e esteja mais atento à realidade concreta seria capaz de perceber tal delírio. O povo é conservador por natureza. Se perguntados sobre o que creem ser o maior problema na educação da geração atual, a maioria esmagadora dos pais diriam que é a falta de respeito e de limites. Será que esses intelectuais que vociferam contra a “onda conservadora” diriam que o respeito aos mais velhos (e principalmente aos pais) é um preconceito infundado ou apenas mais uma ideia ultrapassada?

Implícito a essa mentalidade anticonservadora parece estar a noção de que tudo que é novo é bom – por ser novo. É como se dissessem que as novas gerações são tão sábias e racionais que não devem nada e não têm nada a aprender com a sabedoria e a experiência de seus antepassados. Como se todo o progresso e prosperidade, assim como o conhecimento e os valores e instituições que tornaram isso possível, fossem apenas uma dádiva de Deus, e não o resultado dos esforços incansáveis das gerações anteriores. O desdém e o desprezo pelo passado talvez seja uma das maiores formas de ingratidão no mundo de hoje.

Como já disse uma vez o filósofo britânico Roger Scruton, a mentalidade conservadora surge de um entendimento compartilhado por qualquer pessoa madura: de que as coisas valiosas são dificilmente construídas, mas facilmente destruídas. Todo bom conservador não é avesso a mudanças, mas entende que há valores, instituições, conhecimento, hábitos, costumes e tradições benéficos que devem e merecem ser conservados e transmitidos às gerações futuras. Os clássicos não são chamados de clássicos à toa. São clássicos justamente porque sua mensagem é atemporal e capaz de transmitir alguma sabedoria para toda a humanidade, e não apenas para a sociedade de sua época. Por que outra razão ainda haveríamos de estudar filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles? A educação é um processo conservador por natureza, pois estamos apenas conservando e transmitindo às novas gerações o conhecimento acumulado por nossos antepassados.

Mas nada disso parece ter importância para os nossos intelectuais, para quem o “conservadorismo” se torna apenas um bode expiatório, colocando-o como sinônimo de tudo que há de mais abjeto no mundo, como o racismo. Aparentemente, para tais mentes simplórias os conservadores não querem manter o que há de bom, mas apenas o que há de mau, como se conservadorismo significasse perseverar apenas no vício, nunca na virtude.

Já passou da hora de mandarmos às favas toda essa retórica anticonservadora, que nada têm feito além de obscurecer o debate e marginalizar aqueles que creem que muitas das soluções antigas para os problemas da humanidade continuam sendo as melhores soluções disponíveis. A humanidade não é um gigantesco laboratório em que se possa ignorar toda a sabedoria do passado apenas para que um pequeno punhado de seres “ungidos” possam se sentir bem consigo mesmos ao encontrar alguma solução milagrosa para esses problemas, mas que frequentemente só tornam as coisas piores. A busca dessa fórmula mágica já causou demasiados estragos para que continue a ser perseguida impunemente.

"Se a prudência da reserva e decoro indica o silenciar em algumas circunstâncias, em outras, uma prudência de uma ordem maior pode justificar a atitude de dizer o que pensamos." - (Edmund Burke)